Sofia é psicóloga e transformou o burnout em liberdade: "Escolher este estilo de vida deu-me aquilo que durante anos procurei"

16 nov, 08:00
Sofia Carvalho

 

 

Do mundo corporativo à psicologia online, em qualquer parte do mundo, mas ainda mais perto de quem a procura. É a história de Sofia Carvalho, "psicóloga nómada online"

Sofia Carvalho trocou o mundo empresarial (onde, durante mais de uma década, exerceu funções de grande responsabilidade na gestão de pessoas), pela psicologia online e a rotina diária pela liberdade de viajar pelo mundo. Hoje, é uma “psicóloga nómada digital”, mas o caminho até aqui não foi linear. Foram anos de exigência, responsabilidade e excesso de trabalho que a levaram ao burnout. Um ponto de viragem que a fez repensar tudo — desde a forma como trabalhava até à maneira como queria viver.

Foi nessa pausa forçada que Sofia resolveu aprofundar o conhecimento sobre o exercício da psicologia online e, com ele, descobriu a possibilidade de conciliar carreira e estilo de vida, mantendo a proximidade com os pacientes e ajudando-os estando em qualquer lugar do planeta. Mais do que uma mudança profissional, foi uma transformação pessoal que a tornou mais empática, sensível e consciente do impacto da saúde mental no dia a dia das pessoas.

Ao longo desta entrevista, Sofia Carvalho partilha a sua história de reinvenção, fala sobre burnout, a pressa em que vivemos, a tecnologia, a parentalidade e a pressão da sociedade moderna. Mostra-nos também como é possível viver de forma mais “leve, coerente e com sentido”, mesmo quando o mundo à volta parece correr sem parar.

Depois de mais de uma década no mundo corporativo e de um burnout, Sofia Carvalho dedicou-se à prática de psicologia online, que lhe dá a liberdade de acompanhar os seus pacientes em qualquer lugar do mundo. (Arquivo pessoal de Sofia Carvalho)

Durante anos, o seu percurso profissional fez-se no mundo corporativo. O que fazia exatamente? E o que a fez mudar de vida? Qual foi o ponto de viragem?

Comecei a trabalhar ainda no final do secundário e, desde então, nunca deixei de o fazer. Durante vários anos, fui trabalhadora-estudante. Por isso, o contexto corporativo, com horários fixos e rendimento estável, era o que melhor se adaptava à fase em que estava a concluir a minha formação em Psicologia.

Fui crescendo dentro das empresas e, numa delas, permaneci cerca de 12 anos. Com o tempo, fui assumindo cada vez mais responsabilidades, o que naturalmente me fez permanecer, havia segurança, reconhecimento e um certo conforto. Nos últimos cinco anos no mundo corporativo, desempenhei uma função de grande exigência: era responsável por uma equipa de cerca de 500 colaboradores. A minha missão era garantir que as metas eram cumpridas, identificar as razões quando isso não acontecia e implementar estratégias de melhoria, muitas vezes através de formações em comunicação, resolução de problemas e assertividade. Funções que, no fim de contas, se cruzavam com a psicologia. O meu foco era compreender o comportamento humano e promover o melhor desempenho possível em contexto de trabalho.

E nesse período acumulou a prática clínica em consultório…

Em paralelo, mantive sempre a prática clínica em consultório, no pós-laboral e aos sábados.

Era "pesado"...

Quando terminei os estudos, comecei a viajar com mais frequência e, numa dessas viagens, aos Estados Unidos, observei que as consultas online já eram uma realidade. A ideia ficou a amadurecer.

Em 2020, percebi que já não me revia naquele ambiente não só pelo excesso de trabalho e pela pressão constante, mas também porque sentia que os meus valores pessoais já não se alinhavam com os da empresa. Entrei em burnout e foi esse o ponto de viragem. Decidi fazer uma pausa e repensar tudo. Cheguei a um acordo, saí da empresa e investi todas as minhas energias em algo que fizesse sentido para mim: a psicologia online. Se funcionava noutros países, poderia funcionar cá. E a verdade é que funcionou e transformou completamente a forma como vivo e trabalho atualmente.

O burnout que sofreu foi para si um momento transformador e encarou-o como uma oportunidade. O que é que ele lhe trouxe de bom?

O burnout foi, sem dúvida, um momento transformador, mas não diria que foi 'a melhor coisa que me aconteceu'. Se pudesse escolher, preferia não ter passado por ele, ninguém escolhe chegar a esse ponto. No entanto, durante o processo de recuperação percebi que era impossível continuar igual e esperar sentir-me diferente. Foi aí que entendi que precisava mudar: a forma como trabalhava, as minhas prioridades e até a relação que tinha com o próprio conceito de produtividade.

