Chegou a Londres como plano B e agora é a maior ameaça ao Sporting

14 mar 2023, 09:39
Leandro Trossard (AP Photo/Frank Augstein)

Contratado como uma segunda escolha, depois de falhada a aquisição de Mudryk, acabou por ter um impacto imediato no Arsenal (ao contrário o que o ucraniano está a fazer no Chelsea). Tanto assim que no último domingo, por exemplo, fez três assistências em menos de meia hora. Por isso, em semana de jogo decisivo com o Sporting, o Maisfutebol viaja à história de Leandro Trossard, um belga que cresceu entre italianos, a jogar na rua e a mostrar mau perder. Tudo casualidades que o levaram a ser o jogador que é hoje.

Chama-se Leandro Trossard, tem 28 anos, é belga e foi contratado em janeiro ao Brighton por 30 milhões de euros.

Para os mais distraídos, Trossard é o nome que está a ferver por estes dias no Arsenal. Falhou o jogo de Alvalade na última quinta-feira, devido a lesão, mas está recuperado e de regresso ao que melhor saber fazer. Ele que curiosamente chegou a Londres como segunda escolha: uma espécie de plano B, depois do clube perder o ucraniano Mykhaylo Mudryk para o Chelsea, que ganhou a corrida ao pagar 70 milhões de euros ao Shakhtar.

Ora por essa altura Trossard estava em litígio com o Brighton, e sobretudo com o treinador Roberto de Zerbi. O italiano acusava o jogador de falta de compromisso e tinha-o deixado de fora dos três últimos jogos.

Atento à situação, o Arsenal garantiu um substituto para Mudryk a um preço muito mais em conta e a verdade é que o impacto de Trossard foi imediato.

Ao contrário do que Mudryk tem feito no Chelsea, curiosamente.

Trossard participou em dez jogos da equipa de Mikel Arteta, os últimos cinco dos quais como titular. Realizou cinco assistências e marcou um golo.

Pelo meio tornou-se o primeiro jogador na história da Liga Inglesa a fazer três assistências na primeira parte de um mesmo jogo e o primeiro jogador da história da Liga Inglesa também a fazer um hat-trick de golos (Liverpool) e assistência (Fulham)  num mesmo campeonato.

Mas o que é que Leandro Trossard tem afinal de especial?

Extremamente rápido, com boa técnica e um excelente sentido de finalização, o avançado belga é um daqueles jogadores forjados na rua.

Natural da pequena vila de Lanklaar, a quinze minutos de Genk, Trossard cresceu numa comunidade humilde, emigrantes de várias gerações, vindos sobretudo de Itália. Por isso grande parte dos vizinhos ainda se comunicava em italiano e entre os amigos mais próximos o Milan era o clube de eleição.

Filho de um operário e de uma proprietária de um café, o avançado começou a jogar no VV Lanklaar, o clube de futebol local, no qual o pai também jogara.

O campo ficava, aliás, a dois minutos a pé da rua de Krekeldries, onde passava os dias a jogar à bola e à apanhada. Também gostava de playstation, embora a mãe confesse que por esses dias era normal os rapazes passarem dez horas na rua.

O sonho de jogar no Genk por influência do avô e a explosão às mãos de um adjunto de... Arteta

Giuliano, um amigo da altura, disse que eram muito competitivos e tinha sempre de haver um vencedor. A maior parte das vezes jogavam cada um por si, só em direção a uma baliza, quem marcasse mais golos ganhava. Às vezes faziam equipas de dois contra dois e ninguém queria ficar na equipa de Trossard porque já sabia que ele não lhe ia passar a bola.

«Mas estou feliz porque sinto que todas aquelas horas de futebol valeram a pena. Todos nós tínhamos o sonho de nos tornarmos jogadores profissionais um dia e um de nós conseguiu», confessa Giuliano.

Por influência do avô, que o levava ao estádio desde muito pequeno, Trossard sofria verdadeiramente era pelo Genk e sonhava um dia jogar naquele clube.

Com 16 anos o sonho cumpriu-se e foi mesmo contratado pelo clube, onde viria a acabar a formação. Num dos grandes da Bélgica, do qual também saíram, por exemplo, Kevin de Bruyne, Courtois ou Ferreira-Carrasco, o avançado rápido, mas frágil, ganhou músculo e deu força ao sonho de ser jogador profissional.

Era o sonho de todos aqueles rapazes, no fundo. Mas só ele conseguiu.

Hoje um dos amigos é assistente numa loja, outro trabalha numa bomba de gasolina, Giuliano é operário numa fábrica. No entanto, e mesmo depois de sair de Lanklaar, Trossard voltava sempre nas folgas e nas férias para estar com eles.

«O curioso é que ele continua a ser o mesmo rapaz simples. Quando jogava no Genk e nós íamos a casa dele no dia do jogo buscar os bilhetes, ele estava lá sentado no sofá a jogar playstation. Umas horas depois era o melhor em campo.»

O trajeto de Trossard nem sempre foi uma linha reta, porém.

Depois de concluir a formação, por exemplo, o avançado foi quatro vezes emprestado pelo Genk a clubes mais pequenos. Apesar disso nunca pensou em desistir, nunca se desmotivou. A vontade de ser jogador foi sempre mais forte.

«O que marcou a diferença entre ele e os outros rapazes da rua foram sobretudo três coisas: fazer as escolhas certas, ter alguma sorte e uma grande dose de perseverança. Especialmente esta última», sublinhou Giuliano.

Acabou por ser Albert Stuivenberg, agora adjunto de Arteta, quem finalmente o fez titular no Genk. Uma aposta que deu frutos. Em dois anos marcou 17 golos e fez três assistências, na terceira época marcou 22 golos, fez nove assistências, tornou-se capitão com 24 anos e foi peça fundamental no título de campeão.

O Brighton não hesitou em pagar vinte milhões de euros por ele e ganhou no belga o avançado mais influente: em média, Trossard participava em 5,3 ataques da equipa por jogo. Em três anos e meio marcou 25 golos e fez 13 assistências.

Nenhum outro jogador atingiu estes números.

Por isso a transferência para o Arsenal, apesar de tardia, acabou por ser o passo lógica num trajeto sempre a subir. E assim, sem soltar fogo de artíficio, o belga 25 vezes internacional chega a este jogo com o Sporting a ferver por dentro.

Ele que mantém os traços que todos lhe reconheciam de miúdo: tenacidade, muitas dificuldades no francês como qualquer natural da Flandres e uma grande capacidade de explosão em espaços curtos.

Arteta percebeu que estas características naturais, que o Genk aprimorou na formação com um bom entendimento do jogo coletivo, podiam fazer a diferença na frente de ataque e desviou o belga da esquerda para o centro, numa espécie de falso nove. No último fim de semana ganhou com isso três assistências para golo e um triunfo importante no terreno do Fulham.

O Sporting que se prepare, portanto.

 

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