Os segredos por detrás do crescimento de Chermiti

10 fev, 09:11
Chermiti

Quando Ruben Amorim falou pela primeira vez dele, o país ficou a questionar-se sobre quem era este miúdo, afinal. Cinco jogos e um golo depois, já se perceberam os elogios do treinador. Mas há coisas ainda por explicar. Nesse sentido, e antes do clássico com o FC Porto, o Maisfutebol mergulhou na história de Youssef Chermiti e foi falar com Francisco Martins: o personal trainer dos craques foi responsável pela evolução física do jogador e garante o miúdo de 18 anos ainda tem muito potencial para trabalhar. É provável, aliás, que no início da próxima época esteja muito mais forte.

Quando o país começava a abrir a porta, depois de um confinamento que parecia ter durado a eternidade, Noureddine procurou Francisco Martins para ajudar o filho. Estávamos em novembro de 2020 e Youssef Chermiti não competia desde o início de março.

Francisco Martins é personal trainer, uma referência da área e trabalha, ou já trabalhou, com muitos dos grandes jogadores portugueses. Rafael Leão, Ruben Dias, José Fonte, Renato Sanches, André Silva, William Carvalho, João Mário, Ricardo Pereira, Gonçalo Paciência, Éder, Gelson Martins, Thierry Correia, enfim, a lista é longa.

«O pai já me conhecia, ele também está ligado ao desporto através do basquetebol e sabe qual é a importância deste trabalho. Veio ter comigo quando o Chermiti ainda era juvenil, naquela fase da covid em que os atletas jovens estiveram um ano sem competição», conta Francisco.

«Ele passou essa fase com a família nos Açores, inclusivamente esteve a fazer um trabalho específico aeróbico e anaeróbico lá. A partir do momento em que ele voltou para Lisboa fui contactado pelo pai e iniciámos então um projeto de desenvolvimento das qualidades físicas.»

Nesta altura convém fazer um parêntesis para recordar que Youssef Chermiti nasceu nos Açores. Filho de um tunisino e de uma cabo-verdiana, é o mais novo de três irmãos.

O pai viajou para Santa Maria para trabalhar, ele que é controlador de tráfego aéreo, mas tem uma paixão pelo basquetebol, foi treinador da modalidade na Tunísia e trabalhou com várias equipas femininas na ilha açoriana. Por isso o desporto sempre fez parte da família.

As duas irmãs mais velhas de Chermiti, por exemplo, jogaram basquetebol na juventude e uma delas chegou a ser internacional sub-20 por Portugal.

Ora por isso o desporto também esteve sempre muito presente na vida de Youssef. Andebol, natação, karaté, o avançado do Sporting praticou vários desportos e por vezes mais do que um por dia. O futebol apareceu aos nove anos, através do futebol de sete. Jogou no Mariense e no GD São Pedro, até que a Escola do Pauleta o convidou para se juntar ao clube.

Uma vez por mês, Chermiti viajava de avião com o pai até à vizinha ilha de São Miguel, onde passavam o fim de semana. Treinava à sexta, jogava ao sábado e ao domingo.

«Se há característica que define o Chermiti enquanto atleta é a capacidade de trabalho e a vontade de desenvolver as capacidades físicas. Sempre sentiu que é algo que ele podia agarrar e torná-lo destaque como é hoje», sublinha Francisco Martins.

«Aquilo em que eu acredito mais nele é exatamente esta vontade de trabalhar e esta capacidade de treino que ele tem. Acredito que o próprio pai lhe incutiu esta ética de trabalho e esta vontade de melhorar, até porque ele também fez outras modalidades quando era criança, a família sempre esteve ligada ao desporto através do basquetebol.»

Descoberto num torneio em Torres Vedras e avalizado por... Emanuel Ferro

Foi ao serviço da Escola de Pauleta que, no final dessa época, o miúdo participou num torneio em Torres Vedras, no qual também esteve o Sporting. O olheiro leonino gostou do que viu e o clube convidou Chermiti para fazer uma semana de treinos em Alcochete.

Em dezembro, nas férias do natal, o avançado viajou para Lisboa e foi avaliado por Emanuel Ferro. O atual adjunto de Ruben Amorim confirmou que o miúdo tinha características morfológicas muito interessantes e avalizou a contratação do jogador.

Foram essas características morfológicas que chamaram a atenção de Francisco Martins, quando começou a trabalhar com Chermiti.

«Tinha 16 anos e já conseguíamos perceber que os indicadores dele eram elevados. Apesar de não ter indicadores de grande valor na força explosiva, conseguíamos verificar que dominava variáveis essenciais para estar na alta competição», revela o personal trainner.

