Como saber quando o casal deve começar a dormir em camas separadas

CNN , Sandee LaMotte
26 dez 2021, 12:00
Casal a dormir. Foto: Shutterstock
Casal a dormir. Foto: Shutterstock

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Ele ressona tanto que até as paredes estremecem. O corpo dela emana imenso calor. Um de vocês açambarca os cobertores, dá pontapés durante a noite ou vai religiosamente à casa de banho às três da manhã. Talvez seja sonâmbulo ou sofra de insónias.

A lista de razões para a/o sua/seu companheira/o não o deixar dormir de noite pode ser longa e tão deprimente como a sua disposição ao levantar-se da cama todas as manhãs.

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No que toca à sua saúde, não é algo que deva desvalorizar: não dormir umas boas sete a oito horas de sono por noite está associado a um maior risco de vir a ter diabetes, acidentes cardiovasculares, doenças cardiovasculares e demência, segundo o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos.

E também tem um impacto negativo em termos emocionais, diz a especialista em medicina do sono Wendy Troxel, cientista comportamental sénior na RAND Corporation e autora de "Sharing the Covers: Every Couple's Guide to Better Sleep."

"A privação de sono pode afetar aspetos-chave do funcionamento relacional, como a nossa disposição, o nosso nível de frustração, a nossa tolerância, a nossa empatia e a nossa capacidade de comunicar com o nosso companheiro e com outras pessoas importantes na nossa vida", diz Troxel.

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A falta de sono – e a que provoca má disposição – faz com que as pessoas fiquem “menos capazes de pôr as coisas em perspetiva, ou de pôr pequenos contratempos em contexto”, diz a especialista em medicina do sono Rebecca Robbins, docente do departamento de medicina do sono da Faculdade de Medicina de Harvard e coautora do livro "Sleep for Success!".

Este desgaste pode dar azo a depressões, ansiedade e outras disfunções emocionais e relacionais, diz Robbins.

"Infelizmente, este desgaste despoleta um ciclo de reações negativas que vão ter um impacto negativo no sono da noite seguinte", diz Robbins. "O processo pode evoluir rapidamente para sintomas de saúde mental preocupantes.”

Qual é a solução? Correr com o seu companheiro da cama e mandá-lo ir dormir numa cama separada é sem dúvida uma alternativa.

"A pergunta que ouço frequentemente é: ‘Será prejudicial para o meu companheiro se eu for dormir noutro lado?’ A resposta é não, não obrigatoriamente", diz Troxel. "Pode até trazer vantagens significativas."

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Uma investigação levada a cabo por Troxel e pela sua equipa concluiu que uma pessoa que descansa bem “comunica melhor, é mais feliz, mais empática, mais atraente e divertida” – características essenciais para se desenvolver e manter relações fortes, diz Troxel.

Dormir em camas separadas pode fazer com que os casais sejam mais felizes, guardem menos rancor e sejam capazes de aproveitar melhor o tempo que passam juntos na cama, especialmente ao fim de semana, quando a carga de trabalho é menor, diz Troxel.

"Eu digo aos casais para tentarem pensar nisso não como uma separação, mas como uma aliança em termos de sono" acrescenta. "No fundo, nada é mais saudável, e mesmo mais sensual, do que uma noite bem dormida."

Descarte problemas de sono pré-existentes

Aqueles que partilham a cama connosco são muitas vezes os primeiros a identificar sinais de distúrbios de sono e a encorajar os companheiros a consultar um médico ou um especialista em medicina do sono. Não diagnosticados, os distúrbios do sono podem muito bem prejudicar a sua saúde e a saúde do seu companheiro no futuro.

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É por isso que os especialistas nos aconselham a consultar um especialista em medicina do sono para descartar e tratar qualquer problema pré-existente antes de deixarmos a cama do nosso companheiro – podemos muito bem ser a chave para identificar e tratar um verdadeiro problema de saúde.

Será apneia do sono? Se o grande problema são os roncos, é fundamental que verifique se o seu companheiro não sofre de apneia obstrutiva do sono, um grave distúrbio do sono caracterizado por paragens respiratórias de 10 ou mais segundos durante o sono.

“Quando o ressonar é ruidoso e estridente, ou é interrompido por paragens respiratórias, é aí que começamos a ficar preocupados”, diz Robbins.

Se não for tratada, a apneia obstrutiva do sono aumenta o risco de hipertensão, doença cardíaca, diabetes tipo 2, depressão e mesmo morte precoce, segundo a Academia Americana de Medicina do Sono.

Síndrome das pernas inquietas. Se o seu companheiro tem contrações musculares, tremores ou espasmos nas pernas, ele ou ela podem sofrer de uma perturbação dos movimentos periódicos dos membros, ou síndrome das pernas inquietas, também designada por doença de Willis-Ekbom. A patologia pode ser tratada através de mudanças de hábitos e medicação.

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Pondere tomar medicação. Muitos fármacos comuns podem causar insónia ou outro tipo de problemas de sono. Colesterol e medicação para a asma, comprimidos para a hipertensão e antidepressivos são apenas algumas das prescrições que podem contribuir para uma noite mal dormida.

Será uma patologia não tratada? Diabetes, doença renal, doença cardíaca, cancro e muitas outras patologias comuns também podem interromper o sono devido a dores crónicas ou idas frequentes à casa de banho.

