Apresentação do novo treinador do Sporting teve considerações shakespearianas: houve lentezas e também pálidas e lívidas penumbras
João Pereira, uma alma valorosa, devia ter suportado os golpes pungentes da fortuna adversa pedindo a Varandas para jogar pelo menos o dérbi contra o Benfica ou João Pereira fez bem em desarmar-se diante do dilúvio de pontos perdidos aceitando ser despedido sem reclamar um único cêntimo?
"Que nobreza de carácter a do João", afirmou Varandas, "não reclamou nem um único cêntimo na rescisão", acrescentou Varandas, "mas correu mal" este fulminante percurso do João no Sporting, concluiu Varandas. Correu tão mal a João Pereira que se desarmou sem se achar merecedor de soldo, tão mas tão mal que saiu inclusivamente despersonalizado desta dramaturgia natalícia: "João Pereira não pôde ser João Pereira", afirmou Frederico Shakespeare Varandas, que trouxe dilemas hamletianos para a apresentação do novo treinador do Sporting, "Rui Borges vai poder ser Rui Borges, há um ano que estava no nosso radar".
Poder ser ou não ser, eis o problema de João que Rui Borges não terá, pelo menos segundo a projeção de um presidente-vidente que anteviu João daqui a quatro ou cinco anos a treinar um gigante europeu - essa feitiçaria ainda pode acontecer mas já não vai ser por via da poção Sporting porque João teve de suportar os flagelos e ultrajes do mundo, "o João apanhou uma onda de lesões que eu, enquanto presidente deste clube, nunca tive; teve também arbitragens extremamente infelizes, que prejudicaram a carreira de treinador neste momento crucial", explicou Varandas sobre um João Pereira que agora tem de lidar com as ânsias de um amor desprezado e com as afrontas metafísicas, "mas hoje, olhando para trás, o principal problema realmente foi que João Pereira não pôde ser o João Pereira: sai um treinador como Ruben Amorim, perdemos Ruben Amorim, mas também não conseguimos ter o João Pereira, João Pereira tinha inconscientemente de se adaptar e fazer com que uma máquina montada continuasse a rolar", argumentou Varandas sobre as lentezas de um João que não pôde ser João.
Estas terríveis perplexidades que entibiaram e perturbaram a vontade de João Pereira não vão ser dores presentes no sucessor, "olhando para trás, fosse João Pereira, fosse outro qualquer treinador, infelizmente iria passar por isto", disse Varandas, "não tenho dúvidas de que o treinador que aqui vai ser apresentado, Rui Borges, vai poder ser o Rui Borges porque assim lhe é permitido", prosseguiu um presidente que anunciou remorsos infinitos por não ter sido capaz de salvar a existência agitada de João Não Pôde Ser Pereira, "a única coisa que lamento foi não ter conseguido ajudar mais o João, isso é algo que vou carregar comigo para sempre", e assim a brilhante cor da pacífica resolução contratual com João Pereira transformou-se em pálida e lívida penumbra com esta confissão de Varandas.
E os jornalistas, qual Ofélia, perguntaram a Rui Vai Poder Ser Borges "como tem passado estes últimos dias?", e Rui Borges agradeceu a Frederico Varandas por este casamento com o Sporting, "estou muito feliz por poder representar o campeão nacional, é um sonho, é um sonho", mais: "é o momento certo, era o momento certo de eu chegar aqui". O novo treinador gosta muito, gosta muito de reforçar ideias e gosta pouco, gosta pouco de falar, "estou aqui é para trabalhar, sou muito pouco de falar, sou muito tranquilo, muito honesto, muito sincero, muito puro", mas atenção à pureza, atenção à pureza: o Shakespeare que pôde ser Shakespeare escreveu que há casamentos em que é melhor sermos frios como o gelo porque se formos puros como a neve a calúnia não nos poupará - o divorciado João Pereira tem agora tempo para desenvolver uma opinião sobre isso.