Sondagem faz raio-x detalhado da opinião dos portugueses em plena crise política. Eleitores estão unidos contra eleições antecipadas, mas divididos quanto a se houve ou não falha ética de Luís Montenegro. Mas há mais, muito mais. Incluindo a penalização de quem censura (Chega e CDU) e valorização de quem chumba a censura (PS). Sondagem da Pitagórica para a TVI, CNN Portugal, TSF, JN e O Jogo faz um retrato aprofundado e raro da situação
O que pensam os portugueses da atual crise política? A resposta pode ser resumida em meia dúzia de linhas ou compreendida numa sucessão esclarecedora de indicadores.
Em meia dúzia de linhas: os portugueses estão contra eleições antecipadas, penalizam a CDU e o Chega por terem apresentado moções de censura e valorizam o facto de o PS ter votado contra; consideram aceitável que a empresa da família do primeiro-ministro tenha atividade privada e, mesmo se Luís Montenegro não deu ainda explicações suficientes, pode ter resolvido o caso com a venda da Spinumviva aos filhos. Houve ou não crime ou falha ética? Bom, aí os portugueses dividem-se. E concluem: em caso de eleições antecipadas, a maioria (55%) considera que Luís Montenegro deve afastar-se do processo eleitoral.
Vejamos agora as respostas detalhadas das duas sondagens que hoje divulgamos, que permitem observar como os portugueses foram interpretando o carrocel de acontecimentos das últimas semanas.
Na primeira sondagem, realizada de 23 a 27 de fevereiro, tinha já sido apresentada e chumbada a moção de censura apresentada pelo Chega, depois de notícias de que Montenegro tinha vendido a sua quota na Spinumviva à mulher, que poderia beneficiar da lei dos solos e que havia faturado cerca de 650 mil euros em dois anos; na segunda sondagem, realizada de 3 a 6 de março, as notícias já eram outras, sabia-se agora que a Spinumviva continuava a receber avenças, uma das quais de 4.500 euros mensais da Solverde, tendo o primeiro-ministro já feito uma declaração ao país e o PCP apresentado uma segunda moção de censura, que foi chumbada.
Vejamos então a sucessão de acontecimento em face das opiniões relevadas por estas sondagens.
Montenegro deu explicações insuficientes
Luís Montenegro já deu várias vezes explicações sobre a Spinumviva. No entanto, grande parte dos portugueses considera que as explicações foram insuficientes. A insatisfação, aliás, aumentou de uma semana para a outro – isto é, depois de se saber que afinal a Spinumviva mantinha avenças “vivas” de empresas como a Solverde. Foram mais 15 pontos percentuais:
O gráfico mostra, assim, que de um quase empate na primeira semana (para 44% as explicações haviam sido insuficientes, para 41% haviam sido suficientes), passou-se para uma rejeição clara na segunda semana (59% insuficientes, 36% suficientes). No final da primeira semana, recorde-se, chumbara já a moção de censura apresentada pelo Chega...
Chega quis esconder os seus próprios problemas
Comecemos pela primeira moção de censura, apresentada pelo Chega e chumbada a 21 de fevereiro.
A maioria dos portugueses, se fossem deputados, teriam votado contra a moção de censura do Chega, que chumbou no Parlamento no dia 21 de fevereiro. Este resultado confirma-se nas duas sondagens, mas verifica-se que, na semana 2, quando já havia mais notícias sobre a Spinumviva, há menos cinco pontos percentuais que teriam votado contra a moção.
Entre os que teriam votado a favor da moção de censura do Chega, verifica-se maior peso nos homens, nas idades entre 35 e 54 anos, nas classes sociais C2/D, e nas regiões Sul e Ilhas e eleitorado Chega - são estes os que mais teriam votado a favor.
Mas qual foi a verdadeira razão para que o Chega tenha avançado com a moção de censura? A maioria dos portugueses considera que, mais do que as faltas de Luís Montenegro, o que serviu de principal motivação ao partido de André Ventura foi o facto de o Chega querer mudar de assunto sobre as polémicas sobre os seus próprios deputados:
Apesar da descida de sete pontos percentuais face à semana anterior, a maioria (61%) do eleitorado mantém a opinião que a moção de censura foi apresentada para fugir aos casos sobre membros do Chega. Essa tendência pronuncia-se sobretudo entre mulheres, os mais velhos (55 ou mais anos), as classes sociais mais altas (A/B), e da região de Lisboa.
PS fez bem em chumbar moção de censura da CDU
Vejamos agora a segunda moção de censura, apresentada pela CDU e chumbada a 5 de março. Como votariam os portugueses, se fossem deputados? Contra. Como aconteceu no Parlamento, aliás.
