Está também a aumentar a procura de produtos que prometem ajudar-nos a dormir melhor, como cobertores pesados ou almofadas ajustáveis. Muitas vezes, para quem os compra, representam um caminho para evitar um “flagelo” chamado automedicação
Já ouviu falar em ortosónia, do inglês orthosomnia? É a ansiedade gerada pela preocupação de dormir bem e descansar o suficiente. E está a piorar à custa de dispositivos como relógios inteligentes, anéis ou pulseiras, que ganharam força nos últimos anos na hora de medir a qualidade do sono.
Especialistas do sono ouvidos pela CNN Portugal confirmam que há mais casos a chegar aos consultórios. “A pessoa começa a chegar à cama extremamente ansiosa, preocupada. E esse estado leva à insónia. A pessoa ganha um problema que não tinha, devido a essa atenção excessiva ao seu sono”, descreve Tiago Sá, pneumologista, diretor clínico da Sleeplab - Clínica e Estudos do Sono.
E é uma realidade que gera preocupação num país onde já se dorme mal. A Sociedade Portuguesa de Pneumologia tem mostrado que mais de metade dos portugueses reporta um sono insatisfatório ou de má qualidade. Há 46% dos portugueses com idade igual ou superior a 25 anos a dormir menos de seis horas por dia. 21% dizem demorar mais de 30 minutos para adormecer. Quatro em cada 10 têm dificuldade em manter-se acordados durante a condução e outras atividades diárias.
Saber ler os resultados
Os dispositivos que permitem monitorizar o sono, admitem os especialistas, podem ser úteis para perceber os efeitos do exercício físico, da alimentação, do consumo de álcool ou de alterações à rotina no nosso sono.
Contudo, há que saber ler os resultados. “Não conhecemos os algoritmos dos dispositivos. Há pessoas que chegam a dizer que o relógio indicou uma hora e meia de sono profundo. Habitualmente temos 15 a 30% de sono profundo por noite. Pode não ser menos do que o normal. A interpretação dos resultados é algo que pode criar problemas”, explica Tiago Sá.
O pneumologista conta outra história, de um familiar que tinha um anel para monitorizar o sono e que acabou por se estragar. “Ele disse-me ‘agora estou muito melhor porque não faço ideia do que é que o anel diz. Às vezes acordava chateado com os resultados do anel, agora já não o tenho para olhar’”.
Procura crescente por alternativas
O sono é, de facto, uma preocupação dos portugueses. Prova disso é o facto de estar a crescer a procura por produtos que prometem ajudar-nos a dormir melhor. E que, em muitos casos, representam uma alternativa para não chegar à toma de medicamentos.
“É um flagelo. Há pessoas que se automedicam, com fármacos que alguém da família ou conhecido também usa. O uso de medicação não é de todo a primeira linha para tratar distúrbios de sono. Mesmo para própria insónia, cujo tratamento deve passar pela terapia cognitiva ou comportamental”, reconhece Tiago Sá.
Uma das empresas que está a ganhar com a crescente preocupação com a qualidade do sono é a Blanky, fundada em Portugal por Pedro Caseiro. Tinha 30 anos quando começou a perceber que a qualidade do descanso não era a mesma. “Dei cabo do meu sono a fazer consultoria. Parecia-me estúpido começar a tomar medicamentos para dormir. Comecei a investigar o que podia fazer”, conta.
Foi aí que se cruzou com o conceito de cobertor pesado. E, quando experimentou este produto, garante, começou a dormir melhor. Estava criada uma oportunidade de negócio, onde agora se vendem também lençóis em bambu ou almofadas de enchimento ajustável.
O pneumologista Tiago Sá confirma que, em consulta, os pacientes costumam perguntar sobre a eficácia deste tipo de alternativas. “É frequente perguntarem por cobertores, almofadas, camas com ações de resposta ao ressono, dispositivos de avanço mandibular. Há essa consciência de que não têm o sono que pretendem. E preferem soluções que não passem pelo uso de fármacos”, conta.
O que é um cobertor pesado?
Para Pedro Caseiro, como vimos, a solução para uma noite bem dormida passou por um cobertor pesado. A inspiração, conta o empresário, veio da Suécia: “é vendido em farmácias lá há mais de 20 anos, mas ficou bastante circunscrito àquela área geográfica”.
“Há trabalhos científicos a demonstrar um benefício dos cobertores pesados na melhoria das queixas de insónia, particularmente na insónia associada a distúrbios de ansiedade”, atesta o pneumologista Tiago Sá.
E, na prática, o que faz este produto pelo nosso sono? “O peso está distribuído ao longo do cobertor de uma forma uniforme. Esse peso funciona como uma massagem, ajudando o nosso corpo a relaxar e, por causa disso, a dormir melhor. Tem uma série de efeitos químicos no nosso corpo. Por exemplo, ajuda-nos a produzir menos cortisol, a principal hormona do stress [e que regula o ciclo sono–vigília]”, simplifica Pedro Caseiro.
Preparar o sono antes da cama
Ter uma rotina de sono é fundamental para um bom descanso. “É essencial termos um espaço silencioso, escuro, fresco para podermos dormir. É importante que o colchão seja de qualidade e firme. E termos uma almofada ajustada à nossa posição. Se dormimos de barriga para cima, devemos ter uma almofada mais baixa. Se dormimos de lado, deve ser mais alta”, aconselha o pneumologista Tiago Sá.
Ainda assim, o sono é algo que se começa a preparar antes da cama. Desligar os ecrãs é uma das recomendações mais comuns. Mas é possível ir mais longe.
“O nosso contexto de sono começa quando chegamos a casa. Quero relaxar, parar de pensar nos problemas diários, deixar o stress à porta. E começar a preparar-me para uma boa experiência de sono. Ao sairmos do banho, com uma toalha boa, com um bom roupão, isso ajuda a que nos sintamos melhores. É uma pequena parte, sim, mas pode ajudar-nos a dormir melhor”, argumenta Pedro Caseiro, para explicar a aposta da Blanky noutro tipo de têxteis.
Possíveis soluções, não milagres
Mesmo que produtos como cobertores pesados ou almofadas ajustáveis possam ajudar a dormir melhor, é essencial ter a consciência de que podem não funcionar. “Somos uma ferramenta, como existirão outras. Haverá, obviamente, casos em que não somos a ferramenta adequada. A verdade é que todos precisamos de um edredão e de lençóis. Não se perde nada em experimentar. A pessoa fica com um produto melhor. E, eventualmente, esse produto pode mesmo ajudar”, concorda Pedro Caseiro.
“Muitas vezes, infelizmente, este caminho não é suficiente para resolver um distúrbio de sono ou para obter um sono de qualidade. É aí que a ajuda especializada é essencial, com uma equipa multidisciplinar”, aponta Tiago Sá.
Então, qual é o sinal de alerta para ajuda médica especializada? “Quando a pessoa está realmente insatisfeita com o seu sono, quando acha que está a dormir muito menos do que no passado, quando se sente cansada”, responde o pneumologista.
Em resumo, quando a falta de sono começa a prejudicar outras áreas das nossas vidas.