"A fome de ser campeão é a mesma de há 25 anos". Augusto Inácio antevê jogo do título e relembra época 99/00

CNN Portugal , MMC
17 mai 2025, 10:00
«Com Pinto da Costa, Sérgio Conceição fica. Com Villas-boas, sai»

ENTREVISTA || Augusto Inácio falou com a CNN Portugal no dia do 25.º aniversário do 0-4 frente ao Salgueiros e desvendou as sensações que teve na caminhada até ao título que deu fim a 18 anos de jejum leonino

14 de maio de 2000, Estádio Eng.º Vidal Pinheiro, Porto

Sporting e FC Porto entravam para a última jornada com possibilidades de se sagrarem campeões. O Sporting, na frente por um ponto, teria de sair de Paranhos com uma vitória, para depender de si próprio na garantia do título. A história, mais tarde, não obrigou os leões a vencer, mas os comandados de Augusto Inácio fizeram-no, quis o destino, na Cidade Invicta. O Sporting, com um ouvido no Vidal Pinheiro e outro em Barcelos, acabou por nem precisar da sua vitória por 0-4, uma vez que o FC Porto havia sido derrotado pelo Gil Vicente, por 2-1. 

Augusto Inácio recorda o dia com um sorriso nostálgico: "Faz 25 anos e recordo-me como se fosse hoje. Felizmente a minha saúde é boa e a memória também. Estádio completamente cheio... fiquei muito feliz, também, pelo Vitor Manuel", à data, o treinador do Salgueiros. "O Salgueiro estava a lutar para não descer. Eu gostava que ele tivesse sucesso, mas também o queria para o Sporting e para mim. Ele veio dar-me um abraço, mas ainda não sabia se tinha descido ou não. Eis que chega alguém e se manda para cima dele, a dar a boa nova. Aí voltou a abraçar-me, com ainda mais força, a ponto de quase esganar-me, tal era a alegria dele. Ficámos ambos muito felizes e ainda hoje recordamos esses momentos". 

Afinal, as épocas de 99/00 e de 24/25 têm mais parecenças do que aparentam: a última vez que o Sporting precisou de ganhar na última jornada para garantir o título - como atualmente - foi na já longínqua época de 1999/2000. Augusto Inácio falou sobre as circunstâncias pontuais similares que a sua equipa e a equipa de Rui Borges têm em comum: "No ambiente antes do jogo, a palestra não vai ser assim tão importante, a não ser os aspetos táticos que têm de alertar os jogadores. Os aspetos emocionais e psicológicos dos jogadores estão no máximo, estão nos limites."   

Mas não é só nisso que Augusto Inácio relaciona os dois planteis: "Não troco a minha equipa por esta! São outros tempos, mas tenho de puxar a brasa à minha sardinha. Tínhamos uma grande equipa, mas não tínhamos um grande plantel. Atualmente, o Sporting tem uma grande equipa, mas também não tem um grande plantel. Isso é semelhante e a fome de querer ganhar o campeonato, como tivemos há 25 anos". 

Curiosamente, no início do campeonato de ambas as épocas, o número de nacionalidades do plantel de então e do de agora é o mesmo: catorze. Para fazer face a muitas diferenças, o antigo técnico dos leões destaca a união necessária para ultrapassá-las: "Não é fácil conciliar todo um balneário repleto de tantas nacionalidades. Quem olha para este Sporting, vê que é um grupo unido, de gente que se dá bem, gente que brinca entre si, mas que está focada naquilo que é o grande objetivo. Naquele tempo, isso foi-se construindo e eles foram acreditando que era possível lá chegar".  

Na época 79/80 e 85/86, viveu momentos semelhantes, como jogador de Sporting e FC Porto, respetivamente. Como era vivido o ambiente anterior a um jogo destes, pelos jogadores?

O jogador é um sonhador. Lembro-me uma vez, de estar no quarto e, naquela altura, os quartos eram com dois colegas, não eram quartos individuais, e muitas vezes diziam ‘O jogo é amanhã, é importantíssimo, temos de ganhar’. E eu digo assim: ‘Também tu? Já não chega toda a gente lá fora? Estás também aqui a pressionar? Vamos ser campeões, calma’. É daquelas coisas... olhamos sempre para o lado positivo e nunca olhamos para o lado negativo das coisas. 

