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Quer melhorar o seu sono? Imite os hábitos dos caçadores-recolectores

CNN , Katie Hunt
14 jun, 22:00
O autor David Samson subiu às árvores para estudar os ninhos de chimpanzés, na sua busca para compreender como evoluiu o sono humano (Bill McGrew)
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ENTREVISTA || O autor David Samson subiu às árvores para estudar os ninhos de chimpanzés, na sua busca para compreender como evoluiu o sono humano

Os especialistas recomendam que os adultos durmam cerca de oito horas ininterruptas num quarto fresco e escuro. Se o fizer de uma forma consistente, dizem, pode acrescentar vários anos à sua vida.

É um ideal que muitas pessoas não conseguem atingir. E também não foi assim que os humanos dormiram durante a maior parte da nossa história evolutiva, segundo “The Sleepless Ape: The Story of Sleep in Human Evolution” [“O Macaco com Insónia: A História do Sono na Evolução Humana", em tradução livre], publicado em maio,.

O antropólogo David Samson, autor do livro e professor associado na Universidade de Toronto, escalou árvores, para estudar os locais onde dormiam chimpanzés, e visitou tribos remotas, para perceber como se desenrolou a história do sono humano.

As descobertas de Samson revelam como os padrões de sono humanos se tornaram mais curtos, mais profundos e mais flexíveis do que os dos nossos antepassados ​​mais semelhantes aos macacos, libertando tempo para se dedicarem à fabricação de ferramentas, às interações sociais e à migração em todo o mundo.

O especialista defende que estes hábitos de sono únicos promoveram a sobrevivência, a inovação e moldaram o comportamento da nossa espécie de formas cruciais. Os humanos de hoje, privados de sono, também podem aprender muito com a forma como os nossos antepassados ​​costumavam dormir, junta. “O sono influencia muito o nosso desempenho mental e físico ao longo do dia”, diz à CNN. “Como é possível, então, que sejamos os primatas que menos tempo dormem no planeta?”.

Esta entrevista foi editada para maior clareza e concisão.

CNN: O seu livro chama-se “O Macaco com Insónia”. Porquê?

 

O livro “A História do Sono na Evolução Humana” foi publicado em maio (Princeton University Press)

David Samson: Foram precisos cerca de 15 anos para obter o número necessário de estudos sobre o sono dos primatas para podermos, de facto, realizar estas análises estatísticas. Verificou-se que estes modelos previam que os humanos deveriam dormir 10 horas e meia. Não sei quanto a si, mas eu não durmo certamente 10 horas e meia. A média humana em todas as culturas é, provavelmente, algo em torno das sete horas. O modelo previa que dormiríamos muito mais, o que significa que os humanos são uma exceção evolutiva.

Os humanos não são apenas os primatas que dormem menos, mas também temos a maior proporção de sono REM quando comparado com qualquer outro primata do planeta. Aquilo que o livro tenta explorar e desvendar é a história de como isso aconteceu.

CNN: O seu livro detalha como a nossa espécie ancestral deixou a segurança de dormir nas árvores para passar a dormir no chão, em busca de abrigo, fogo e sono em grupo. Como é que essa mudança nos beneficiou?

Samson: O que criámos foi um espaço completamente novo e inovador para dormir. A analogia que tenho utilizado aqui é a de uma concha.

Sabemos que os primeiros humanos, como o Homo erectus, dormiam em grupo. Podemos afirmar que, nessa época, provavelmente, já existiria um uso controlado do fogo. Devido ao facto de haver um grupo muito maior, com variabilidade demográfica — com avós e adolescentes no grupo —, havia, provavelmente, alguém acordado 24 horas por dia, sete dias por semana, para dar o alarme em caso de perigo. Para mim, é muito claro que um acampamento de caçadores-recolectores terá sido adaptado para ter cotovias e corujas [nota de tradução: padrões de sono, os primeiros funcionam melhor de manhã, os segundos à noite] relativamente bem distribuídas, de modo a que a sua concha fosse um pouco mais segura durante um período de 24 horas.

Muitos dos leitores poderão pensar: “Para conseguir a quantidade ideal de sono, preciso de isolamento das pessoas, preciso de isolamento dos estímulos”. Contudo, quase todos os ambientes de pequena escala em que já realizei investigação são ambientes altamente dinâmicos. Existe uma sensação generalizada de segurança quando se regressa ao acampamento. É como uma pequena bolha, uma espécie de casulo. Onde se sente isto: "finalmente posso baixar a guarda”.

CNN: Os humanos têm mais sono REM do que outros primatas, apesar de dormirem menos no total. Porquê?

