Shaken, not stirred
O mais famoso agente secreto da história deixou várias frases para a eternidade. A mais épica, claro, será sempre my name is Bond, James Bond.
Mas houve mais.
Houve, por exemplo, shaken, not stirred, que era como ele gostava que lhe servissem o Martini.
Este Sporting ainda não tem o glamour de um Martini italiano, com três doses de Gordon’s, uma de vodka e meia de Lillet, mas o que Rui Borges fez com ele tem muito do famoso agitado, não mexido dos melhores filmes de James Bond.
Mais do que mexer aqui e ali, o transmontano pegou numa equipa completamente descrente e destruída, colocou-a inteirinha dentro de um shaker e agitou-a com a força que tinha.
Agitou-a tanto, aliás, que colocou em campo uma linha de quatro centrais, com Matheus Reis a jogar à esquerda e Eduardo Quaresma a sair pela direita.
Quando a equipa atacava pelo lado canhoto, Matheus Reis subia como um lateral e Quaresma fechava ao centro como terceiro central, quando a equipa atacava pela direita era ao contrário: Quaresma subia, Matheus ficava.
Esta forma de jogar parece ter criado muitas dúvidas no Benfica, que entrou em jogo atordoado e errático.
A partir daqui estabeleceram-se uma série de distâncias que permitiram ao Sporting crescer, e crescer, e crescer. Afinal de contas, esta equipa só precisava de confiança. Aqueles primeiros minutos trouxeram-lhe isso e foi como a casca de limão num copo de Martini.
Com Geny Catamo a acelerar pela direita e Geovany Quenda a fazer o mesmo pela esquerda, numa espécie de 4x2x3x1 em que Trincão ficava solto, no apoio a Gyökeres, a formação leonina foi criando uma, duas, três ocasiões de golo. Até que por fim marcou mesmo.
Gyökeres ganhou a frente a Tomás Araújo (que primeira parte terrível do central!), cruzou e Geny Catamo (sempre ele!) fez o golo que valeu a mais saborosa das vitórias.
Catamo, aliás, tem este hábito de marcar ao Benfica. Fê-lo em dois jogos na época passada, voltou a fazê-lo agora. É o suficiente para ser herói em Alvalade.
Bruno Lage mexeu ao intervalo e mexeu bem, Rui Borges não fez por menos
Era demasiado óbvio, de resto, que o Benfica estava obrigado a fazer alguma coisa na segunda parte e a solução de Bruno Lage foi trocar Florentino por Leandro Barreiro.
Parecia troca por troca, é verdade, mas foi mais do que isso. Kökçu ficou como médio mais recuado, Leandro Barreiro entrou para pressionar mais alto, muitas vezes surgia nas costas de Amdouni e isso obrigou o Sporting a juntar-se mais ao centro.
O que tornou a manta curta. Sobretudo porque sobrava espaço nas pontas, que os laterais aproveitaram para explorar.
Aliás, viu-se até Bruno Lage a gritar com Carreras para subir e pedir a bola bem aberto na linha.
Com isso, o Benfica jogou muito em cima da baliza leonina, e durante muito tempo. Mas Rui Borges também mexeu bem a partir do banco, as entradas de Maxi Araújo e João Simões refrescaram a equipa, e as melhores oportunidades da segunda parte até acabaram por ser do Sporting, em saídas rápidas.
Feitas as contas, portanto, a vitória assenta à formação de Rui Borges. Que acabou desfeita, é verdade, sem mais uma gota de suor que fosse para libertar. Quaresma até teve de ser substituído com cãibras.
O que prova duas coisas: que o Sporting teve atitude (muita atitude!) e que houve uma diferença enorme para o passado recente.
Lá está. Shaken, not stirred.