Sara Leitão Moreira é a nova defensora de José Sócrates na Operação Marquês
Sara Leitão Moreira, jurista de Coimbra com escritório naquela cidade e uma carreira de advogada conciliada com a vida académica, enquanto professora assistente, é a nova defensora de José Sócrates na Operação Marquês, apuraram a TVI a CNN Portugal.
Um facto que já chegou esta segunda-feira de manhã ao conhecimento dos juízes, por requerimento do antigo primeiro-ministro - acompanhado de um pedido para que seja agora concedido à advogada um prazo razoável e suficiente para que esta estude o megaprocesso, de modo a preparar a defesa antes de começar a representar o cliente na barra do tribunal.
Se o coletivo aceder ao pedido de Sócrates, as sessões de julgamento voltarão assim a ser suspensas pelo tempo que os juízes determinarem.
Sara Leitão Moreira, recorde-se, passa a defender José Sócrates depois da polémica das renuncias de Pedro Delille, primeiro, que alegou incompatibilidades com a juíza-presidente; e mais recentemente do advogado José Preto, após doença com internamento que o afastou do julgamento da operação Marquês, em que o antigo primeiro-ministro é o principal arguido por crimes como corrupção, branqueamento de capitais e fraude fiscal qualificada.
Trocas de advogado: Sócrates recorda histórico do processo e acusa juíza de má-fé no apontar de manobras dilatórias
No requerimento em que dá a conhecer ao tribunal Sara Leitão Moreira como nova advogada para o representar, José Sócrates faz duras críticas à juiza-presidente do julgamento da operação Marquês por esta ter sugerido que as trocas de advogados na defesa de Sócrates se têm devido a “incidentes com motivações dilatórias”. Começa o antigo governante por recordar a morte de João Araújo, por doença, após oito anos à espera do fim do inquérito e de uma decisão instrutória; passando pela saída de Pedro Delille incompatibilizado com a juíza, já em julgamento - e, mais recentemente, a renuncia de José Preto depois de internamento por doença.
Leia, na íntegra, a carta de Sócrates escrita ao tribunal:
“Ericeira, 8 de fevereiro de 2026
Requerimento/ Memorando
Senhora juíza Presidente,
É a segunda renúncia e o quarto advogado que mandato. Facto absolutamente extraordinário, num processo que tem quase treze anos e seis meses de julgamento. O primeiro, o Dr. João Araújo, faleceu depois da fase de inquérito e durante a instrução - fases que, em conjunto, demoraram oito anos (impossível resistir ao sarcasmo: nestes oito anos não houve qualquer manobra dilatória visto que a responsabilidade foi do Estado e o Estado não faz manobras dilatórias - só as defesas).
Já o segundo advogado, o Dr. Pedro Delille, renunciou ao mandato na sequência de várias disputas com a senhora Juiza Presidente que considerou porem em causa a sua dignidade profissional e as condições para o exercício da minha defesa efetiva. O terceiro advogado, o dr. José Preto, renunciou ao mandato ainda no hospital, na sequência de uma pneumonia, tendo apontado como razão para tal atitude o facto de não querer que a sua doença fosse
instrumentalizada contra mim com a nomeação de uma advogada oficiosa (que nem sequer levantou, na secretaria, os autos do processo).
Para o Tribunal, pelo que leio nas várias decisões, tudo o que se passou foram incidentes com motivações dilatórias (até o internamento hospitalar) deixando insinuado que, por detrás destes incidentes, estaria a minha vontade. Nem é verdade, nem é justo - também aqui estou inocente: as duas renúncias foram decisões pessoais dos meus advogados que resultaram da avaliação objetiva que ambos fizeram das condições para exercerem o seu mandato. Sou alheio à renúncia do Dr. Pedro Delille. Sou absolutamente alheio ao internamento e à doença do Dr. José Preto. E, já agora, também sou alheio às vicissitudes que prolongaram o inquérito. Sou alheio à duração da Instrução. Sou alheio aos prazos de recurso que foram concedidos ao MP. E sou alheio ao expediente do "lapso de escrita" que serviu para manipular os prazos de prescrição, prolongar a vida do processo e formular uma nova acusação, da qual nunca me pude
defender em instrução.
Com o devido respeito, o que me parece absolutamente lamentável é que um Tribunal se entregue, sem nenhuma contenção, a este lamentável exercício de julgamento de intenções e não exprima um pouco de consciência crítica face a estes acontecimentos - talvez a culpa não seja só dos outros.
Mas, enfim. Aqui chegados, informo o Tribunal que passei uma terceira procuração à Sra. Drª. Sara Moreira para me representar nos autos desse processo. A procuração, estou informado, será apresentada ainda hoje - e pedirá, como é legitimo e justificado face à dimensão do processo, prazo para a preparação da defesa. Pela minha parte, o que tenho para dizer a este propósito limita-se à transcrição do artigo sexto (Direito a um processo equitativo) da Convenção Europeia dos Direitos do Homem, que diz assim, no seu ponto três: 3- O acusado tem, como mínimo, os seguintes direitos: (...) b) dispor do tempo necessário para a preparação da sua defesa. Sublinho: como mínimo.
Apresento, senhora juiza, os meus cumprimentos,
José Sócrates”