Mecanismos de superação

Descartado qualquer problema de saúde grave, os casais que consideram que dormir na mesma cama contribui para uma maior ligação emocional podem querer experimentar algumas dicas práticas de antes de tomarem a decisão de dormir em camas separadas, diz Troxel.

Diga não ao álcool. Se sofre de insónias, não ingira bebidas alcoólicas nas horas antes de ir dormir, dizem os especialistas. Pode parecer que o ajuda a dormir, mas o álcool vai fazer com que desperte a meio da noite, o que pode ser difícil de ultrapassar.

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Pessoas que ressonam também não devem beber álcool, diz Troxel, “pois como todos saberão, se dormirmos com alguém que ressona e essa pessoa tiver bebido demasiado, os roncos serão muito mais intensos nessa noite". Isto acontece porque o álcool relaxa ainda mais os músculos da garganta, propiciando os roncos ruidosos.

É aqui que os companheiros podem ser fontes eficazes e benéficas daquilo que os peritos designam por “controlo social," diz Troxes.

“Se tivermos propensão para beber, mas soubermos que as consequências não irão apenas prejudicar o nosso sono, mas o do nosso parceiro também, então talvez tenhamos uma motivação extra para reduzir o consumo de álcool”, acrescenta.

Eleve a cabeça. Para combater o ressonar, experimente dormir com mais almofadas ou numa cama articulada – qualquer coisa que eleve a sua cabeça e mantenha a garganta aberta, diz Troxel.

"Para muitas pessoas, o ressonar tende a intensificar-se quando estão deitadas na horizontal ou de costas, pelo que elevar um pouco a cabeça pode ser benéfico”, acrescenta ainda.

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Se o problema subjacente é a congestão, experimente colocar um humidificador no quarto, recomenda Troxler. "Há quem tenha tido bons resultados com tiras nasais, vendidas sem receita médica, para manter as vias aéreas descongestionadas.”

Abafe o som. A primeira regra para lidar com um parceiro que ressona é tentar abafar o ruído, diz Troxel. Experimente usar protetores de ouvidos ou ligue uma ventoinha ou um aparelho de ruído branco.

Experimente horários de sono alternados. Uma pessoa que ressona e que dorme com um companheiro que sofre de insónias pode ajudar o companheiro a dormir melhor se for para a cama mais tarde, diz Troxel.

"Por exemplo, uma pessoa que ressona pode ir para a cama 30 a 60 minutos mais tarde," diz Troxel. "Isso vai permitir que o parceiro adormeça e esteja numa fase de sono mais profunda e que possivelmente não desperte quando o parceiro que ressona se for deitar."

Vire a pessoa que ressona. Dormir de barriga para cima é a pior posição para uma pessoa que ressona, pois facilita a queda dos tecidos moles da boca e da língua contra a garganta. Durante o sono, à medida que, inconscientemente, forçamos a passagem do ar por esses tecidos moles, temos tendência a ressonar.

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"Se conseguir que o seu companheiro durma de lado, isso vai mitigar os roncos" diz Robbins. "Já ouvi todo o tipo de técnicas criativas, como vestir ao companheiro um sutiã ao contrário e colocar duas bolas de ténis nas copas."

Almofadas corporais podem ser uma opção, desde que permaneçam imóveis, diz Raj Dasgupta, especialista em medicina do sono e professor assistente de medicina clínica na Faculdade de Medicina Keck da Universidade do Sul da Califórnia.

"Sou adepto das coisas simples, mas se quiserem comprar alguma coisa, já progredimos bastante desde os tempos em que cosíamos bolas de ténis nas costas do pijama”, diz Dasgupta. "Podem comprar uma cinta lombar que contenha um material protuberante, como espuma, que supostamente nos obriga a dormir de lado”.

"E existem cintas aprovadas pela FDA para colocar no pescoço ou no peito que emitem vibrações quando estamos deitados de barriga para cima, fazendo-nos virar de lado.”

Estará na hora de dormir em quartos separados?

Já tentou de tudo e ainda não consegue ter uma noite de sono. Nesta fase, não há razão para não fazer aquilo que é melhor para ambos para que possam ter a qualidade de sono de que precisam – sobretudo visto que existem outras formas de acalentar uma relação do que partilhar uma cama.

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"O quarto pode continuar a ser um espaço sagrado para o casal, mesmo que optem por não dormir na mesma cama”, diz Troxel. "Pode implementar rituais antes de dormir e aproveitar esse tempo para estar com o seu companheiro, em vez de ficar cada um agarrado ao telemóvel ou assim."

Troxel recomenda que os casais passem mais tempo de qualidade juntos antes da hora de dormir, falando sobre o seu dia ou trocando mensagens positivas.

"Sabemos que revelar coisas sobre nós faz bem às relações e faz bem ao sono," diz Troxel. "Se dissermos aos nossos companheiros que estamos gratos por eles existirem, isso é uma forma profunda de conexão. A gratidão faz bem às relações e faz bem ao sono."

E dormir em camas separadas também não implica que o faça todas as noites, afirmou Troxel. Pode ser apenas nos dias de semana, partilhando a cama ao fim de semana. Pode ser noite sim, noite não – as opções são tão únicas como cada casal.

"Não há uma estratégia de sono estandardizada para todos os casais”, diz Troxel. "O importante é encontrar uma estratégia que seja benéfica para ambos."

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