Samson: Quando alguém está em sono REM fásico, fica desligado do mundo, naquele que é o ponto máximo possível. Para os nossos antepassados, era extremamente custoso estar neste estado. Ainda assim, depois de construída essa tal carapaça, de repente passa a ter uma nova oportunidade de obter este sono realmente valioso em proporções maiores do que outros animais.

O sono REM é a fase do sono famosa por estar associada aos sonhos.

Está associada à criatividade e à inovação, tudo coisas que terão sido, penso eu, pré-requisitos para nos tornarmos uma espécie bem-sucedida.

CNN: Porque estudou os ninhos dos chimpanzés?

Samson: Já subi a muitas árvores. Os grandes símios são muito singulares. Constroem ninhos que são, basicamente, camas nas árvores. É algo fascinante. Estes ninhos mantêm-nos aquecidos. Como não estão no solo, protegem-se dos grandes predadores. E como são feitos com plantas que repelem os insetos, também se protegem dos micropredadores.

 

Um chimpanzé repousa num ninho para dormir na copa de uma árvore no Parque Nacional de Gombe Stream, na Tanzânia (dpa/picture alliance/Alamy Stock Photo)

Poder medir as suas camas ‘in situ’ [no local] permitiu-me vislumbrar como funciona a mente de um chimpanzé. Estas foram todas questões que os nossos antepassados ​​humanos tiveram de resolver quando começámos a dormir no chão e perdemos este local único para dormir.

CNN: Passou algum tempo com uma das últimas tribos de caçadores-recolectores que existem na Terra, os Hadza, no norte da Tanzânia. O que lhe ensinaram sobre o sono?

Samson: Acredito que nós, no Ocidente, de uma certa forma, temos ‘fetichizado’ o sono enquanto cultura. Quando se pergunta aos caçadores-recolectores se gostam ou não de dormir, esta é a resposta esmagadora: "Adoro o meu sono". Diria que é um mistério, porque sei, empiricamente, que têm um sono mais fragmentado. Então, o que raio estará a acontecer? Penso que a solução para isto nos leva ao nosso relógio biológico: os ritmos circadianos. Se observarmos durante um período de 24 horas, a maioria das pessoas passa mais de 90% do seu tempo em ambientes fechados. Isto é péssimo.

A menos que compreendamos como aumentar e desfrutar do ritmo dos nossos relógios biológicos, estaremos sempre condenados a ter uma relação estranha, talvez disfuncional ou desregulada, com o nosso sono.

CNN: De que forma o seu trabalho sobre o sono paleo – ou seja, sobre dormir como os nossos antepassados ​​– influenciou os seus próprios hábitos de sono?

Samson: A minha relação com a luz melhorou muito o meu sono. Abandonei os despertadores. Deixo que o sol me acorde. Nada de cortinas opacas ou de perder a ligação com o ambiente exterior. Quando acordo, saio e tomo o meu pequeno-almoço, partilhando esse momento com o sol. Ao meio-dia, à hora de almoço, mesmo que o dia esteja mau, nublado, a chover ou frio, saio. É o meu conselho.

À noite, o pôr do sol é o meu principal sinal para reduzir a exposição à luz azul proveniente de fontes artificiais, como os ecrãs. Até posso usar o telemóvel, por exemplo, mas ponho-o no modo escuro. Se andar pela casa, e isto é algo que já faço há anos, uso pequenas lanternas com uma temperatura de cor de 2.700 kelvins ou menos, que emitem luz quente. Basta carregá-las numa porta USB. A luz das velas é melhor ainda. E também presto atenção ao meu ritmo metabólico. A minha última ingestão de calorias é três a quatro horas antes da hora que prevejo para me deitar.

Se alguém está com problemas para dormir, diria para se preocupar menos com o sono em si. E para começar a perguntar a si próprio: “Estou em sincronia evolutiva ou em dessincronia evolutiva?”. A insónia é um ótimo exemplo de uma clássica incompatibilidade evolutiva: a ideia que norteou a nossa evolução foi como as coisas eram, não como as coisas são. A insónia é hipervigilância. Os nossos antepassados ​​tinham hipervigilância e, muito provavelmente, havia um bom motivo para isso. Viviam em ambientes dinâmicos. Nós somos descendentes deles.

Penso que, de certa forma, estamos na iminência de uma revelação sobre o sono. Conquistámos tantos benefícios, com o conforto e a segurança do local onde dormimos, mas, em contrapartida, o que perdemos foi a ligação com a nossa fisiologia circadiana. Acredito que, se conseguirmos unir estes dois aspetos, poderemos mesmo melhorar o nosso sono e bem-estar no futuro, com base tanto na compreensão da nossa história evolutiva como na ciência moderna do sono.

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