Assim, 62% do eleitorado afirma que teria votado contra a moção de censura apresentada pela CDU. Entre os 17% que teriam votado a favor destacam-se a faixa etária entre 35 e 54 anos, as classes sociais C1, C2 e D, os residentes de Lisboa e eleitorados CDU, PAN, Livre e Chega.
Ora, um dos chumbos a essa moção veio do PS. E isso é valorizado positivamente pela maioria dos portugueses:
A grande maioria (76%) considera que o PS fez bem em não deixar o Governo cair. Entre os 20% que referem que o PS deveria ter aprovado a moção de censura da CDU, destacam-se os homens, idades entre 35 e 54 anos, das classes sociais C2/D e eleitorados CDU, Livre e Chega.
Mais de três em cada quatro portugueses considera, aliás, que o PS fez em evitar a queda do Governo:
Sim, a família do PM pode ter uma empresa
Entremos agora nos temas relacionados com o comportamento do primeiro-ministro. Começando por uma questão: pode uma empresa da família do primeiro-ministro ter atividade privada? Para a maioria dos portugueses, sim, isso é aceitável:
Quase metade (49%) do eleitorado concorda com os argumentos de Luís Montenegro acerca da criação da empresa, enquanto 32% discorda:
Clientes podem ser favorecidos
A maioria dos eleitores admite que a atividade dos clientes da Spinumviva pode ser favorecida por Luís Montenegro
Ainda assim, a maioria dos eleitores considera suficiente a decisão entretanto anunciada por Luís Montenegro de passar a empresa para o nome dos seus filhos:
Nem crime nem falha ética? Portugueses divididos
O eleitorado está dividido: 37% concorda que o objetivo das investigações é paralisar a atividade do Governo, enquanto 40% discorda. São sobretudo as mulheres, das classes sociais mais altas (A/B) e eleitorado AD que concordam com a afirmação do primeiro-ministro:
É das perguntas mais sensíveis da sondagem: concorda que o primeiro-ministro não cometeu nenhum crime nem qualquer falha ética? São mais os que discordam desta frase do que aqueles que concordam, mas os valores aproximam-se:
Eleições? Não!
O que parece ser claro é que os portugueses não querem eleições. Aqui chegados, cerca de sete em cada dez eleitores prefere manter a atual situação do que a realização de novas eleições:
... mas se houver, Montenegro deve afastar-se
Em caso de eleições antecipadas, a maioria (55%) considera que Luís Montenegro deve afastar-se do processo eleitoral.
E entre os que defendem que Montenegro se deve manter na corrida, são sobretudo os homens, os mais jovens (18 e 34 anos), das classes sociais A/B e C1, da região Norte e eleitorados AD e IL que mais defendem a continuidade do atual primeiro-ministro.
Recorde-se que, tal como foi relevado ontem, estas sondagens apontam para o favoritismo da AD:
Ficha técnica
Foram realizadas duas sondagens pela Pitagórica para a TVI, CNN Portugal, TSF, JN e O Jogo.
• A primeira sondagem realizada entre os dias 23 a 27 de fevereiro antes das noticias mais recentes sobre os clientes da empresa da família do Primeiro-Ministro e da comunicação que foi feita pelo 1º Ministro ao país no Sábado 1de março.
• A segunda sondagem realizada entre os dias 3 e 6 de março, depois da comunicação do Primeiro-Ministro ao país bem como da reação da CDU (anúncio de Moção de Censura) e da reação do PS (intenção de rejeição da moção de censura da CDU).
Na primeira sondagem, a amostra recolhida foi de 400 entrevistas, como habitualmente nos barómetros mensais, e para além da intenção de voto das legislativas, foram abordados temas relacionados com a avaliação da Presidência da República bem como a intenção de voto para as eleições presidenciais e ainda temas de desporto. A taxa de resposta foi de 65%, ou seja, foram precisos 615 contactos efetivos para conseguir as 400 entrevistas. A margem de erro máxima para um nível de confiança de 95,5% é de +/-5,0%.
Na segunda sondagem, a amostra recolhida foi de 625 entrevistas, com um questionário mais curto, que apenas se debruçou sobre os temas das eleições legislativas e da crise atual. A taxa de resposta foi de 66%, ou seja, foram precisos 938 contactos efetivos para conseguir as 625 entrevistas. A margem de erro máxima para um nível de confiança de 95,5% é de +/-4,0%.
Em ambas as sondagens, a amostra foi recolhida de forma aleatória junto de eleitores portugueses recenseados e foi devidamente estratificada por género, idade e região. A direção técnica do estudo é da responsabilidade de Rita Marques da Silva.
A ficha técnica completa, bem como todos os resultados, foram depositados junto da ERC - Entidade Reguladora da Comunicação Social que os disponibilizará para consulta online.