Este golo anulado reabriu a guerra ao VAR em Portugal. "São fraquinhos e este ano estão a errar em demasia"

21 fev, 16:00
Estádio do Sporting

O lance que podia ter dado vantagem ao Famalicão frente ao Sporting acabou invalidado após intervenção do vídeo-árbitro. A partir daqui a questão é tripla e direta: houve falta? Era caso para o VAR intervir? E, sobretudo, o protocolo explica de forma inequívoca o que é um erro "claro e óbvio"? A CNN Portugal ouviu três vozes com olhares diferentes sobre o jogo: o comentador Rui Santos, o antigo internacional Maniche e o ex-árbitro José Leirós

Foi logo aos oito minutos de jogo que a equipa visitante deixou Alvalade em silêncio: Ibrahima Ba fazia o 1-0 para o Famalicão à 22ª jornada da Liga. Mas logo a seguir os adeptos verde e brancos explodiram em protestos: reclamavam falta. O árbitro David Rafael Silva levou a mão ao ouvido e seguiram-se minutos de espera: o VAR chamou o árbitro e a decisão mudou. Falta ofensiva, golo invalidado.

Houve falta? Entre a "zona cinzenta" e a certeza absoluta

Para Rui Santos, o lance mora na tal "zona cinzenta" que o futebol conhece bem. "Há um conjunto de lances que dão para os dois lados", explica. Tudo depende do critério: mais largo ou mais curto.

Se o critério for largo - como defende - "esses toques não devem ser valorizados". Se for curto, qualquer contacto é falta. "E isso é contra o futebol", sublinha. Para o comentador, existiu contacto, mas "dentro dos limites daquilo que é uma modalidade que apela ao contacto". Resultado: foi um "erro por excesso". 

Maniche olha para o mesmo lance com a experiência de quem passou cerca de 16 temporadas dentro das quatro linhas. "Nem todo o contacto desequilibra de forma ilegal", afirma. Na sua leitura, o jogador do Sporting já estava em movimento de queda e o toque posterior não é suficiente para justificar falta. "Como jogador, para mim, não é falta."

Admite, ainda assim, que uma análise fria, apenas pelas leis do jogo e com recurso à repetição exaustiva, pode levar à decisão contrária. Mas insiste que o futebol não é um laboratório: é ritmo e intensidade: "Foi preciso ir à lupa, ao pormenor dos pormenores, para descobrir esta falta porque, em jogo corrido, não é claro nem óbvio."

Já José Leirós não vê qualquer ambiguidade. "Sim, é falta. E claro que o VAR devia ter intervenção como teve, porque é claro e óbvio que há uma infração." O ex-árbitro garante que as imagens disponíveis - incluindo um ângulo traseiro - mostram "nitidamente" o contacto faltoso. E contextualiza a falha do árbitro de campo: "Estava longe, em rotação para recuperar terreno, e é por isso que não consegue ver o que aconteceu entre três jogadores. "Sem VAR, diz, "teria sido um golo irregular".

Se demora 15 minutos a ser analisado, o lance é "claro e óbvio"?

Rui Santos recorda que defendeu publicamente a implementação do VAR, mas entende que o seu papel deve ser "mínimo".

"O VAR não tem de ser um quinto árbitro. Está ali mesmo para aquelas situações claras e óbvias e só nessas circunstâncias deve intervir."

Para o comentador, o problema não é a ferramenta, mas o modo como é usada. "O VAR acaba por condicionar a opinião do árbitro principal." Mesmo que a decisão final seja do juiz de campo, o simples chamamento altera o equilíbrio psicológico. E no lance em causa, insiste, houve "excesso".

Maniche concorda que "não é lance para VAR". "Se o árbitro demora 10 ou 15 minutos a analisar imagens, então o lance não é claro nem óbvio. Claro e óbvio é em 30 ou 40 segundos: vai ver, decide e pronto. Não é estar lá aquele tempo todo".  Na sua leitura, o tempo de análise revela dúvida. E onde há dúvida, o protocolo manda não intervir.