Os adeptos vivem aqueles momentos de uma forma completamente diferente do jogador. E o treinador vive completamente diferente do jogador. Vim a saber isso mais tarde e sei o que isso custa. Mas o jogador julga que ele é que vai ser o herói e vive neste 'mundo de fantasia'. Eu, mesmo sendo defesa, pensava que ia marcar o golo da vitória, que íamos ser campeões e que ia ser o melhor jogador em campo. Mas se calhar aquilo era mais parte do egoísmo da ambição do jogador do que aquilo que era o objetivo principal da equipa. 

Como treinador, sofria muito. Havia muitas noites passadas em claro e, naturalmente, à medida que nos fomos aproximando da jornada decisiva, que ficava mais nervoso. Era interpelado por todos os adeptos, jogadores, direção. Enfim, tudo ajudava a que, naturalmente, sofresse um pouco mais. Mas quando falava com os jogadores... a maior tranquilidade possível. Uma confiança que parecia que me tinha saído o Euromilhões e que o mundo era uma maravilha. 

O que é que os jogadores costumavam comentar na antecâmara de um jogo com esta importância? 

Falávamos de tudo menos do jogo. Falávamos das nossas vidas, passávamos o tempo a jogar às cartas nas viagens e no estágio era a mesma coisa. Para as refeições de equipa, estávamos divididos em mesas de quatro. Perguntava sobre o jogo do dia seguinte e eles diziam-me com aquela pronúncia do Norte: ‘Oh... lá vens tu com essas coisas. Amanhã é outro dia! Amanhã pensamos no jogo’. Talvez fosse uma forma de descompressão, em vez de estarmos obcecados a falar só no jogo. 

Quando começava a conversa sobre o jogo? 

Só quando chegávamos ao balneário. Passávamos a saber quem ia jogar e, quando nos estávamos a equipar, comentávamos os detalhes do jogo, pequenos aspetos dos nossos lugares, do colega que jogava do nosso lado e do jogador com quem íamos 'bater de frente'. À saída do balneário, antes do verdadeiro clímax, que é a entrada no relvado, aquele grito em uníssono, independentemente do que poderá querer dizer, significa o 'soltar' algo que vem de dentro, o 'sacudir' algo que esteve preso durante a semana e que, a partir daquele momento, vem cá para fora. 

Como é que um treinador alerta os jogadores para a importância deste encontro, sem que isso levante algum tipo de nervosismo e, simultaneamente, tenta levantar a moral do grupo, sem que isso implique excesso de confiança? 

Não creio que os jogadores estejam alterados, mas naturalmente estão ansiosos. E à medida que o tempo vai passando, essa ansiedade vai aumentando, porque nunca mais chega a hora do jogo. O que o jogador quer é que comece já o jogo. Isto não altera a dinâmica do treino, mas altera psicologicamente um jogador. Uns mais vulneráveis, outros menos vulneráveis, naturalmente, porque o individual muitas vezes pode 'destruir' o coletivo e, por isso, o treinador tem de saber e conhecer os jogadores que tem. 

Acredita que os jogadores com maior estatuto, nomeadamente o capitão, podem ser úteis para isso mesmo? 

A voz do treinador, quando o jogo está a decorrer, por muitos gritos que dê, não chega aos jogadores. Para dar instruções chamava quem estava mais perto e dizia-lhe: ‘Vai dizer isto ao capitão’, para o capitão passar a mensagem que pretendia, a quem pretendia. Normalmente, num grupo não há só uma personalidade forte. Há duas, três ou quatro. E os três ou quatro fazem, também ouvir realmente aquilo que o colega, o capitão ou treinador dizem. Daí haver vários capitães e não um só.

Acredita que a ausência de Morten Hjulmand pode ser sentida? 

Há que dividir a resposta em dois aspetos: a categoria dele, enquanto jogador e enquanto líder. Quanto à qualidade dele, exclusivamente enquanto jogador, é indiscutível. Se não é o melhor do mundo na sua posição, é claramente um dos melhores. Não na posição de médio mais recuado, propriamente dita, mas na execução exímia das tarefas que os treinadores que o orientaram lhe dão. O Gyökeres empurra os adversários e puxa a equipa para mais e mais. Mas o Hjulmand dentro do campo, serena as coisas quando as circunstâncias estão mais quentes, como no caso do Gil Vicente. Ele não jogou e parece que o Sporting se transformou. A entrada dele coincide com os golos que o Sporting marca, apesar das várias nuances que esse jogo teve. Pode ser uma coincidência, mas é uma coincidência que favorece o Hjulmand. Diria que ele é quem tem sempre uma voz para o colega. Uma voz já com palavras portuguesas, até, de levantar a moral quando algo parece correr menos bem e, por isso, sim, o Hjulmand vai fazer alguma falta.

