Hospital de Setúbal à "beira do abismo": precisaria de mais 70 médicos

28 out, 10:50
Centro Hospitalar de Setúbal-Hospital São Bernardo
Centro Hospitalar de Setúbal-Hospital São Bernardo

Representantes dos 87 diretores que pediram a demissão no Centro Hospitalar de Setúbal foram ouvidos no Parlamento. Faltam recursos humanos, equipamentos e instalações: "o caos está instalado", dizem

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O Centro Hospitalar de Setúbal (CHS) precisaria de, pelo menos, mais 70 médicos para funcionar convenientemente. Isto sem contar contar com as aposentações - sabe-se que 20% a 25% dos médicos irão reformar-se nos próximos cinco anos - e sem ter ainda em conta os médicos que decidam sair , seja para ir para o setor privado ou para o estrangeiro.

Esta realidade foi revelada pelo médico Carlos Ribeiro, diretor demissionário do serviço de ortopedia, na Comissão de Saúde da Assembleia da República. Esta quinta-feira foram ouvidos, a requerimento do Bloco de Esquerda, representantes dos vários profissionais demissionários do Centro Hospitalar de Setúbal. É a última audição sobre a situação nesta instituição hospitalar, depois de já terem sido ouvidos sindicatos dos médicos, Ordem dos Médicos e a administração hospitalar.

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"O Hospital de Setúbal é o reflexo do que se passa nos hospitais de todo o país", explicou Carlos Ribeiro. "Nós temos dificuldade em dar resposta àquilo que é uma dificuldade de política de saúde." 

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A falta de profissionais é um dos principais problemas enfrentados pelo CHS, e que, segundo os médicos, tem sobretudo dois motivos: as aposentações - "há vários anos que se sabe que isto se ia passar e nada foi feito para o evitar", acusou Carlos Ribeiro; e por outro lado "a diferenciação entre setor público e privado", que faz com que se assista "à saída de profissionais por terem condições mais apetecíveis" noutros locais. 

"É muito difícil captar recursos humanos quando eles são constantemente aliciados  e isso não está devidamente acautelado", disse. O serviço de ginecologia-obstetrícia já está em rutura, mas há outros departamentos que também já se ressentem da falta de médicos, como a via verde AVC, a via verde coronária, os cuidados intensivos, o serviço de patologia e a anestesiologia.

"O que está aqui em causa é um problema de atratividade que é transversal a todo o Serviço Nacional de Saúde", explicou Luís Cortez, diretor demissionário do serviço de cirurgia, sublinhando que existem "particularidades" neste hospital, "desde logo porque os proventos são desincentivadores para quem se desloca e não vive na cidade". O tempo das viagens e as despesas implícitas "ainda tornam tudo menos atrativo".

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De acordo com este médico, o Centro Hospitalar de Setúbal enfrenta três tipos de problemas : de recursos humanos, de instalações e de equipamentos.

No que toca aos equipamentos, "o hospital não recebe novos equipamentos há muito tempo, não investiu em novos equipamentos que a medicina moderna requer". "O caso mais paradigmático é o da ressonância magnética", diz o médico. Estima-se que com o dinheiro gasto com a aquisição de serviços no exterior seria possível comprar um aparelho "a cada dois anos". 

Os médicos "não precisam só do estímulo financeiro, precisam também de se sentirem realizadas na sua profissão", justificou Luís Cortez. E para isso seria importante terem acesso a equipamentos e novas tecnologias.

Finalmente, quanto às instalações, Carlos Ribeiro afirmou que os médicos não estão "nada descansados em relação à ampliação" que está prevista: "Não conhecemos o projeto que está em cima da mesa mas se é o projeto que conhecemos há quatro anos, então claramente dizemos vamos ficar pior do que estávamos".

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"Nunca nos foi apresentado um plano capaz, um plano de obras ou de como vai ser feito", criticou a médica Isabelle Cremers, diretora demissionária do serviço de gastrenterologia, lembrando que os profissionais de saúde devem ser ouvidos no que toca ao projeto de ampliação, uma vez que são eles que vão trabalhar ali. "Espero que não se cometa esse erro."

"O abismo está muito próximo de acontecer"

Por fim, José Poças, diretor demissionário do serviço de infeciologia, deixou um apelo aos responsáveis políticos: "Não se limitem a ouvir, isto é urgente e tem de ser feito, antes que se assista à debacle de um hospital que já foi de referência".

"Nós temos reiteradamente chamado a atenção para o abismo que está muito próximo de acontecer", disse o médico. Nas suas palavras, o hospital "está à beira da rutura" e "todos os dias" é visível como "o caos está instalado irreversivelmente".

José Poças está convencido que o concurso para a ampliação das urgências não teria sido aberto se os médicos não se tivessem queixado publicamente. "Se há o reconhecimento factual que o hospital precisa de inverter o caminho inexorável de declínio, não conseguimos entender que não haja também um plano que englobe recursos humanos, equipamentos e requalificação. Só darem-nos paredes não resolve nada", disse.

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José Poças recordou que, a cumprir-se a lei, a partir de terça-feira o diretor clínico, Nuno Fachada, que se demitiu no final de setembro, já não estará em funções, o que pode abrir uma crise de liderança gravíssima na instituição. "O hospital não pode ficar sem diretor", sublinhou.

Lembrando que a maioria dos médicos demissionários estão já perto da idade da reforma, o médico disse: "Nós até à reforma vamos continuar a fazer o que sabemos fazer, mas o hospital não precisa só de médicos, precisa de liderança. (…) Queremos, quando sairmos, deixarmos um hospital viável, e estamos amargurados, profundamente amargurados, porque sentimos que isso não vai acontecer"

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