Sócrates diz que nunca recebeu dinheiro do primo, mas a gota de água foi quando se falou da amiga

9 set 2025, 20:36

O nome da mãe de Sócrates também surgiu ao longo das quase três horas de sessão, com o antigo chefe de Governo a admitir que foi ajudado pela mesma

José Sócrates voltou a negar esta terça-feira, com veemência, as acusações de que teria recebido dois milhões de euros do primo, José Paulo Pinto de Sousa, enquanto esteve no Governo. O antigo primeiro-ministro classificou a acusação como “violenta e de uma maldicência indiscritível”.

“Tudo é falso, do princípio ao fim. Nunca o meu primo entregou dinheiro enquanto estava no Governo, posso afirmá-lo com toda a certeza (…)”, sublinhou Sócrates, explicando ainda para que serviu uma avultada quantia levantada pelo primo na Suíça. “O meu primo foi à Suíça, levantou 150 mil euros e fez um pagamento a uma pessoa a quem devia dinheiro. Ele não trouxe esse dinheiro para Portugal. O dinheiro era do José Paulo, formalmente e de facto. O meu primo não me poderia ter entregado nada porque eu estava no Brasil. (...) É nestas coisas que se apanha o Ministério Público", acrescentou, durante a nona sessão do julgamento do Processo Marquês.

O ex-governante reforçou ainda que não acompanhava a vida financeira do primo, que, sublinhou, tinha uma vida independente em Angola no período em que era primeiro-ministro. “Eu não acompanhava, nem acompanho, a vida financeira nem a vida empresarial do meu primo. As nossas vidas eram muito distantes. Só convivíamos quando havia um assunto de família.”

Quando questionado sobre se sabia se os milhões na conta do primo José Paulo Pinto de Sousa foram integrados no RERT II [Regime Excepcional de Regularização Tributária] de Carlos Santos Silva, o ex-primeiro-ministro afirmou não ter conhecimento.

“Não faço a mínima ideia de que negócios se realizaram entre o José Paulo e o Carlos Santos Silva. Sei e confio que tudo foi feito de forma absolutamente lícita. Mas isso é algo que deve ser esclarecido por eles próprios. Penso que seria mais sensato que o Ministério Público se concentrasse em apresentar provas relativas aos milhões, em vez de especular sobre o dinheiro do José Paulo.”

A ajuda da mãe e as casas vendidas a Carlos Santos Silva

As questões familiares não se ficaram, no entanto, pelo primo. Também o nome da mãe surgiu durante as quase três horas de sessão, com o antigo chefe de Governo a admitir que foi ajudado pela mesma ao longo dos anos.

“Toda a minha vida, a minha mãe acompanhou-me financeiramente quando precisei. Desde os anos 80, altura em que recebeu heranças do meu avô e do meu tio. Com isso comprou uma casa e ajudou-me, a mim e ao meu irmão, que tinha um problema de toxicodependência.”

Sobre os dois imóveis de família vendidos a Carlos Santos Silva, Sócrates esclareceu que foi “completamente alheio” ao negócio.

“Foi o meu irmão quem vendeu ao Carlos Santos Silva os dois apartamentos que eram da minha mãe. Ela herdou vários do meu avô e as rendas baixas fizeram com que ele se desfizesse desses apartamentos. Sou completamente alheio a essas vendas. Não me interessava por isso e confiava plenamente no meu irmão”, completou.

O Freeport foi outro dos temas abordados esta terça-feira, com Sócrates a afastar a tese de que teria tido qualquer conhecimento prévio do empreendimento. “No dia em que apareceu a primeira notícia do Freeport eu nem sabia o que era. Não fazia a mínima ideia! Mas, felizmente, um secretário de Estado veio ter comigo para explicar o que era o Freeport. O meu primo nunca teve nada a ver com o Freeport.”

"Só faltava essa pergunta. Ao que chegámos". A amiga Sandra foi a gota de água

Mas foi quando se falou de Sandra Santos que José Sócrates se mostrou exaltado. A questão da amizade, levantada pelo Ministério Público, gerou algum incómodo, levando o arguido a esclarecer a situação. “Só faltava essa pergunta. Sandra Santos era e é minha amiga, era amiga do meu primo, e era amiga de Carlos Santos Silva. Sei que ajudámos a Sandra.”  

Questionado se teria dado dinheiro à amiga, Sócrates confirmou alegando “motivos de saúde” da própria. “Eu sei que ajudámos a Sandra. Ela teve vários problemas de saúde e todos a ajudámos. Mas ao que chegámos.”

"Sei que estive com ela no Algarve, mas não me recordo quando", respondeu ainda quando questionado pelo MP.

A sessão terminou depois de Sócrates ter mostrado cansaço perante Susana Seca, a presidente do coletivo de juízes. “Estou cansado deste pequeno período. Foram três horas de manhã e mais três tarde e estou cansado. Já não tenho 40 anos.”

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