O sítio que Israel voltou a atacar tem gás para todo o mundo durante 13 anos

CNN , Helen Regan (Tal Shalev, Nadeen Ebrahim, Aleena Fayaz, Mohammed Tawfeeq, John Towfighi e Hanna Ziady da CNN contribuíram para este artigo)
6 abr, 13:22
South Pars

E Trump ameaçou "explodir completamente" com este sítio

Um ataque israelita em meados de março a instalações iranianas no campo de gás de South Pars marcou uma escalada significativa na guerra, levando um Irão furioso a atacar as principais instalações energéticas dos seus vizinhos do Golfo. E Israel voltou a atacar esse mesmo sítio - aconteceu esta segunda-feira.

Os preços da energia já estavam a disparar antes daquele ataque de março e continuam elevados no abril em curso - algo que acontece sobretudo (mas não só) devido ao encerramento efetivo do Estreito de Ormuz, encerramento esse que significa que o petróleo e o gás já produzidos não conseguem chegar aos clientes finais a tempo. A nova vaga de ataques contra infraestruturas energéticas, incluindo South Pars, coloca uma pressão adicional sobre a oferta global.

Mas o que é South Pars?

South Pars faz parte das maiores reservas de gás natural do mundo, situadas no mar (offshore) no Golfo Pérsico. É partilhado entre o Irão e o Qatar, que chama à sua parte "North Dome".

De acordo com a Reuters, todo o campo de gás contém cerca de 1.800 biliões de pés cúbicos de gás utilizável — o suficiente para suprir as necessidades mundiais durante 13 anos.

O gás natural de South Pars é a maior fonte de abastecimento de energia doméstica do Irão. O país já sofreu anteriormente escassez de energia devido a interrupções no fornecimento de gás, pelo que qualquer perda de capacidade de produção afetaria a sua capacidade de produzir eletricidade e aquecer habitações.

Qual é mesmo o impacto a nível global?

O Qatar investiu milhares de milhões no desenvolvimento do seu lado do campo de gás e é o segundo maior fornecedor mundial de gás natural liquefeito (GNL), a seguir aos Estados Unidos. Quando os ataques israelitas atingiram partes de South Pars em junho de 2025, fontes disseram à CNN que o lado do Qatar era uma "fonte de energia vital para os EUA, para a Europa e para o mundo".

Em retaliação ao ataque a South Pars, o Irão atingiu a Cidade Industrial de Ras Laffan, no Qatar, causando "danos extensos", segundo a estatal QatarEnergy.

Ras Laffan é um centro energético fundamental, processando todo o gás proveniente do North Dome. Tem estado maioritariamente encerrado desde o início de março, mas danos significativos na instalação podem atrasar o reinício da produção.

Uma vez que cerca de um quinto do fornecimento global de GNL provém do Qatar — quase todo de Ras Laffan —, qualquer atraso poderá ter um efeito enorme no preço e no abastecimento de GNL.

Analistas da Wood Mackenzie, uma consultora líder em energia, afirmaram esta quinta-feira que "os ataques reformulam fundamentalmente as perspetivas globais do GNL", sendo provável que a perturbação no fornecimento global de gás natural dure agora mais de dois meses.

Qual é a reação na região?

Os países árabes condenaram em março os ataques a infraestruturas ligadas a South Pars. Os Emirados Árabes Unidos classificaram-nos como "uma escalada grave" que constitui uma ameaça direta não só aos fornecimentos globais de energia mas também à segurança regional. O Qatar chamou aos ataques a South Pars um "passo perigoso e irresponsável".

O Irão retaliou em março de forma rápida e contundente. Além de Ras Laffan no Qatar, duas refinarias na capital da Arábia Saudita, Riade, também foram atacadas. A Arábia Saudita afirmou então que "reserva-se o direito de tomar medidas militares" contra o Irão, se considerar necessário.

Mais tarde, o Ministério da defesa da Arábia Saudita disse ter intercetado um míssil iraniano que visava o porto de Yanbu, que se tornou um porto alternativo para as exportações de petróleo saudita, dado o bloqueio do Estreito de Ormuz.

O tráfego marítimo no Estreito de Ormuz caiu significativamente
Um dos principais pontos de estrangulamento do comércio marítimo mundial liga o Golfo Pérsico, rico em petróleo, ao resto do mundo. Eis como o tráfego mudou desde que os EUA e Israel iniciaram ataques ao Irão a 28 de fevereiro.
Barcos por dia
 
IRÃO
Estreito de Ormuz
Golfo Pérsico
Emirados
Omã
Nota: Os dados cobrem o período de 25 de fevereiro a 7 de março de 2026. A presença diária de embarcações é calculada com base numa posição por hora por embarcação.
Fonte: Global Fishing Watch
Gráfico: Lou Robinson, CNN

O que disse Trump?

Trump ameaçou "explodir completamente" com South Pars se o Irão continuar os ataques às instalações energéticas do Qatar. Trump afirmou que os EUA "não sabiam de nada" sobre o ataque israelita de março a South Pars. No entanto, um responsável israelita disse à CNN que o ataque foi realizado em coordenação com os EUA.

Os ataques podem significar problemas para Trump, que já está a lutar para conter o efeito que a sua guerra contra o Irão está a ter nas carteiras dos americanos comuns.

Mohit Kumar, economista do banco de investimento Jefferies, afirmou na quinta-feira que os EUA têm tentado evitar atingir infraestruturas energéticas num esforço para "manter os preços do petróleo sob controlo".

"Mas o ataque de Israel ao campo de gás do Irão mostrou que, à medida que a guerra se prolonga, quaisquer linhas vermelhas tendem a tornar-se difusas", acrescentou na sua nota matinal.

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