Um dia na aldeia no fim do mundo

28 dez 2021, 21:12

Momentos de uma reportagem

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Montalvão.

Logo de manhã cedo, Tchá Mourata, amparada na bengala, desce a rua íngreme da farmácia com afã. É dia de ir buscar os remédios. O corpo fingido ou embrulhado no xaile negro não permite imaginar a façanha. A lentidão e a ansiedade são mais do que compreensíveis. A senhora vai fazer 94 anos e não desarma. A caminhada é mais uma forma de enganar os castigos do tempo e os abalos do presente.

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Pé ante pé, vai buscar os remédios 
Foto: Rui Araújo

 

Meto conversa com a anciã à saída da farmácia. Vale-me a condição de jornalista e, sobretudo, a presença do seu primo, Rogério Belo, o novo  presidente da Junta de Montalvão.

Ai, mas, então, eu não trago a máscara. Valha-me Nossa Senhora...

Depois das cogitações religiosas e de a deixar aconchegar conscienciosamente o lenço negro, pergunto-lhe, sem pressas, se esta terra é boa para os velhos.

— Isso é. Não há mas é aqui quase ninguém. Vou meter a máscara. É uma terra boa e nós somos da geração maior que cá há. Dos Zabumbas, que é a geração do meu primo. Sabe… tudo gente boa.  Está-me a filmar…

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É uma terra boa para os velhos?

É, sim senhor. A nossa terra é saudável, a nossa vila...

E o que é que falta?

O que é que falta? Falta-nos, aqui, muita coisa. Não temos cá um transporte. Não temos cá nada!

— Antigamente havia mais gente cá?

—  Na nossa vila não havia casas que chegassem! Agora, está tudo de sobra...

Com ou sem palavras de despeito, feitas as contas, nada (nem ninguém)  consegue indefinidamente resistir ao tempo.

Montalvão chegou a ter câmara municipal, escola, hospital, postos da GNR e da Guarda Fiscal, cadeia, centro comercial, armeiro, ervanária, ferreiro, sapateiro, barbeiro, alfaiates, latoeiro, costureira, matadouro, 12 tabernas, seis salsicharias, quatro talhos, etc.

Hoje, resta uma padaria, um lagar, uma mercearia (só na rua Direita havia quatro antigamente), dois ou três cafés e o posto da farmácia Gavião (três manhãs por semana).

 

Muita gente abalou para a cidade e para o estrangeiro
Foto: Rui Araújo

 

Tchá Mourata cumpriu-se sem queixumes apesar de ter perdido o marido e três filhos. Desde então, o sino só tem repenicado para os outros.

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Ponho-me a pensar nas palavras de Miguel Torga a propósito dos velhos. A velhice é isto: ou se chora sem motivo, ou os olhos ficam secos de lucidez.

A velhice também acaba por ser muitas vezes solidão e morte social.

O silêncio que se aninhou nestas casas despovoadas e apagou as memórias é penoso (para não dizer amargo!).

Montalvão é uma aldeia de gente humilde, trabalhadora e honrada, que vivia da enxada e do gado e, quando era preciso (é mesmo assim!), do contrabando. Em 1940 havia, aqui, 2.672 almas. A aldeia perdeu, entretanto, 34,5% da população entre os  dois últimos censos. Em 2011 havia, aqui, 442 fregueses. Hoje, há 290.

 

Um abrigo de xisto dos contrabandistas
Foto: Rui Araújo

 

Tchá Mourata volta a enfiar o lenço negro na cabeça e desata a rir.  Cada qual parte para seu lado. Vamos calados como aldeões que se conhecem há uma data de tempo.

Desço ao Chão da Porta de Baixo. Olho em redor. Batem as duas. A povoação parece adormecida. Não se vê vivalma.

Tchá Graça lá acaba por aparecer, afogueada. Tem 80 anos, mas teima em caminhar a passos lestos. Decididos. A sua figura é a de uma mulher bonacheirona, alegre e aberta. De mais a mais, a compostura é nobre. Sorri-me.

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— Venho aqui para a horta para não estar todo o dia lá em casa. E, assim, corto…

Só paramos depois de ela apressar o passo e desandar à esquerda. É o espaço das oliveiras. Fico a ouvir.

— Se eu me levantasse e não saísse de casa chegava a pontos que… que sei lá o que eu era. E, assim, não... Gosto de mexer na terra. Gosto de ver as coisas a nascer. Gosto de as colher quando elas são bonitas. Gosto. (RI-SE) É assim: gosto!

Tchá Graça é uma moira de trabalho, mas, aqui, enche os olhos e a alma de paz.

E hoje, calha ser dia de apanhar azeitona. Há 19 oliveiras carregadas. Dou uma ajuda do cimo do escadote, a fazer de valente, mas atento à perícia da senhora.

 

Há um lagar na aldeia que ainda funciona
Foto: Rui Pereira

 

— Qual era o seu sonho quando era gaiata?

— A gente dantes não tinha, se calhar, nem sonhávamos…

Sonhávamos logo com o que tinhamos de ser porque eu até podia ter ido para a estudar, que a minha professora foi pedir ao meu pai que me levava para casa dela para eu estudar lá e que não me levava nada de pensão. Mas eu tinha dois irmãos mais velhos. Que não podia estudar, não podia. O meu pai disse logo que não podia fazer isso porque tinha lá dois filhos homens e não tinham ido a estudar. Não podia mandar a filha. E, pronto, fiquei assim...

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Insisto.

— Sei lá, talvez ser professora. Pois. É assim. Mas também gostei do que fiz. Também gostei do que fiz, sim. Fazia roupinhas. Fazia… Tinha uma máquina de tricotar, fazia malhas. Também gostei do que fiz…

— Levou muitas reguadas…

— Ai, não.

— Tem cara disso…

— Não. Não. Não. Não levei. Era uma menina muito bem comportadinha!  

Ela desata a rir à gargalhada. A alegria que põe no que diz é contagiante.

— E ainda hoje sei as lições de cor…

Recita-me algumas páginas dos livros da 3ª e da 4ª classes.

 

Conhece de cor e salteado os livros da instrução primária
Foto: Rui Araújo

 

— Quer mais?

Sorrio-lhe. Tchá Graça, a imensidade de um sonho de antanho numa aldeia exígua.

— É uma mulher feliz?

— À minha maneira, sou. Sim. Sim. Sou.

Tchá Graça sabe o que custa a vida. Tenho uma profunda admiração por esta gente. Desta feita, não me atrevo a dizer mais nada para não ser importuno. E é uma dor de alma ver esta terra alentejana a morrer.

 

Os locais de encontro mudaram
Foto: Rui Araújo

 

Na aldeia o apetite é madrugador como a cotovia, dizia Aquilino Ribeiro. Não é tarde nem é cedo. Partimos (antes de uma trovoada desabar sobre Montalvão). Esta noite, o meu parceiro e eu jantamos no Regata (Alpalhão) ou no Colmeia (Nisa).

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Nota: O jornalista escreve segundo a antiga ortografia

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