Enquanto líder, ele vai estar sempre com os jogadores, com os colegas. Vai estar nos treinos e estou convicto de que também vai para estágio.
E vai para o estágio porquê, não indo jogar? Precisamente por causa disso. Vai estar no almoço, vai estar no jantar e vai estar no autocarro. Só vai sair de perto dos colegas quando for para a bancada ver o jogo.

Agora, se o Sporting não é campeão porque o Hjulmand não está é porque não merece ser campeão. O Sporting não pode depender de um ou outro jogador para ser campeão. Se faz muita falta? Sim. Mas também fará falta o jogador que entrar no onze para o lugar dele, que, neste caso, acredito que seja o Morita. 

Olhando para o que se pode passar no relvado, como acredita que o Sporting se preparou e se vai apresentar? 

Por um lado, o Rui Borges deu um tiro no pé. Falar dos jogadores do Vitória que sofreram amarelos para jogar contra o Sporting, é um erro muito grande e acredito que, se ele estivesse do lado do Vitória SC, de certeza que ia sentir-se picado. Tudo isso era escusado e sem necessidade nenhuma. Por outro, concordo plenamente com os dois dias de folga dados por Rui Borges aos jogadores. Não no sentido de dizer que o pior já passou, mas no sentido de aliviar uma carga emocional pesadíssima associada ao jogo da Luz. 

Quanto ao Vitória, é uma boa equipa a precisar de pontos, dependendo do resultado do jogo entre o Farense e o Santa Clara, para poder garantir as competições europeias. É certo que também não tem o Tomás Händel, mas o Vitória é uma equipa que gosta de ter a bola, porém tem pela frente um Sporting que pode não deixar que isso aconteça, porque estou convicto que vai ser o mesmo que o jogo na Luz: pressionar na frente e não deixar o adversário jogar, pensar ou respirar. Porque enquanto o Sporting tem força para fazer isso, fá-lo bem e praticamente não dá confiança ao adversário. Fá-lo bem, mas tem de marcar golos nesses momentos. O Vitória, gostando da posse de bola, também terá esses momentos, especialmente tendo um meio-campo que não joga indiscriminadamente na frente. Sabe jogar, sabe construir, tanto pela direita como pela esquerda e também pelo meio. 

E se o Sporting não marcar nesses momentos?

Pode haver algum nervosismo, mas, neste jogo, tenho a certeza que os jogadores vão estar a 'ferver'. Agora, se o jogo for avançando e o golo não chegar, aqueles gritos de apoio em Alvalade que os jogadores sentem muito, podem levantar alguma pressão, é normal. Aquilo até arrepia na espinha e, parecendo que não, dá muito força aos jogadores. Ainda assim, se o jogo chega empatado ao intervalo, pode ser complicado. 

Há 25 anos, chegou ao intervalo empatado a zeros, com o Salgueiros, nesse jogo decisivo. O que disse aos seus jogadores? 

Por norma ainda faço isto: há 15 minutos de intervalo e dou sempre 8, 10 minutos para os jogadores beberem água, pensarem um bocadinho, molharem a cabeça, e só quando eles estão quase entrar é que falo dois ou três minutos. A não ser que haja aspetos táticos que sejam mais profundos, mas ali não era o momento para isso. Dei-lhe esse tempo e perguntei-lhes: ‘Como treinaram esta semana?’. Eles reponderam: ‘Uma maravilha, sem pressão, sem stress’. ‘Então levem isso para dentro do campo. É como se estivessem a treinar e vocês vão ver que os golos vão acabar por aparecer’. E não demoraram a aparecer. Com dois minutos da segunda parte fizemos logo um golo de livre. O resto é história. 

Já tinha referido as semelhanças entre os dois planteis. E as diferenças? 

Há uma grande diferença, que é a do momento, em termos de médio prazo. Quando cheguei, o Sporting já estava há 18 anos sem ser campeão. Este Sporting foi campeão no ano passado. O Sporting pode fazer um feito de ser bicampeão que já não é há mais de 70 anos.

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