Porque é que os pais não podem fechar os olhos a 'Squid Game'

20 out, 16:20
Squid Game
Squid Game

'Squid Game' explodiu na Netflix e apesar de ser uma série para adultos não passou ao lado dos mais novos, fascinados com os jogos infantis de mata ou morre. Especialistas pedem cuidado e já há relatos de efeitos secundários da série sul-coreana em Portugal

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Cerca de 132 milhões de pessoas em todo o mundo viram pelo menos dois minutos de Squid Game nos primeiros 23 dias em que a série esteve disponível no catálogo da Netflix. Os números impressionam e, talvez por isso mesmo, o serviço de streaming, que é parco em divulgação de dados, os tenha tornado públicos.

A série sul-coreana estreou-se a 17 de setembro e, pouco mais de um mês depois, serão poucos os que ainda não ouviram comentários relacionados com a história, que coloca um grupo de adultos endividados e sem escrúpulos à procura da vitória numa série de jogos infantis, do jogo da corda ao macaquinho do chinês, em que perdedores vão morrendo à frente de quem segue caminho. O nome, Squid Game, é em tradução literal "jogo da lula", um jogo tradicional coreano que se faz em cima de um desenho com forma semelhante à do molusco.

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Há aqui uma ativação da curiosidade natural: se começam a espalhar os números, se é a série mais vista, se já todos viram, então eu também vou ver", diz Margarida Cordo, psicóloga e terapeuta familiar. "E se pensarmos nos temas, sexo, suicídio, violência explícita, tortura psicológica, aliando isto ao jogo, não há adulto que resista", assinala, ainda, a especialista. "É um caldo perfeito."  

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E as crianças? Sentirão o mesmo apelo? "Naturalmente", responde Melanie Tavares, psicóloga e coordenadora no Instituto de Apoio à Criança (IAC). "São jogos tradicionais, é óbvio que as crianças se vão identificar e ter maior dificuldade em separar o real do ficcionado", explica. O que para a especialista não se explica é o desleixo dos pais e cuidadores que permitem que as crianças, sobretudo as mais novas, tenham acesso a este tipo de conteúdo.

Proibimos os filmes pornográficos porque não são adequados à idade, mas os conteúdos sexuais ou violentos têm quase o mesmo impacto nas crianças. Porque é que os pais acabam por ser mais negligentes neste tipo de séries?", questiona Melanie Tavares.

Margarida Cordo tem a mesma preocupação. "Há uma inversão das prioridades dos pais", lamenta a psicóloga. "Deixar tudo à solta, confiando que só dá para entrar pela Netflix e que há filtros não pode ser, é falta de atenção, falta de dedicação. Como podemos querer que uma criança de seis, sete, doze anos, tenha maturidade para gerir uma coisa destas?". Para a especialista, é importante que os cuidadores façam com as crianças uma "pedagogia do sentido", que passa por ajudá-las a fazerem escolhas melhores e a abdicarem voluntariamente de atividades que lhes vão fazer mal.

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Mostrar-lhes que estes cenários lhes vão causar mal-estar, medo, que são coisas que não podem controlar", acrescenta.

Uma fábula da sociedade moderna

Hwang Dong-hyuk, o realizador e argumentista de Squid Game, admitiu numa entrevista à Variety que pensou na série - que conta para já com uma temporada de nove episódios - como uma alegoria para adultos da excessiva competição da sociedade sul-coreana. "Queria escrever uma história que fosse uma alegoria ou uma fábula sobre a sociedade capitalista moderna, algo que retratasse competição extrema", admitiu.

Como um jogo de sobrevivência, é entretenimento e drama humano. Os jogos são extremamente simples e fáceis de compreender. Isso permite aos espectadores concentrarem-se nas personagens, em vez de estarem distraídos a tentarem interpretar as regras dos jogos", sublinhou o realizador de 50 anos. A série foi gravada durante a pandemia e apontava ao stress e à "mentalidade de ilha" dos sul-coreanos.

Somos 50 milhões de pessoas num espaço pequeno. E, por estarmos separados do continente asiático pela Coreia do Norte, desenvolvemos uma mentalidade de ilha", explica Dong-hyuk. "Estamos sempre a preparar-nos para a próxima crise. Em alguns aspetos, serve de motivação. Ajuda-nos a questionar o que mais pode ser feito. Mas esta competição também tem efeitos secundários", assinalava o realizador.

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Por fazer da morte violenta entretenimento, Melanie Tavares considera que o maior impacto que Squid Game pode ter nos mais pequenos é a "normalização da violência e da agressividade mal gerida, que depois se manifesta em situações de violência, contra si próprio ou contra os outros". Sinal dessa normalização serão as brincadeiras no recreio das escolas de vários países europeus, que imitam os jogos infantis de Squid Game e terminam com agressões aos perdedores. Ainda que não haja relatos concretos de situações em Portugal, países como Bégica, Espanha, Austrália ou Reino Unido já registaram casos e as escolas pediram auxílio aos pais dos alunos para que os proibissem de continuar a ver.

