Foguetão da SpaceX com quatro toneladas e a viajar a mais de 8.000 quilómetros por hora prestes a embater na Lua

CNN , Ashley Strickland
5 ago, 06:39
Um foguetão Falcon 9 da SpaceX, que transportava dois módulos de aterragem lunar, foi lançado a 15 de janeiro de 2025. Gregg Newton/AFP/Getty Images
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Os cientistas estimam que a colisão não representa qualquer perigo para a Terra, mas deverá criar uma cratera com um diâmetro entre 20 e 30 metros na superfície lunar

Uma parte de um foguetão da SpaceX, com um peso estimado de quatro toneladas e a viajar a mais de 8.000 quilómetros por hora, deverá embater involuntariamente na Lua durante as próximas horas.

Trata-se da segunda fase de um foguetão Falcon 9 da SpaceX, que permanece a flutuar no espaço desde o ano passado. O Falcon 9 foi lançado a 15 de janeiro de 2025, transportando dois módulos robóticos comerciais. Enquanto a primeira fase do foguetão — o propulsor utilizado na descolagem — regressou à Terra, a segunda fase, ou fase superior, serviu para impulsionar os módulos na sua trajetória até à Lua e, após concluir a missão, ficou à deriva no espaço.

Os cientistas estimam que a colisão não representa qualquer perigo para a Terra, mas deverá criar uma cratera com um diâmetro entre 20 e 30 metros na superfície lunar, segundo um estudo preliminar elaborado por um grupo de investigadores, entre os quais cientistas da NASA.

O impacto não será visível a olho nu a partir da Terra e poderá até ser difícil de observar através de telescópios.

“Se imaginarmos a Lua como um relógio, irá atingir aproximadamente a zona correspondente às 10 horas”, explicou o professor Paul Wiegert, docente de Astronomia e Física da Western University, em London, Ontário, que não participou no estudo. “Mas essa parte da Lua está iluminada neste momento, por isso o clarão do impacto será atenuado pelo brilho da própria superfície.”

No entanto, Wiegert acrescentou que a pluma de detritos gerada pelo longo cilindro do foguetão poderá ser iluminada pela luz solar, permitindo aos investigadores observá-la através de telescópios.

Para missões destinadas à órbita baixa da Terra, região próxima onde orbita a Estação Espacial Internacional, a SpaceX e outros operadores costumam eliminar a fase superior do foguetão permitindo que esta arda na atmosfera terrestre, explicou Julianna Scheiman, diretora dos programas científicos da NASA e Dragon na SpaceX, durante uma conferência de imprensa na segunda-feira.

“Mas, nas missões de alta energia, precisamos de realizar uma manobra diferente para garantir que a segunda fase é tratada em segurança, de acordo com as regras e regulamentos aplicáveis”, afirmou Scheiman. “Foi isso que fizemos nesta missão dos módulos Ispace e Blue Ghost. O que aconteceu foi, essencialmente, uma combinação da atividade solar com forças gravitacionais que acabou por colocar a fase superior numa trajetória em direção à Lua.”

O Falcon 9 transportava o módulo Blue Ghost, desenvolvido pela empresa norte-americana Firefly Aerospace, sediada no Texas, bem como o módulo Resilience, da japonesa Ispace. O Blue Ghost conseguiu pousar com sucesso na Lua em março de 2025, enquanto o Resilience falhou a aterragem alguns meses depois.

Astrónomos independentes utilizaram dados públicos para seguir a trajetória da fase superior do Falcon 9 e determinar que esta se encontrava em rota de colisão com a Lua, segundo a NASA. O Centro para Estudos de Objetos Próximos da Terra da agência, responsável por acompanhar as órbitas de rochas espaciais que possam colidir com a Terra e, ocasionalmente, com a Lua, confirmou igualmente a trajetória de impacto.

“Não existe qualquer perigo para a Terra”, afirmou a NASA num comunicado enviado à CNN. “A NASA continuará a acompanhar o propulsor para fins de treino, bem como observar posteriormente o local do impacto para fins científicos.”

Astrónomos de todo o continente americano, que terão as melhores condições para observar o impacto previsto para as 2h35 (hora da Costa Leste dos EUA) de quarta-feira, apontaram telescópios terrestres e espaciais para a Lua na esperança de assistir ao fenómeno. Embora o público não possa acompanhar o impacto em direto, é provável que sejam divulgadas imagens posteriormente.