O burnout obrigou-me a parar e a repensar o que realmente fazia sentido para mim. Vi no online uma oportunidade de alinhar quem sou com o que faço de exercer a psicologia de uma forma mais humana, mais coerente com os meus valores e com o estilo de vida que quero viver.

O facto de ter passado por um problema de saúde mental ajuda-a hoje a ter mais empatia com os seus pacientes?

Sim, sem dúvida. Passar por um problema de saúde mental ajudou-me a desenvolver uma empatia ainda maior com os meus pacientes, porque sei, na prática, o que é estar nesse lugar. Isso tornou-me mais atenta, mais sensível e mais real nas minhas intervenções. Além disso, essa experiência foi essencial para construir a equipa com quem trabalho hoje, sabia exatamente que tipo de sensibilidade e de olhar humano queria que cada profissional tivesse.

Viajou por mais de 40 países e chegou a viver em alguns deles. O que é que isso lhe trouxe para a sua prática clínica?

Depende do que se entende por “viver”. Eu costumo ficar, pelo menos, um mês em cada país, o que me permite realmente mergulhar na cultura e no modo de vida local. Viajar por mais de 40 países e ter vivido em alguns deles trouxe-me uma visão muito mais ampla do ser humano. A convivência com diferentes formas de pensar, sentir e viver ajudou-me a compreender melhor como o contexto cultural influencia a saúde mental, os comportamentos e até a forma como as pessoas expressam o sofrimento.

Na prática clínica, isso traduz-se numa abordagem mais aberta, flexível e sem julgamentos. Cada pessoa é única, mas também é produto do meio em que vive e essa consciência tornou-me uma psicóloga mais empática e culturalmente sensível.

Porque é que se dedica agora exclusivamente à prática da psicologia online?

Dedico-me exclusivamente à psicologia online porque é o formato que mais se adequa a mim e à forma como quero viver. Permite-me conciliar a minha paixão por viajar com o meu trabalho, mantendo o mesmo nível de qualidade e acompanhamento aos pacientes. Além disso, o online representa liberdade e alinhamento, posso estar onde me sinto bem, viver de forma coerente com os meus valores e, ao mesmo tempo, continuar a ajudar pessoas em diferentes partes do mundo.

As plataformas digitais não condicionam a criação da tal empatia de que falava? Que diferenças encontra em relação à prática presencial?

Não, de todo. Hoje há evidência científica robusta que demonstra que a terapia online é tão eficaz quanto a presencial, tanto na qualidade da relação terapêutica como nos resultados clínicos. A empatia e a ligação entre psicólogo e paciente não dependem do espaço físico, mas sim da qualidade da comunicação e da presença emocional e isso é perfeitamente possível através do online.

Além disso, muitos pacientes sentem-se até mais confortáveis por estarem num ambiente familiar, o que facilita a abertura e o envolvimento no processo terapêutico. O formato digital não diminui a empatia apenas muda o meio, mantendo intacta a essência da relação terapêutica.

Sofia Carvalho já viajou por mais de 40 países. Faz questão de permanecer em cada um deles pelo menos um mês, para se embrenhar na cultura local. (Arquivo pessoal Sofia Carvalho)

A saúde mental é muito maltratada em Portugal. O parente pobre da saúde… também é assim noutros países?

Infelizmente, sim. A saúde mental continua a ser desvalorizada em muitos países, embora de formas diferentes. Em Portugal, ainda enfrentamos um grande estigma e uma clara falta de investimento, tanto nos recursos humanos como no acesso a cuidados psicológicos.

Nas minhas viagens, percebi que há países que avançaram mais, sobretudo na forma como encaram o tema. Em alguns países do norte da Europa, falar sobre saúde mental é mais normalizado e o acesso à terapia, incluindo a online, é muito mais facilitado. Já noutros contextos, o tabu ainda é enorme, às vezes até maior do que em Portugal.

Essas diferenças culturais ajudaram-me a perceber que o problema não é apenas estrutural, mas também social: depende de como cada sociedade entende o que é 'cuidar de si'. E é precisamente por isso que acredito tanto na importância da psicoeducação, quanto mais se fala sobre saúde mental, mais espaço se cria para o cuidado.

Que tipo de políticas públicas poderiam (ou deveriam) ser implementadas em Portugal para todos termos uma saúde mental mais estruturada e, sobretudo, termos um melhor e mais fácil acesso a profissionais de saúde?

Portugal precisa de políticas públicas que olhem para a saúde mental como parte essencial da saúde e não como um complemento. Isso passa, antes de mais, por garantir o acesso universal a cuidados psicológicos, integrando psicólogos de forma efetiva nos cuidados de saúde primários.

É também fundamental investir na prevenção e não apenas na resposta a situações de crise. A literacia em saúde mental nas escolas, nos locais de trabalho e nas comunidades ajudaria a reduzir o estigma e a promover o pedido de ajuda precoce.

