Crianças alugadas, filhos envenenados com detergente: histórias desesperadas para resistir à fome na Somália

CNN Portugal , MBM
8 mai 2023, 17:19
Mães envenenam os filhos para sobreviverem à fome na Somália. (Farah Abdi Warsameh/ AP)

"Eu tenho seis filhos e está é única forma de ter comida"

Os habitantes da Somália recorrem a medidas cada vez mais desesperadas para sobreviverem à fome. Segundo um artigo originalmente publicado no The New Humanitarian e reproduzido pelo El País, há registo de casos em que que mães acreditam não ter outra opção a não ser envenenar os filhos para assim conseguirem comida gratuita nos centros de saúde enquanto as crianças são tratadas

"Eu tenho seis filhos e está é única forma de ter comida", diz Maceeey Shute, uma mãe somali citada no artigo. Deu aos filhos água com detergente ou sal para ficarem com diarreia e poder lavá-los ao centro de saúde. Uma vez lá, os menores recebem biscoitos e papas enriquecidas com nutrientes - e os restos são guardado para a família ou para vender.

O governo, a ONU  e outras instituições de ajuda humanitária não conseguem responder à escassez de recursos provocada pela seca. Em muitas cidades da Somália não foi prestada qualquer ajuda humanitária, segundo o artigo, e as pessoas procuram soluções para sobreviver - mesmo se isso colocar em risco a saúde e a segurança das crianças.

A diretora do Programa Alimentar da ONU, Cindy McCain, apelou no Twitter para a necessidade de se lutar urgentemente contra a fome na Somália. Pede um esforço mundial e questiona: "Quantos mais têm de morrer?".

Alugar os filhos, outro método extremo

Na capital da Somália, Mogadíscio, existem pais que alugam os seus filhos a pedintes, para depois partilharem os lucros. Amino Ikar Hilowl mendigava pela capital sozinha e tinha dificuldade em encontrar quem a ajudasse até alugar uma criança: "Quando peço esmola com o bebé às costas as pessoas têm pena de mim". 

O The New Humanitarian falou com Shumey Abukar, uma mãe que aluga dois dos seus quatro filhos a pedintes em troca de cinco dólares. "Às vezes sinto-me culpada. Mas não tenho escolha porque tenho de os alimentar e não tenho quaisquer qualificações que me ajudem a arranjar emprego." Shumey revela ainda que confia na pedinte a quem aluga os filhos.

Várias famílias decidem ainda casar as filhas menores com homens mais velhos. Uma adolescente de 15 anos, Maryan Shute, contou ao jornal a sua experiência de casamento forçado: "O meu pai disse-me que tinha de casar com este homem mais velho. Disse-me que isso iria melhorar a vida da nossa família porque podíamos ficar no campo de graça e receber mais ajuda. Mas estou casada há dois meses e as nossas vidas pouco melhoraram."

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