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Comentador CNN

Que Se Lixem As Eleições | Acabar com o "bar aberto", mas manter a Sport TV aberta

18 fev, 09:00
Luís Montenegro (Lusa)

Quem gere o dinheiro do Estado – que é pago por todos nós, contribuintes – raramente sente o custo do que gasta, porque não tem a percepção de que se trate de dinheiro de toda a comunidade, mas uma verba que milagrosamente está nos cofres… para ser gasta

A minha mãe comentou comigo, e eu, numa arrogância muito minha, expliquei-lhe que não podia ser verdade. “Vi na internet”, respondeu-me, levando de volta o tradicional “nem tudo o que está na internet é verdade”. Obviamente não podia ser verdade a notícia que a indignava. Porque carga d'água alguém no seu perfeito juízo faria um contrato de 20 mil euros para o primeiro-ministro e todo o seu gabinete poderem ver Sport TV no local de trabalho? E quem é que acredita numa história destas? Francamente, mãe!... Mudámos de assunto.

Pouco depois, estava a pedir-lhe desculpa. Tinha-a censurado por acreditar numa história mirabolante, sem pés nem cabeça, impossível de acreditar. Mas era verdade. Para minha vergonha, a história inacreditável era verdadeira. Para nossa vergonha.

Sim, o gabinete do primeiro-ministro fez um contrato com o operador NOS, para que o dr. Montenegro, o dr. Carlos Abreu Amorim e mais um sortido de doutores (para este Governo são todos doutores, mesmo que sejam enfermeiros) possam ver jogos da bola nos seus gabinetes – e nem há a desculpa de serem jogos da Seleção Nacional, que esses passam em canal aberto.

O contrato previa sete pontos de Sport TV “premium” na Residência Oficial do Primeiro-Ministro e mais um na Assembleia da República, onde trab…, onde está colocado o ministro dos Assuntos Parlamentares. Um contrato de 20 mil euros + IVA até 2028. Vinte mil euros + IVA por menos de três anos de bola “premium” à discrição. Comentário da minha mãe e, suponho, de todas as mães, e pais, e filhos que esticam o dinheiro até ao fim do mês e se deram conta desta pequena história: “Vê-se logo que o dinheiro não é deles.” E não, não foi o comentário de alguém que vá na cantiga do nosso aspirante a Salazar. 

No fundo no fundo, o problema é mesmo esse: quem gere o dinheiro do Estado – que é pago por todos nós, contribuintes – raramente sente o custo do que gasta, porque não tem a perceção de que se trate de dinheiro de toda a comunidade, mas uma verba que milagrosamente está nos cofres… para ser gasta. E se tem gasto, este Governo! Basta lembrar que para satisfazer reivindicações de diversos grupos de pressão (umas justas, outras absurdas), apressou-se a abrir os cordões à bolsa logo que tomou posse, porque havia um superavit em caixa e risco de eleições antecipadas no horizonte.

A culpa é do Costa

Mas, objeta o leitor, este negócio estapafúrdio para ter Sport TV em sete assoalhadas de São Bento mais uma no Parlamento não é novo, vem de 2017. Do Governo de António Costa, portanto. E objeta o leitor cheio de razão. O negócio não é novo, parece que os oito pontos de Sport TV “premium” já têm quase uma década. Para sorte de Costa e azar de Montenegro, nunca ninguém tinha dado conta desses valores no Portal Base. 

Se este facto tivesse sido descoberto no tempo de Costa, seria um escândalo nacional, catapultado pelo PSD, pelo Chega e pela IL (o CDS não existe), porque “o socialismo”... Se fosse notícia de há seis meses, talvez houvesse uns suspiros nas redes sociais – era o tempo em que nada de mal se agarrava ao Governo (quer uma prova? Houve algum sobressalto por a ministra da Saúde ter feito uma purga nas direções dos hospitais públicos para nomear militantes do PSD, mesmo sem qualificações? Pois, não houve). 

Curiosamente, a notícia divulgada agora provocou um ligeiro escândalo. Tal como outras decisões absurdas do Governo, nomeadamente o enfermeiro da JSD nomeado para dirigir a Estrutura de Missão para as Energias Renováveis. Em ambos os casos, o Governo foi obrigado a recuar. E a explicar-se. O que se andou para aqui chegar.

“Os gabinetes do primeiro-ministro e do ministro dos Assuntos Parlamentares têm acesso a serviço da Sport TV, pelo menos, desde 2017”, lê-se num comunicado emitido pela Secretaria-Geral do Governo (que tem um nome muito técnico mas é dirigida por um comissário político do PSD). Ou seja, a culpa é de António Costa. A não ser que aquele “pelo menos” remeta para tempos ainda mais remotos, quando governava Pedro “Mãos de Tesoura” Passos Coelho. Não deixaria de ser divertido… Mas tomemos como boa a explicação de que isto vem do tempo de Costa. Imperdoável, ponto.

Em todo o caso, o facto que foi manchete do Correio da Manhã é um contrato novo, feito por ajuste direto a 23 de dezembro. Por este Governo. Uma espécie de prenda de Natal de Luís Montenegro para si e para os seus.

