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Coordenador e editor de Religião e Cidadania TVI/CNN Portugal

Já não há Papa emérito. E agora?

10 jan, 18:45
Papa Francisco e Papa Bento XVI (Associated Press)

Um cristão não se compreende no mero cumprimento de preceitos doutrinários ou normativos – exercícios necessariamente especulativos num “seguimento” – mas pelo aperfeiçoamento da busca espiritual, ética e moral, a partir da fonte inesgotável que é o evangelho. É por isso que o cristianismo, na sua pluralidade eclesial, é um drama de interpretação. Um bom drama na diversidade de procuras, entre a fé num “Tu” relacional e a crença no “Outro”, tão inolvidável quanto indescritível.

A(s) Igreja(s) vive(m), assim, num equilíbrio entre a criatividade das dúvidas sem resposta, o exercício da Razão – pelo estudo interdisciplinar do fenómeno religioso, com a filosofia, e das ciências bíblicas, com a teologia – e a fixação da tradição, que junta peças soltas pela emoção e pelo simbólico, sustentando modelos de organização e hierarquias.

1. É a tensão entre estes dois polos que faz a história do cristianismo. É também neste pêndulo que se encontra o contributo relevante do teólogo e Papa Ratzinger, mais incompreendido por aqueles que o elevam já à santidade do que pelos críticos.

Ratzinger sempre procurou o exercício da Razão para defender a tradição elevada e a ortodoxia. A recuperação de velhos símbolos da cristandade, do saturno natalício à aproximação aos integristas lefevrianos, enquandra-se nesta preocupação. A memória e a tradição, entendia, não são incompatíveis com a modernidade e a Razão.

Cruzando vários saberes e abordagens, Ratzinger foi fiel à convicção que alimenta a fé cristã e os alicerces da cultura católica – Deus faz sentido!

Usava a teologia como principal ferramenta de compreensão e análise, fosse para desenvolver acutilantes reflexões sobre o secularismo, o relativismo moral e a indiferença face à religião institucional, fosse para reafirmar o velho axioma católico – extra Ecclesiam nulla salus (“fora da Igreja não há salvação”) –, difícil de entender perante a metamorfose, diversidade e pluralidade na experiência religiosa e na vivência do catolicismo. A “Verdade” autentifica a “Caridade”, reforçava Bento XVI na encíclica Caritas in Veritate (Papa Bento XVI, Carta Encíclica Caritas in Veritate, 29 de junho de 2009, n. 3).

O testamento espiritual do Papa Ratzinger, escrito em 2006, sintetiza o propósito de uma vida, da academia ao Papado. “Muitas vezes parece que a ciência – as ciências naturais por um lado e a pesquisa histórica (em particular a exegese da Sagrada Escritura) por outro – são capazes de oferecer resultados irrefutáveis, em contraste com a fé católica”, dizia, fazendo memória de “transformações das ciências naturais desde tempos remotos” e concluindo: “pude ver como, pelo contrário, desapareceram as certezas aparentes contra a fé, revelando-se não ciência, mas interpretações filosóficas apenas aparentemente devidas à ciência; assim como, aliás, é no diálogo com as ciências naturais que também a fé aprendeu a compreender melhor o limite do alcance das suas afirmações e, portanto, a sua especificidade”.

2. Joseph Ratzinger ensaiou uma resposta católica ao mundo secularizado das incertezas, fixando traves mestras sobre as quais o sucessor pode agora fazer um mais abrangente e, até por isso, revolucionário exercício pastoral. Numa comparação simplista, Bento XVI sublinhou as balizas e as medidas, para que o sucessor possa desenvolver um jogo com bola que entra e sai do campo, porque na ação pastoral há linhas, não há paredes, e até os apanha-bolas ou a assistência fazem parte da festa.

Com Bento XVI, a Igreja colocava a doutrina a montante, condicionando rigorosamente os caminhos. Com Francisco, há um reposicionamento da doutrina. A montante passa a estar o evangelho, na caridade e na misericórdia. A doutrina passou para jusante, como objetivo que não exclui, mas indica um/o caminho.

Nas palavras de D. Carlos Azevedo, bispo delegado do Comité Pontifício para as Ciências Históricas, “Bento XVI é para se ler”, enquanto “Francisco é para se ouvir” e a oralidade é mais quente, surpreendente.

Não deixam de ser estranhos os alinhamentos ideológicos que vão sendo feitos, aperfeiçoando as tensões naturais – dores de uma continuidade com necessários reajustamentos – entre dois pensadores de um mesmo ofício, mas com mundos diferentes para cuidar.

O livro de Georg Gaenswein, secretário do Papa emérito, cerebral e intencionalmente preparado, apresenta-se como lança de uma ala imobilista da Igreja católica, que perdeu o chão quando, num rasgo de lucidez, Bento XVI resignou para permitir outros caminhos que ele não conseguia percorrer. A missão que entendia ter assumido, estava concluída.

Com Bento XVI, a Igreja católica, sobretudo a cúria romana, transformara-se, numa plataforma de poder(es), escândalo, corrupção e segregações, em contraste com a Igreja no terreno, em combate pela dignidade humana, na primeira linha das necessidades mais básicas. Era um impasse. Com o foco quase exclusivo nos preceitos da ortodoxia, a Igreja fechara-se numa cápsula autorreferencial. Era tempo para fazer a purificação da ação pastoral, o aprofundamento pragmático das pontes (o papel de um Papa). 

3. Houve inúmeras tentativas de colar o Papa emérito a setores ultraconservadores, que diziam ver em Bento XVI o “verdadeiro” Papa. Entende-se o oportunismo. Bento XVI não era um Papa disponível para ousar para lá dos padrões. Mas foi uma redutora instrumentalização ideológica de um homem que, tendo percebido os seus limites, por amor à Igreja, saíra de cena.

Os críticos de Francisco não entendiam, como não querem entender, o devir da história e o papel de um Papa no mundo e com o mundo. É ouvi-los agora, a pedir a resignação do Papa argentino, agarrados a qualquer escrito ou publicação que sustente o sectarismo eclesial.

Vai Francisco resignar? Já respondeu à pergunta e escreveu a carta da praxe. Com a morte do Papa emérito deixou de haver outro argumento para não o fazer: o do embaraço que era, para a Igreja católica, ter dois Papas eméritos na sombra de um Papa em exercício.

Francisco deu a entender que pretende abrir a primeira assembleia do sínodo sobre a sinodalidade, em outubro – acontecimento que está a ser criticado, na forma e alcance, pelos mesmos setores imobilistas –, ou, pelo menos, assegurar que um sucessor mantém o dinamismo reformador do sínodo. Também já disse que o Papa vai estar na Jornada da Juventude, em agosto. Ele ou outro. E ficamos por aqui.

A difícil viagem à República Democrática do Congo e ao Sudão do Sul, de 31 de janeiro a 5 de fevereiro, dar-nos-á novas leituras. De resto, é contar as horas de cada dia pela fragilidade motora e pela força anímica de alguém que se confessou “cobarde perante a dor física” (in La Voz del Pueblo, 25 maio 2015).    

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