Champions: Sporting-Bodo/Glimt, 5-0 (crónica)

Sérgio Pereira , no Estádio de Alvalade, em Lisboa
17 mar, 20:52
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Homérico, leões

Era necessário começar esta crónica com uma palavra que descrevesse o que o Sporting fez, mas ela ainda não foi inventada. Por isso passemos à crónica.

Antes de mais, para sublinhar que se teve a felicidade de ver o jogo, parabéns: acabou de ver história a acontecer em direto à frente dos seus olhos.

Não é todos os dias que acontece, bem pelo contrário. Mas esta também não foi uma noite qualquer. Foi uma noite feliz. Para o leitor, para o Sporting, para Portugal, para o futebol. Uma noite daquelas que os adeptos contarão daqui a muitos anos, com exagero nos olhos e verdade na voz. Daquelas em que o resultado serve apenas de moldura para uma coisa maior: a sensação de ter visto o impossível acontecer.

Porque sim, o que aconteceu em Alvalade não foi apenas uma reviravolta. Foi o futebol a lembrar, com a sua ocasional ternura, que às vezes os milagres não descem do céu: sobem do relvado. Hoje subiu de quase 50 mil corações a bater com a intensidade de uma grande paixão.

É bom começar por aí, aliás.

O Sporting - todo ele, no sentido comunitário do termo -, deixou de ser um clube e tornou-se uma ideia: a de que, por vezes, a vontade pode dobrar o destino. Hoje, como canta Sérgio Godinho, também ele um grande sportinguista, bebia-se coragem até de um copo vazio.

Por isso foi avassalador. Desde o início. Aos cinco minutos, por exemplo, já podia ter feito dois golos. Aos quinze já podia ter feito quatro e aos vinte minutos já podia ter feito cinco.

Foi esta equipa que venceu em Milão e Madrid?

O Bodo/Glimt era por esta altura uma caricatura do tinha sido na Noruega.

Por vezes, muitas vezes, defendia com dez homens na linha da grande área. Só o guarda-redes ficava de fora destas contas, e apenas por razões de força maior. A formação norueguesa, esta mesma que já tinha batido o Inter em Milão e o Atlético em Madrid, limitava-se a despejar bolas, por vezes da forma possível, sem qualquer critério.

Com Alvalade a empurrar a equipa até ela tocar na versão mais alta de si mesma, sentia-se que podia acontecer.

Era preciso um golo, e quanto antes.

Houve uma altura, aliás, em que só uma coisa parecia correr mais do que Francisco Trincão: o relógio, e sempre para o mesmo lado. Até que Trincão, esse mesmo, que jogou esta noite tudo o que poupou em Bodo, bateu um canto que permitiu a Gonçalo Inácio cabecear para golo.

Ele aí estava, o primeiro golo. Tão desejado como o primeiro filho.

Não foi apenas um golo, de resto. Foi uma chave. Abriu uma fenda no jogo e qualquer coisa no peito dos sportinguistas. De repente, Alvalade voltou a crescer. Cada recuperação de bola, cada corrida, cada remate parecia trazer uma faísca.

Um grande golo para tornar o sonho possível

O segundo golo só apareceu na segunda parte, já depois de o Bodo/Glimt ter atirado duas vezes ao ferro na mesma jogada, numa das raras oportunidades que criou.

Mas foi um grande golo. A abertura de Geny, sublime, a lançar Suárez. A velocidade do colombiano a deixar o adversário para trás e aquele passe a oferecer a eternidade a Pote, quando toda a gente esperava o remate. Foi lindo, Mágico, admirável.

Naquela altura percebeu-se que o jogo estava destinado a algo maior. O que parecia impossível tornara-se improvável e o que era improvável passara agora discutível. Faltava só mais um, que chegou num penálti batido por Suárez com a bravura dos heróis.

Quando se entrou no prolongamento, Alvalade já não estava a ver o jogo: estava a vivê-lo por dentro. Havia eletricidade no ar, como se todos estivessem à espera de um clarão. Até porque era uma questão de tempo. Mais tarde ou mais cedo, aconteceria.

Aconteceu duas vezes, a abrir e a fechar o prolongamento, por Maxi Araújo e Rafael Nel. E os adeptos voltaram, por um instante, à infância, quando acreditávamos que um 5-0 podia endireitar o mundo.

Que noite louca, louca, louca

O Sporting apurou-se. Mas dizer apenas isto é pouco. O Sporting fez mais do que meter-se entre as oito melhores equipas. Construiu uma noite daquelas que ficam a morar na memória coletiva. A partir de hoje, em qualquer parte da Europa, talvez até do Mundo, quando alguém falar das grandes noites de Champions, vai ter de viajar a Lisboa. «E aquela reviravolta épica do Sporting por 5-0?», lembrarão.

Épica? Não, foi mais do que isso. Foi homérica, leões.

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