Outro ponto essencial é valorizar os profissionais de saúde mental, assegurando condições de trabalho adequadas e estabilidade. Sem isso, é impossível garantir qualidade e continuidade nos cuidados.

Acredito que precisamos de uma estratégia nacional que una educação, prevenção e acesso, só assim a saúde mental deixará de ser o parente pobre da saúde e passará a ser tratada com a importância que realmente tem.

A esmagadora maioria dos seguros de saúde nem sequer contemplam a comparticipação de consultas de psicologia. As que o fazem, impõem limites quase sempre incompatíveis com um tratamento contínuo e consistente. Algum dia isto vai mudar?

Espero sinceramente que sim, mas acredito que essa mudança só acontecerá quando houver uma verdadeira compreensão social e política sobre o impacto da saúde mental. Enquanto o cuidado psicológico continuar a ser visto como algo complementar, os seguros vão tratá-lo dessa forma com limites que tornam impossível um acompanhamento contínuo e eficaz.

A boa notícia é que há cada vez mais consciência pública sobre o tema. As pessoas falam mais, procuram mais ajuda e reconhecem o valor da psicologia. Essa pressão social tende a gerar mudança: primeiro nas empresas, depois nas políticas e, inevitavelmente, nos seguros.

Acredito que estamos a caminhar nesse sentido ainda devagar, mas de forma progressiva. E quanto mais mostrarmos, com evidência, que investir em saúde mental é investir em produtividade, em prevenção e em qualidade de vida, mais difícil será continuar a ignorá-la.

Parece que, de repente, assistimos a um boom de problemas de saúde mental. Mais burnouts do que acontecia antigamente, mais ansiedade, mais stress, mais dificuldade em lidar com as frustrações do dia a dia… é mesmo assim? Há mesmo mais problemas de saúde mental ou eles sempre existiram, mas eram escamoteados, escondidos ou até subdiagnosticados?

Acredito que é uma combinação de fatores. Não é necessariamente que haja mais problemas de saúde mental do que antes, mas hoje temos mais informação, mais literacia em saúde mental e menos tolerância a comportamentos e sentimentos que antes eram considerados normais. Muitas situações que antes eram ignoradas ou até tidas como falhas pessoais, como o stress crónico, a ansiedade ou o burnout, hoje reconhecemos como sinais de alerta que merecem atenção.

Além disso, a sociedade mudou: vivemos num ritmo mais acelerado, com maior pressão profissional, constantes estímulos digitais e desafios complexos de conciliar vida pessoal e profissional. Isso aumenta a vulnerabilidade, mas ao mesmo tempo permite-nos identificar e nomear problemas que antes permaneciam invisíveis.

Os problemas de saúde mental sempre existiram, mas hoje há mais consciência, menos estigma e, portanto, mais procura de ajuda o que dá a sensação de que 'está a acontecer mais', quando na verdade estamos simplesmente a olhar para eles com mais clareza.

Também se assiste a uma procura da perfeição e da omnipresença. Porque é que, de repente, parece que andamos todos a correr, vivemos os dias com uma pressa louca e não conseguimos parar?

Vivemos numa sociedade que infelizmente valoriza a produtividade acima de tudo e promove a ideia de que estar constantemente ocupado é sinónimo de sucesso, de status, há uma certa vaidade em dizer que não se tem tempo. As redes sociais aumentam essa pressão, mostram vidas aparentemente perfeitas e fazem com que nos comparemos continuamente com os outros.

A tecnologia, que deveria ser uma ferramenta, muitas vezes mantém-nos sempre conectados, criando a sensação de que precisamos de estar disponíveis e a produzir em todos os momentos. Essa corrida constante gera ansiedade, stress e a ideia de que nunca é suficiente, o que alimenta a busca pela perfeição e pela omnipresença.

O que é contraditório porque quanto mais corremos, mais nos afastamos do essencial e menos conseguimos parar para refletir ou simplesmente viver. Reconhecer isso é o primeiro passo para mudar: aprender a gerir a nossa atenção, a definir limites e a aceitar que a perfeição é uma ilusão, mas o equilíbrio é possível.

Já agora que consequências é que este estilo de vida nos traz e pode trazer para a vida dos nossos filhos (até porque os arrastamos nisto e eles têm mil e uma atividades extracurriculares…)?

Este estilo de vida acelerado tem várias consequências, tanto para nós como para as crianças. Do ponto de vista psicológico, aumenta o risco de stress crónico, ansiedade e burnout e cria padrões de pensamento e comportamento em que o estar sempre ocupado se torna normalizado.