José Leirós discorda da associação entre duração da análise e evidência do erro. Para si, o conceito não depende de cronómetro. Claro e óbvio é aquilo que o árbitro não viu e que, quando revisto, se torna inequívoco.

"Por mais que custe a muitas pessoas é para isto que o vídeo árbitro foi implementado. Para isto, para os fora de jogo de poucos centímetros, para que haja justiça nos golos validados e não validados. A função do VAR é precisamente esta."

Se as imagens mostram uma infração evidente, o VAR tem obrigação de intervir, independentemente do tempo necessário para rever o lance, defende.

Um protocolo com oito anos que parecem oitenta

O protocolo do VAR foi implementado pela International Football Association Board (IFAB) e aplicado pelas federações com o selo da FIFA e da UEFA. Tem cerca de oito anos, mas, para Rui Santos, "parece que tem oitenta".

Para o comentador, há uma "dissonância entre aquilo que é definido pelo protocolo e aquilo que é a defesa da verdade desportiva". "O protocolo devia proteger em toda a extensão a verdade desportiva, mas não protege." Considera-o "desatualizado", incapaz de acompanhar a evolução tecnológica e a exigência do jogo moderno. "Quando as coisas não estão bem ou, quanto ao menos, suscitam alguma discussão, é importante perceber o que é que está errado. E o que está errado pressupõe mudar".

E dá exemplos: cantos mal assinalados que originam golos e que o VAR não pode corrigir por limitação protocolar. "Bastaria dizer uma palavra-código, como “não canto”, para evitar semanas de polémica."

"A defesa da verdade desportiva, naquilo que diz respeito à subjetividade dos lances, tem de assentar num critério que tem de ser o mais possível uniforme. Os conselhos de arbitragem têm de dar indicações aos árbitros relativamente às situações que têm que ver com toques ligeiros, porque o futebol é um desporto de contacto e não podem ser valorizados. E é isso que nós vemos a ser aplicado, por exemplo, na liga inglesa. Isso quer dizer que os árbitros deles não falham? Algumas vezes falham, mas falham pouco".

Rui Santos defende ainda que se deve acabar com a separação de classificações entre árbitro e VAR. "Todos constituem uma equipa. Se erram um, pagam todos. Se todos contribuírem para uma boa arbitragem, a classificação é valorizada. Mas se uma das partes falhar, pagam todos. Isso não está protocolado e devia estar."

Já para o antigo jogador, a incoerência é o maior problema. Lances semelhantes não têm tratamento igual e isso alimenta suspeitas entre adeptos. "O VAR é uma ferramenta importante, mas é decidido por seres humanos - e os seres humanos têm errado bastante. Têm de ter a noção que está, ano após ano, a prejudicar aquilo que é um futebol bonito, um futebol sem casos e até prejudica o próprio árbitro."

É por isso que defende regras mais objetivas, sobretudo em lances de mão na bola, para reduzir margem interpretativa. "Os árbitros têm de ter indicações da própria UEFA: 'isto é mão na bola', 'isto é penálti' porque há uns que marcam e outros que não e depois há discussões que 'ah, o VAR chamou porque lhe apeteceu' ou 'porque é do clube A, B ou C'. São eles próprios que deixam estas dúvidas no ar e o adepto depois tem semana sim, semana sim sempre discussão à volta do mesmo".

"São quatro ou cinco dentro de uma cabine e não conseguem decidir em segundos aquilo que nós muitas vezes em casa com a nossa TV à frente dizemos logo que é penálti ou não é, que é canto ou não é. São fraquinhos e este ano estão a errar em demasia e não vou dizer que é para um lado ou para o outro. Acho que chegamos à conclusão de que no final da época são todos beneficiados e são todos prejudicados", acrescenta.

José Leirós, por sua vez, não considera que o conceito de "claro e óbvio" precise de ser redesenhado. "Não se pode fazer um desenho do que é claro e óbvio." Para ele, os árbitros sabem o que é. O que pode evoluir - e admite que já se discute na FIFA - é o alargamento do protocolo a mais situações, como segundos cartões amarelos ou cantos erradamente marcados.

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