Tenho a vaga ideia de que Montenegro foi eleito com a promessa de endireitar toda a “bandalheira” deixada pelos “socialistas” (uso a linguagem de Ventura porque me parece apropriada neste contexto. Em todo o caso, o flirt da AD com o Chega é uma evidência, como denunciou recentemente uma social-democrata com um longo passado de PSD e de democracia). 

“Acabar com o bar aberto”, não foi esta a frase repetida como um disco riscado pelo ministro da Propaganda, António Leitão Amaro? Terei sido só eu que não percebi que o Governo só queria acabar com o “bar aberto” de ‘jolas’ e vinho de pacote… mas que o bar aberto de produtos “premium” era para continuar?

O líder lidera

Obviamente, Luís Montenegro não sabia de nada. Percebe-se. Um primeiro-ministro não perde tempo com minudências. Talvez o perca com jogos de futebol, mas isso é importante, sobretudo se jogar o seu clube. Como entende qualquer cidadão, futebol é futebol e contratos de 20 mil euros são ninharias de governanta. Obviamente, quando saiu a notícia dos 20 mil euros para ver a bola, Montenegro reagiu com horror, estupefacção, quiçá tão incrédulo como a minha mãe, e deu a ordem, peremptória: cortem o cabo! Em vez de oito pontos de acesso premium, ficaram só dois. Talvez tenha ficado um a mais, mas, enfim, “o dinheiro não é deles”. Mantém-se o período do acordo, mas a despesa mensal passa de 585€ para 146€.

Por razões misteriosas, o contrato continua a ser por ajuste direto, como se só houvesse Sport TV na NOS… Tão liberais e nem conhecem o conceito de concorrência. Mas está tudo bem porque a Secretaria-Geral do Governo nos explicou que todos nós saímos a ganhar com este negócio, pois o contrato de 23 de dezembro “permitiu uma poupança superior a 30 mil euros em 36 meses”. Eu a imaginar que estávamos perante uma despesa, quando afinal é uma poupança. Não há qualquer indicação de que Carlos Costa Neves, o secretário-geral, tenha sido forçado a emitir um tal comunicado. Antes tivesse.

A beleza das pequenas coisas

Mais uma vez, imagino que objetem alguns leitores que tiveram a paciência de ler até aqui: é este um caso que mereça tanto latim? Não há coisas mais importantes sobre que escrever? Sim e não.

Preferia escrever sobre o novo ministro(a) da Administração Interna, e sobre as outras mudanças decididas por Montenegro na remodelação governamental. Mas de ministro(a) da Administração Interna nem um vislumbre. E remodelação, suspeito que não haverá. O primeiro-ministro pensará que para pior já basta assim. Se não arranja um MAI apresentável, continua ele a fingir que articula com Espanha as descargas das barragens no Mondego. E mantém a ilusão de que a Saúde está bem entregue, a Segurança Social está bem governada, o ministro da Economia sabe o que está a fazer, e que está tudo no melhor dos mundos. Se ocasionalmente não estiver, o ministro Leitão Amaro faz uns vídeos.

Preferia escrever sobre o que é esse tal de PTRR, anunciado como resposta salvífica para o afundamento (literal) de parte do país, mas se o Governo não sabe, como pode mais alguém saber? Já há linhas de crédito, os empresários que se endividem com elas. Já há uns dinheirinhos a fundo perdido, basta ir à net (e quem ainda não tiver eletricidade, azar).

Podia escrever sobre uma coisa incrível que uns estudiosos descobriram agora: a descida do IRS para os senhorios vai custar 309 milhões ao Estado e arrisca fazer subir o preço das rendas graças ao alucinado conceito de “renda moderada” que vai até 2300 euros. O Expresso deu a notícia, as contas são da Unidade Técnica de Apoio Orçamental. Tudo credível, tudo previsível. Ninguém que tenha conceitos básicos sobre o funcionamento do mercado acreditou nos benefícios desta medida que saiu da cabeça do ministro Pinto Luz. A não ser, claro, os senhorios. Era óbvio que a despesa do Estado seria enorme. Era ainda mais óbvio que irá inflacionar os preços das rendas. Não é um dano colateral, é um dano premeditado. Comentar para quê?

Por outro lado, o caso da Sport TV tem a beleza das pequenas coisas. Na sua simplicidade, é um conto exemplar. Não são os 20 mil euros, mas também são os 20 mil euros. Oito pontos de Sport TV premium numa casa? Na cabeça de Luís Montenegro, que tem uma casa com oito casas de banho, oito é a conta que Deus fez – e é esta naturalidade que nos mostra o quanto Montenegro vive e governa dentro de uma bolha. Tendo em conta que a calamidade que assolou o centro do país começou numa terça e quarta-feira com jogos da Champions, é possível até questionarmo-nos sobre o que terá concentrado a atenção do primeiro-ministro nesses dois dias cruciais em que o Governo e o Estado falharam de forma miserável.

As pequenas coisas têm outra vantagem admirável. Revelam a grandeza dos líderes. Ou a sua pequenez.

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