Nas crianças, essa pressão também deixa marcas: crescer num ambiente em que a velocidade e a produtividade são valorizadas acima do bem-estar pode gerar dificuldades de regulação emocional, ansiedade, baixa tolerância à frustração e sensação de insuficiência, mesmo quando estão envolvidos em atividades extracurriculares que teoricamente seriam enriquecedoras.

Na prática clínica, atendemos cada vez mais pais preocupados com este impacto. Muitos chegam à consulta a sentir culpa ou insegurança, mas também procuram estratégias para ajudar os filhos a equilibrar exigências, lazer e tempo de qualidade em família, enquanto tentam redefinir o próprio ritmo de vida. É uma oportunidade de repensar hábitos, priorizar o essencial e mostrar às crianças que é possível viver com atenção e presença, e não apenas a correr.

Já falou um pouco disso… mas gostava que explorasse esta questão.  Que consequências é que as tecnologias vieram trazer para a nossa saúde mental? Com as tecnologias chegaram as redes sociais, que parecem pedir cada vez mais de cada um de nós. Como travar esta demanda?

As tecnologias trouxeram muitos benefícios, mas também têm consequências importantes para a saúde mental. As redes sociais, por exemplo, alimentam a comparação constante, reforçam a necessidade de aprovação e aumentam a sensação de pressão e urgência, fazendo-nos sentir que temos de estar sempre disponíveis e perfeitos.

Essa pressão constante pode gerar stress, ansiedade, sensação de insuficiência e dificuldade em desligar, afetando tanto adultos como crianças. Para travar este ritmo, é essencial criar limites claros: definir horários para o uso de dispositivos, escolher conscientemente o que seguimos e interagimos, e reservar momentos de desconexão total.

Na prática clínica, vemos cada vez mais pessoas a sentirem-se sobrecarregadas por estas pressões digitais. Aprender a gerir a tecnologia de forma consciente é um passo fundamental para proteger a nossa saúde mental e a das nossas famílias, permitindo-nos estar presentes e equilibrados, em vez de apenas reagir à constante demanda externa.

Voltemos ao burnout. Que tipos de burnout existem? A que sinais devemos estar alertas? Quando pedir ajuda e a quem (psiquiatra ou psicólogo)? Como se trata o burnout?

O burnout ainda não é unanimemente aceite como um conceito que pode ir além do contexto laboral. Hoje reconhecemos o burnout clássico relacionado com o trabalho, mas também existem formas de esgotamento parental ou associadas a outras áreas da vida que nos exigem excessivamente, e que podem levar a sintomas muito semelhantes. Eu acredito que estas formas de burnout devem ser reconhecidas.

Os sinais de alerta incluem cansaço extremo, dificuldade em relaxar, sensação de incapacidade, irritabilidade, desmotivação, alterações de sono e problemas de concentração. Muitas vezes, as pessoas só percebem que estão em burnout quando já estão muito esgotadas. É importante pedir ajuda assim que estes sinais se tornam frequentes ou começam a interferir com a vida diária. Em geral, psicólogos especializados são os profissionais indicados para avaliação e intervenção inicial, podendo encaminhar para psiquiatra se houver necessidade de apoio medicamentoso ou diagnóstico diferencial.

Na nossa clínica, o tratamento de burnout é feito através da terapia cognitivo-comportamental. O foco principal é compreender o que aconteceu para a pessoa chegar a este ponto e ajudá-la a quebrar o ciclo do esgotamento, desenvolvendo estratégias práticas para lidar com exigências, estabelecer limites e recuperar bem-estar. É um processo individualizado, centrado na experiência de cada pessoa e na reconstrução do equilíbrio na vida diária. Para quem quiser avaliar se pode estar em burnout, temos disponível um teste de burnout no nosso site, que serve como ponto de partida para refletir sobre o seu estado e procurar ajuda.

É uma espécie de psicóloga nómada digital. O que conseguiu com isso? Mais liberdade? Será que é disso que todos precisamos: menos amarras e mais liberdade?

Sim, considero-me psicóloga nómada digital. Escolher este estilo de vida deu-me aquilo que durante anos procurei: liberdade, equilíbrio e autenticidade. Posso trabalhar de qualquer lugar, conhecer novas culturas e, ao mesmo tempo, continuar próxima dos meus pacientes, e da minha equipa, sem comprometer a qualidade do acompanhamento.

Mais do que liberdade geográfica, o que encontrei foi liberdade emocional e a possibilidade de alinhar o que faço com quem sou e com o ritmo de vida que quero ter. Acredito que é isso que muitos de nós procuramos: menos amarras, menos automatismos e mais vida com sentido.

Partilho muito dessa vivência e da forma como a levo para o meu trabalho nas redes sociais, especialmente no Instagram @sofiacarvalho_psicologa, onde tento mostrar que é possível cuidar da saúde mental e, ao mesmo tempo, viver de forma mais leve e coerente consigo próprio.

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