Defesa norte-americana está a monitorizar sons de camarões e garoupas (para detetar inimigos)

CNN Portugal , FMC
28 jun, 16:56
Garoupa-Gigante (Joe Raedle/ Getty)

Conduzido pela DARPA, agência de pesquisa militar norte-americana, o estudo pretende encontrar uma alternativa às limitações dos sonares

A Defesa dos Estados Unidos está a monitorizar os sons de camarões e garoupas com vista a melhorar a tecnologia sonar. Um estudo da agência de pesquisa avançada de defesa, DARPA na sigla original, pretende mostrar que é possível detetar submarinos se prestarmos mais atenção aos sons naturais.

"Atualmente, tratamos todos estes sons naturais como ruído de fundo ou interferência. Por que não fazer uso desses sons e ver se conseguimos encontrar um sinal?", questiona Lori Adornato, gestora de projetos da DARPA, em entrevista à BBC

É a partir daqui que surge o projeto PALS (Persistent Aquatic Living Sensors ou, na tradução, sensores aquáticos vivos persistentes, com o objetivo de "escutar" os animais marinhos como forma de detetar ameaças subaquáticas.  

Além de ser mais benéfico para o meio aquático, uma vez que se acredita que os sonares dos navios e dos submarinos podem ser responsáveis pelos encalhes de baleias, superam obstáculos que a tecnologia ainda não consegue. As boias sonares atuais, por exemplo, apenas conseguem ser utilizadas durante algumas horas e cobrir uma pequena área, devido ao tempo de bateria. Já o sistema proposto pelo PALS não tem esse senão, podendo cobrir uma vasta superfície e durante meses, uma vez que, segundo Adornato, as espécies que permanecem no mesmo lugar serão, provavelmente, as melhores sentinelas.  

"Temos de ter a certeza de que o organismo estará sempre presente", sublinha Adornato.

O programa PALS completou agora a primeira fase e engloba vários projetos, que diferem nas técnicas e animais a escutar, mas com o mesmo propósito. É o que acontece com a garoupa-preta e o camarão-pistola.

A garoupa-preta

A garoupa-preta, presente nas águas portuguesas, e que pode pesar 300 quilos, é conhecida por emitir sons altos.

"É um som alto, porém em baixa frequência", explica Laurent Cherubin, da Universidade Atlântica da Florida. "As garoupas-pretas são territoriais e costumam emitir esses sons quando apanham um intruso no seu território."

Os sons emitidos conseguem ser detetados a 800 metros de distância, mas o problema é que nem sempre servem para afastar predadores e intrusos. O reportório das garoupas inclui sons para acasalar, delimitar território e outras razões ainda por determinar.

A equipa de investigadores procurou, então, conseguir identificar os sons de alerta, ou seja, os que resultam da presença de ameaças. Para tal, ouviram milhares de gravações até que fosse possível fazer a distinção com a ajuda de um sistema de algoritmo, que classificou os diferentes sons.

O algoritmo deu, depois, origem a um software, que funciona num pequeno mas poderoso processador colocado num microfone subaquático ou hidrofone, que, por sua vez, é colocado nos recifes que permitem escutar os sons das garoupas.  

Camarões-pistola

Os camarões-pistola já foram considerados os animais mais barulhentos do planeta, uma vez que produzem sons que atingem os 210 decibéis. O barulho de um jato a descolar, por exemplo, produz cerca de 120, indica a BBC.  

E é por causa desse som ensurdecedor que outra equipa financiada pelo programa PALS, a Raytheon (uma das maiores empresas aeroespaciais norte-americanas), está a ouvir estes camarões. Contudo, aposta numa abordagem diferente, utilizando um sistema mais parecido com o dos sonares tradicionais.  

“Estamos a tentar detetar ecos que são criados quando os ruídos dos camarões são refletidos por veículosÉ muito parecido com o sistema sonar tradicional que deteta ecos através de sons gerados pela fonte”, explica a investigadora Alison Laferriere. 

Este invertebrado produz intensos estalidos quando fecha com rapidez as suas pinças, gerando energia suficiente para atordoar a presa.

"O sinal criado por um camarão-pistola possui uma duração muito curta e uma amplitude incrivelmente ampla", afirma Laferriere. "Um único estalo é muito mais silencioso que uma fonte de sonar tradicional, mas pode haver milhares de estalos disparados por minuto." 

"Um dos maiores desafios que enfrentamos é lidar com a enorme quantidade de ruído criada pelos camarões-pistola e os reflexos de todos esses sons para fora da área circunvizinha", aponta Laferriere. 

Um dos problemas prende-se com a dificuldade em determinar onde estão os camarões e, consequentemente, medir o reflexo que levaria à descoberta da posição de um veículo inimigo.  

A solução foi, uma vez mais, criar modelos computorizados que isolam um único som, calculando primeiro a localização dos camarões e depois recriando o caminho de reflexão do som, percebendo o exato ponto onde o som chocou com algo.  

Além desse trabalho, a equipa criou ainda modelos que permitem identificar e posteriormente eliminar ecos que possam ocorrer devido ao choque com objetos do fundo do mar e centrar-se somente em objetos em movimento, como peixes, submarinos ou outros veículos aquáticos. 

Todos estes projetos prometem uma imensa rede de sensores que pretende cobrir amplas regiões por longos períodos, com a vantagem de que a maior parte do hardware é fornecido pela natureza. Apenas os hidrofones precisarão de mão humana para reparos ou substituições. 

De acordo com Sidharth Kaushal, especialista em equipamento militar naval do think tank britânico RUSI, "o estudo da DARPA será realmente uma importante inovação, se for bem-sucedido".

"Um ecossistema de sensores vivos dispersos em flutuação permanente, em princípio, é algo tentador.", defende. 

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