«A maneira como consegue recuperar de esforços de grande intensidade e como mantém um volume alto em exercícios base indicam que tem pilhas extra, como diz o Ruben Amorim.»

Ora voltando atrás, importa dizer que Chermiti fez uma semana de experiência em dezembro e juntou-se ao Sporting em janeiro, altura em que passou a viver na Academia.

O início não foi fácil, sobretudo porque o jovem não trazia o futebol no sangue: trazia, isso sim, o desporto. Começara a jogar apenas com nove anos e na modalidade de futebol de sete.

Durante quatro anos Chermiti foi alternando épocas boas com outras menos boas. Nos anos em que jogava menos, o miúdo merecia sempre o benefício da dúvida. Aos poucos foi crescendo, nos iniciados foi campeão e marcou vinte e dois golos.

Trabalho permitiu-lhe ganhar entre seis e sete quilos de massa muscular em dois anos

Depois veio a pandemia e no regresso a Lisboa, como juvenil de primeiro ano, começou a trabalhar com Francisco Martins. Desde então, e em dois anos, capitalizou as caracterítiscas fisiológicas que sempre o caracterizaram e ganhou entre seis e sete quilos de força muscular.

«Uma das vertentes que procuramos de imediato perceber é o nível de intensidade dos jovens, que está correlacionada com variáveis a nível do treino, indicadores de força máxima, de potência e tempo de recuperação para esforços de maior intensidade. A partir daí podemos verificar qual é o nível do atleta e se o atleta tem claramente progressão para chegar a níveis superiores», explica o personal trainer.

«O Chermiti desde sempre apresentou características que nos permitiam perceber que, se houvesse rigor e consistência no trabalho, mais tarde ou mais cedo haveria uma oportunidade de chegar à primeira equipa. Foi isso que aconteceu.»

No regresso dos campeonatos, e ainda com idade de juvenil, Chermiti começou a jogar nos juniores e na equipa sub-23, na época passada fez dezasseis golos divididos entre juniores, equipa sub-23 e equipa B. Ruben Amorim ficou então com ele debaixo de olho.

«Claramente estamos a ver um atleta que é fruto do trabalho, e do trabalho apenas. Até porque, e como disse Ruben Amorim, a maneira como ele pressiona adversários, como ganha linhas de passe, como joga de costas para a baliza, como vai aos duelos, só demonstra que as capacidades físicas são cada vez mais importantes no desporto de alta competição. Um atleta que consegue perceber isso e que consegue imprimir as coisas que um treinador de equipa grande quer, consegue ter bagagem para poder jogar na primeira equipa.»

O trabalho feito com o jovem durante este dois anos permitiu-lhe apresentar nesta altura características a nível da força e da intensidade que o transformaram em opção para Ruben Amorim. Mas Chermiti tem apenas 18 anos e está muito longe de ser um produto acabado.

É provável aliás que no início da próxima temporada se apresente muito mais forte.

«Numa primeira fase claramente quisemos fazer um trabalho de base, em que ele ganhasse mais massa muscular e de força. Neste momento, em que apresenta níveis de massa muscular e de força superior normais para o peso corporal dele, faz sentido quando acabar esta fase de grande sequência de jogos começar a fazer um trabalho de explosividade», sublinha.

«Eu e o clube acreditamos que o mais importante é fazer um trabalho para que ele possa estar em todos os jogos, o que envolve acelerar os tempos de recuperação. Quando o atleta está num momento competitivo, como ele está agora, trabalhamos a estabilização de todos os indicadores de intensidade, para não sobrecarregar as estruturas fisiológicas do atleta. Existem particularidades no trabalho do Chermiti que ele tem de melhorar e esse trabalho tem de ser feito agora nesta fase de maior dimensão, até para prevenir alguns problemas que ele tem a nível dos adutores e da pubalgia que teve no início da época.»

Quando terminar a época, vai ser tempo de exponenciar a explosão do atleta, um pouco como Francisco Martins fez antes do início da época anterior com Rafael Leão.

«Aí claramente temos que fazer um trabalho de desenvolvimento da força explosiva e da potência. O Chermiti tem uma grande ética de trabalho e capacidades naturais que pode desenvolver para se tornar mais forte em todos os aspetos físicos.»

Por isso, e após cinco jogos e um golo na equipa principal, fica uma certeza: aquele menino de 12 anos que viajou dos Açores atrás de um sonho cresceu e desenvolveu-se, mas ainda está longe de ser um produto acabado. O que os adeptos veem agora é apenas uma amostra.

 

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