Há uma ligação entre ficar acordado até tarde e uma saúde cardíaca mais precária. É isto que os notívagos precisam de saber

CNN , Lily Hautau
15 fev, 11:00
Segundo um novo estudo, as pessoas com o hábito de ficar acordadas até tarde são mais propensas a ter hábitos pouco saudáveis ou fatores de risco (PixelCatchers/E+/Getty Images)

Segundo um novo estudo, as pessoas com o hábito de ficar acordadas até tarde são mais propensas a ter hábitos pouco saudáveis ​​ou fatores de risco

Se é daquele tipo de pessoa que se sentem mais produtivas depois do anoitecer, talvez seja boa ideia dar uma atenção maior à saúde do seu coração.

Os notívagos – que, naturalmente, dormem mais tarde – podem ter maior probabilidade de desenvolver doenças cardíacas, segundo mostra um novo estudo. Contudo, se for este o seu caso, os especialistas mostram que há medidas que podem ser tomadas para proteger a sua saúde.

Segundo o estudo publicado no Journal of the American Heart Association, os adultos de meia-idade e os idosos – em especialmente as mulheres - que são mais ativos à noite podem ter uma saúde cardíaca pior em comparação com aqueles que não têm preferência pelas manhãs ou pelas noites.

Este estudo analisou dados de mais de 322 mil adultos que participaram no UK Biobank, um estudo longitudinal que incluiu participantes de Inglaterra, Escócia e País de Gales.

Os participantes identificaram o seu cronotipo — ou seja, a sua preferência natural pelo horário de sono e vigília. Foram categorizados como cotovias (preferência pelas manhãs), intermédios ou mochos (preferência pelas noites). O estudo não atribuiu horários específicos de vigília ou de deitar a estas categorias. A classificação baseou-se apenas na preferência declarada pelos próprios.

Os cronotipos refletem “a preferência natural de uma pessoa em relação ao horário de sono e aos ritmos diários”, sejam elas cotovias, mochos ou intermédios, refere Sina Kianersi, a autora principal do estudo, que é investigadora de pós-doutoramento no Brigham and Women’s Hospital e na Harvard Medical School, em Boston.

Os adultos com cronotipo noturno - e até mesmo aqueles que acordam cedo - podem estar em alto risco, devido ao desfasamento entre os seus relógios biológicos internos e os horários de trabalho, a que se juntam outros fatores externos.

Muitos estudos anteriores focaram-se num único fator de risco, como o tabagismo ou a pressão arterial. Contudo, a nova investigação utilizou os “8 Princípios Essenciais para a Vida” da American Heart Association [Associação Americana do Coração]. Estes oito princípios são formas de melhorar e manter a saúde do coração. São eles: alimentação saudável, atividade física, não fumar, sono de qualidade e controlo do peso, colesterol, glicemia e tensão arterial. Cada componente recebe uma pontuação de 0 a 100. Pontuações mais elevadas indicam uma melhor saúde cardiovascular. Estas pontuações são calculadas, em média, para criar uma pontuação composta para cada pessoa.

Kianersi explica que a forte associação entre se ser notívago e se ter uma saúde cardiovascular deficiente foi aquilo que mais a surpreendeu. As pessoas com este hábito eram mais propensas a ter hábitos pouco saudáveis ​​ou fatores de risco, como má alimentação, falta de exercício físico ou tabagismo. A relação era ainda mais forte entre as mulheres.

Em comparação com a categoria intermédia, "os mochos tinham uma probabilidade cerca de 79% maior de apresentar uma saúde cardiovascular deficiente. Também apresentavam um risco maior de ataque cardíaco ou acidente vascular cerebral durante o seguimento”, explica.

As rotinas diárias também importam.

“Ter um cronotipo noturno é algo que, com frequência, está associado a outros fatores que podem aumentar o risco de doença cardiovascular, como uma maior irregularidade nos horários de sono, nas refeições e na exposição à luz”, confirma Sabra Abbott, professora associada de neurologia na Feinberg School of Medicine da Northwestern University. Não participou no estudo referido neste artigo.

Os mochos apresentaram um risco 16% maior de desenvolver doenças cardiovasculares, como ataque cardíaco ou acidente vascular cerebral, quando comparado com as pessoas com cronotipo intermédio, durante um período de seguimento de quase 14 anos.

As pessoas que se identificaram como cotovias uma probabilidade 5% menor de terem problemas de saúde cardíaca e maus hábitos, numa comparação com as do grupo intermédio.

Uma vez que esta investigação se centrou em adultos de meia-idade e idosos, Kianersi reconhece que são necessários mais estudos para determinar se os mesmos padrões se aplicam a pessoas mais jovens. A investigadora nota ainda que, por se tratar de um estudo observacional, estas descobertas não podem comprovar que haja uma causa direta entre o cronotipo e uma saúde cardiovascular mais precária, ou de um risco cardiovascular aumentado.

Próximos passos para os mochos

Se é um mocho, ainda há esperança para si, refere Kristen Knutson, professora associada de neurologia no Center for Circadian and Sleep Medicine [Centro de Medicina Circadiana e do Sono] da Feinberg School of Medicine. Esta especialista também não participou no estudo referido neste artigo.

As doenças cardiovasculares “não são algo inerente ou inevitável para os mochos”, diz Knutson, sugerindo que as pessoas deem prioridade ao sono e que não fumem.

O estudo sugere que as intervenções que visam estes fatores de risco modificáveis ​​— como melhorar o sono, deixar de fumar ou manter um estilo de vida saudável — podem ajudar a reduzir o risco para as pessoas que têm o hábito de ir dormir tarde.

Abbott concorda que as pessoas com cronotipo noturno não devem tentar alterar o seu cronotipo. Devem sim, aponta, concentrar-se nos fatores que podem ser controlados.

E qual é o conselho de Kianersi? “Foco no essencial: tente dormir o suficiente, mantenha os horários de ir dormir e de acordar o mais consistentes possível, procure expor-se à luz da manhã”, refere por email. “A atividade física regular também é importante. E também ajuda o facto de manter em dia os exames de rotina da tensão arterial, do colesterol e da glicemia. Se alguém fuma, deixar de fumar continua a ser uma das medidas mais importantes para proteger a saúde do coração a longo prazo”.

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