Nestes jogos, eles vão morrendo todos uns à frente dos outros, é muito baseado no fenómeno do bullying", refere Melanie Tavares. "E mais do que os agressores e as vítimas, temos os espectadores com atitude passiva, que observam, minimizam a violência para sobreviverem", acrescenta a psicóloga, elencando os perigos para as crianças destes exemplos no ecrã. "Alterações do ciclo do sono, terrores noturnos e agora, nesta fase em que temos todos índices de ansiedade mais elevados, pode aumentar também os níveis de ansiedade", aponta.

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Margarida Cordo vai mais longe: tem colegas, psicólogos ou pedopsiquiatras que começam a ver comportamentos que associam a sequelas nefastas do visionamento da série. "São miúdos, que já vêm feridos da pandemia, com ansiedade e alterações do sono por causa do Squid Game. Isto tem um mês mas já tenho uma colega que apanhou um grupinho de meninos de quinto e sexto ano com sinais de fobia escolar: vamos para a escola, será que isto nos vai acontecer? Mexe muito com eles", revela. "No mundo atual, a grande maioria das coisas foge-nos do controlo muito rapidamente."

Adolescentes, punir ou não punir?

E se os mais pequenos, por vezes, conseguem ser convencidos ou, no limite, protegidos deste tipo de estímulos, pouco há a fazer quando os adolescentes se juntam no intervalo das aulas a ver excertos de Squid Game no YouTube. Tal como aconteceu com o jogo da Baleia Azul ou outros desafios divulgados em redes sociais, quando os pais e a escola percebem a dimensão do fenómeno este está já disseminado pelas faixas etárias mais novas.

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Funcionamos por ondas e basta haver alguém que faça alusão. Os miúdos, por necessidade de pertença, têm de ir ver do que se trata", explica Melanie Tavares. Para a especialista do IAC, o trabalho mais importante a fazer com um adolescente que já viu a série é explicar o que está a acontecer, desmontando as mensagens subliminares. "Ir alertando para os perigos de determinada mensagem que provém destes conteúdos violentos e explicar as consequências dos seus atos quando, numa situação de vida real, temos esses comportamentos desajustados, disruptivos", afirma.

Margarida Cordo corrobora. "É difícil penetrar num adolescente, mas aqui não vale a pena punir. Se for punir o facto de ter visto com amigos vai fazer com que ele se cale, pensa que está a ser punido por dizer a verdade. É importante mostrar a preocupação com humildade e explicar", frisa a psicóloga. Sobre o papel da escola, diz que é importantíssimo e deve haver uma "articulação fortíssima" entre a família e o estabelecimento escolar.

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A relação de pais e filhos é cheia de lacunas e os filhos, na adolescência, muitas vezes não partilham coisas essenciais com os pais. É um tempo de oposição quase sistemática e em que o lugar dos amigos é muito mais significativo", afirma. "O que vou dizer serve para o Squid Game mas também serve para tudo o resto: é preciso um grande trabalho de fundo" em família, resume.

Melanie Tavares também defende o papel da escola como "fundamental", por ser um palco para a promoção de comportamentos preventivos. "Todos educam, em casa e na escola. Por isso temos um ministério da educação e não da ensinagem", ironiza. "Os jovens tomam determinadas decisões por falta de consciência de risco. Então temos de informar, sensibilizar, conversar sobre os perigos e as consequências, passar a mensagem de que aquilo não é a vida real." A especialista lembra ainda que o IAC dispõe da linha SOS Criança, no número 116111, para todas as situações de risco que envolvam crianças e jovens: "Podem telefonar se tiverem dúvidas. E os pais podem sinalizar situações, por exemplo, ou outros adultos com conhecimento de comportamentos perigosos."

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Autoridades atentas aos recreios

Apesar de classificado para maiores de 16 anos por incluir cenas de violência, sexo e suicídio, Squid Game é nesta altura o programa mais popular da Netflix em mais de 90 países do mundo. E no Reino Unido, por exemplo, onde as consequências têm sido mais visíveis, várias escolas lançaram alertas aos pais depois de crianças de apenas seis anos terem sido apanhadas no recreio a reproduzir cenas dos jogos tradicionais retratados na série. Na Bélgica, alunos de 11 anos chegaram mesmo às agressões enquanto imitavam o desenrolar dos jogos.

Em Portugal, e porque esta quarta-feira se assinala o Dia Mundial de Combate ao Bullying, a PSP publicou nas redes sociais um apelo à denúncia deste tipo de comportamentos servindo-se precisamente da série coreana. "O bullying é um squid game: parece brincadeira mas não é", lê-se na página oficial da PSP no Facebook, por cima de uma imagem de Squid Game.

A GNR, por sua vez, emitiu no passado domingo um comunicado dizendo estar “muito atenta ao fenómeno” Squid Game e aos efeitos que a série sul-coreana está a ter nos mais novos.

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Ao longo das diversas ações de sensibilização que fazemos junto da comunidade escolar iremos continuar a reforçar os conselhos e os perigos que a violência transmite", sublinhava a nota das autoridades, emitida depois de uma página não oficial da GNR ter divulgado conselhos e advertências aos pais a propósito de Squid Game.

"A página em causa não é da responsabilidade da Guarda nem pertence a nenhum canal de comunicação oficial da Guarda, pelo que foram encetadas diligências para que a mesma fosse desativada, o que já se verificou. Não obstante, a Guarda está muito atenta a este fenómeno, até pela presença ativa na comunidade escolar, junto de crianças e jovens”, sublinhava a GNR.

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