Os cientistas poderão aproveitar este acontecimento raro — o impacto de um objeto artificial na Lua — para conhecer melhor o satélite natural da Terra e preparar formas de proteger futuros astronautas e infraestruturas que venham a ser instaladas na superfície lunar.

A NASA pretende estabelecer uma presença humana mais permanente na Lua através do programa Artemis. No entanto, à medida que mais missões forem lançadas para o satélite, que não possui uma atmosfera protetora como a da Terra, a gestão da acumulação de detritos espaciais em órbita lunar tornar-se-á um desafio crescente.

Acompanhar um impacto lunar em tempo real

O foguetão Falcon 9 da SpaceX é visto a traçar um arco no céu após a descolagem, em 2025. Gregg Newton/AFP/Getty Images

A fase superior do foguetão, com um peso estimado de cerca de 4.000 quilogramas, deverá atingir a superfície lunar nas proximidades da cratera Einstein, segundo o estudo.

O estudo, que aguarda revisão científica, foi submetido para publicação na revista The Astrophysical Journal Letters. Os autores quiseram divulgar as previsões antecipadamente para permitir que os astrónomos preparassem a observação do fenómeno, explicou Darryl Seligman, coautor do estudo e professor assistente no Departamento de Física e Astronomia da Universidade Estatal do Michigan.

O clarão provocado pelo impacto, momento em que o foguetão colidirá com a Lua a cerca de 8.748 quilómetros por hora (2,43 quilómetros por segundo), deverá durar, no máximo, cerca de um segundo.

O Orbitador Lunar Coreano Pathfinder irá tentar captar imagens da fase superior antes do impacto, enquanto o Orbitador de Reconhecimento Lunar da NASA procurará analisar o local após a colisão.

As rochas espaciais embatem regularmente na Lua e tanto os astronautas das missões Apollo como a futura tripulação da Artemis II relataram ter observado clarões provocados pelo impacto de meteoróides na superfície lunar. No entanto, colisões de objetos artificiais, como esta fase superior do Falcon 9, ocorreram apenas um número reduzido de vezes, segundo o estudo.

Este acontecimento surge numa altura em que a SpaceX está sob escrutínio devido à divulgação do seu primeiro relatório trimestral de resultados enquanto empresa cotada em bolsa. As ações da empresa registaram forte volatilidade desde a sua muito aguardada entrada em bolsa, em junho.

Compreender os riscos na Lua

O estágio superior está localizado na parte superior da estrutura do foguetão. NASA/YouTube

O aumento da exploração lunar significa que mais detritos espaciais poderão atingir a Lua no futuro. Qualquer lixo espacial que represente perigo para a Terra acaba normalmente por arder na atmosfera. Mas a Lua não possui atmosfera para proteger a sua superfície, recordou Wiegert.

Também não existe um sistema formal de acompanhamento dos detritos espaciais que permanecem para além da órbita terrestre. Em vez disso, são os levantamentos destinados à procura de asteroides potencialmente perigosos que acabam por identificar fragmentos de lixo espacial, permitindo depois o seu acompanhamento.

Como é difícil seguir e observar objetos que colidem com a Lua, um acontecimento conhecido como este permite aos cientistas obter informações importantes sobre as características da superfície lunar, explicou Wiegert.

“O que acontece quando um objeto embate na Lua? Sabemos que cria uma cratera e que lança material para o exterior, mas ainda não compreendemos esse processo em grande detalhe”, afirmou. “E agora que temos mais naves espaciais e, em breve, astronautas na Lua, queremos compreender muito melhor esse fenómeno.”

As estimativas atuais indicam que a fase superior do foguetão poderá projetar fragmentos rochosos até cerca de 805 quilómetros do local do impacto antes de estes voltarem a cair sobre a superfície lunar, acrescentou Wiegert. Caso um acontecimento semelhante ocorra quando existirem astronautas, habitats, equipamento ou naves nessa zona de queda, o risco será significativo.

“Os objetos são pequenas rochas a deslocarem-se a velocidades muito elevadas, comparáveis às de balas, por isso queremos compreender estes processos para eliminar essa fonte de risco”, afirmou.

Com esse objetivo, os investigadores estão já a estudar formas de reduzir a probabilidade de colisões deste tipo.

“Como cientista, estou naturalmente muito entusiasmada por observar este impacto”, afirmou Scheiman. “Mas esta é também uma das questões em que estamos a trabalhar em conjunto com a NASA e outras entidades competentes: encontrar a melhor forma de eliminar, no futuro, as fases superiores dos foguetões utilizados em missões de alta energia no sistema Sol-Terra-Lua.”

Esta notícia foi atualizada.

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