Sono irregular pode aumentar o risco de ataque cardíaco e AVC

CNN , Jack Guy
5 jan 2025, 09:00
Entre os sonhos que captaram a atenção dos cientistas estão relatos de pessoas que sonharam que não conseguiam sair de casa porque a maçaneta estava partida ou que não queriam mesmo sair de casa por causa de todo um cenário catastrófico para lá das paredes da habitação - e que até chegava a incluir ursos no jardim. (Pexels)

Estudo sugere ligação entre padrões de sono inconsistentes e problemas cardiovasculares graves

Dormir e acordar a horas diferentes está associado a um risco acrescido de ataque cardíaco e acidente vascular cerebral (AVC), mesmo para as pessoas que dormem a quantidade recomendada de sono, de acordo com um estudo recente.

Enquanto a maioria dos estudos anteriores avaliou o impacto da duração do sono na saúde, pouco se sabe sobre os efeitos das alterações do ciclo do sono, afirmam os investigadores num comunicado.

Assim, durante sete dias, os cientistas monitorizaram os dados de atividade de 72.269 participantes, com idades compreendidas entre os 40 e os 79 anos, que nunca tinham sofrido problemas cardiovasculares graves.

Calcularam o Índice de Regularidade do Sono (SRI) de cada pessoa, sendo que as pontuações mais elevadas indicavam uma maior regularidade do sono.

A equipa monitorizou então os casos de morte cardiovascular, ataque cardíaco, insuficiência cardíaca e acidente vascular cerebral ao longo de oito anos e descobriu que as pessoas com sono irregular tinham 26% mais probabilidades de sofrer um destes problemas do que as que tinham um ciclo de sono regular. Sono irregular refere-se a variações nas horas de deitar e acordar.

O cálculo de 26% também tem em conta uma série de fatores, incluindo a idade, a atividade física, o consumo de álcool e o tabagismo, que podem ter influenciado os resultados. No entanto, tratou-se de um estudo de observação e, como tal, só pode estabelecer uma ligação e não uma causa e efeito: não podemos saber com toda a certeza se os padrões de sono irregulares causaram o aumento do risco.

Os investigadores observaram também que quem tinha uma pontuação SRI mais elevada (sono mais regular) tinha maior probabilidade de cumprir a recomendação diária de sete a nove horas de sono por noite para as pessoas com idades compreendidas entre os 18 e os 64 anos, e de sete a oito horas para as pessoas com mais de 65 anos, sendo que 61% das pessoas com sono regular cumpriam estas recomendações face a 48% das que apresentavam sono irregular.

Mesmo as pessoas com sono irregular que dormiam a quantidade recomendada apresentavam um risco mais elevado de sofrer um problema cardiovascular grave.

"Os nossos resultados sugerem que a regularidade do sono pode ser mais relevante do que a duração suficiente do sono", conclui o estudo.

O principal autor do estudo, Jean Pierre Chaput, professor de pediatria na Universidade de Ottawa, no Canadá, aponta à CNN que "um número crescente de pesquisas sugere que a irregularidade do sono pode ser um indicador mais forte do risco de mortalidade do que o sono insuficiente".

Quanto à redução do risco de problemas cardiovasculares, Chaput salienta o facto de a pressão arterial elevada ser um dos principais fatores de risco.

“Devem dar prioridade a sete a nove horas de sono consistente e reparador por noite, uma vez que um sono deficiente pode contribuir para a hipertensão arterial”, afirma.

“As horas de deitar e de acordar não precisam de ser exatamente as mesmas todos os dias, mas é melhor mantê-las dentro de uma margem de 30 a 60 minutos do horário habitual para respeitar o ritmo circadiano natural”, acrescenta Chaput.

“Pequenas variações não fazem mal, mas padrões de sono consistentes melhoram a qualidade do sono, melhoram o humor e a função cognitiva e reduzem o risco de problemas de saúde como doenças cardíacas e diabetes”, explica.

Chaput alerta também para o facto de não se poder contar com a recuperação do sono aos fins de semana.

"É possível recuperar algum tempo de sono dormindo mais aos fins de semana, mas isso não anula totalmente os efeitos negativos da privação crónica de sono durante a semana de trabalho", afirma.

"Embora o sono extra ao fim de semana possa melhorar temporariamente o humor e a função cognitiva, os padrões irregulares de sono podem perturbar o ritmo circadiano do corpo e conduzir a riscos de saúde a longo prazo, como a obesidade, a diabetes e as doenças cardíacas", acrescenta Chaput, que está atualmente a desenvolver orientações para um sono saudável em colaboração com a Organização Mundial de Saúde.

"Creio que este é um passo crucial para garantir que o sono seja valorizado como uma componente essencial do bem-estar, em vez de ser considerado uma perda de tempo na nossa sociedade", diz.

Naveed Sattar, professor de medicina cardiometabólica na Universidade de Glasgow, na Escócia, que não esteve envolvido na investigação, afirma que, embora existam associações entre o ciclo do sono e a saúde cardiovascular, o estudo utiliza uma linguagem "excessivamente causal".

Outros fatores que levaram as pessoas a ter padrões de sono diferentes, como o consumo de álcool a altas horas da noite, podem ser responsáveis por maus estados de saúde, e não o ciclo do sono em si, explica à CNN.

"É muito difícil determinar", diz Attar, acrescentando que "seria cauteloso ao atribuir a causalidade aqui".

O estudo foi publicado no Journal of Epidemiology & Community Health.

 

Relacionados

Saúde

Mais Saúde

Mais Lidas