Há 25 anos que Portugal não ganhava à Alemanha. Sérgio Conceição foi o nome, o rosto, que marcou os pesadelos dos germânicos depois daquele duelo em Roterdão. Agora, em Munique, foi o agitador Francisco Conceição que iniciou uma reviravolta que fica para a história, haja o que houver na final desta Liga das Nações
São histórias como esta que fomentam a nossa paixão pelo Futebol. A improbabilidade da vitória, o contrariar das «odds», o surgimento dos heróis inesperados, a explosão de alegria subsequente ao momento de arte que perdurará na memória.
Quando Wirtz bateu Diogo Costa, no início da segunda parte do encontro de Munique, muitos terão recordado as palavras de Gary Lineker - que até tem uma «costela» portuguesa, por via de um bar no Algarve…: «futebol são onze contra onze e no fim ganha a Alemanha».
A verdade é que a história ainda estava a meio, longe de estar contada.
Sérgio Conceição não foi o melhor jogador da história do futebol português – longe de ser mau! – mas foi, seguramente, um dos que tiveram mais coração, mais garra; mais nervo, mais «azia», mais audácia. Sempre vi o Sérgio como o jogador que não ligava ao nome do adversário. Sempre o imaginei como aquele jogador que chegava ao campo e dizia «é contra quem? Onde é a baliza? Vamos embora!».
Como fazíamos na escola primária, sem receios, com a confiança de que a bola esbate todas as diferenças e permite que resolvamos tudo.
Como treinador, já agora, fez por aplicar a mesma filosofia – sendo que, aí, depende de muitos outros, de múltiplos fatores e não apenas da sua «garra».
A vitória da «raiva» dos suplentes em 2000 sempre simbolizou, para mim, a forma de ser de Sérgio Conceição – que foi muito mais do que esse jogo, mas foi tanto esse jogo!
E agora, subitamente, a noite de Munique deu-nos uma espécie de «déjá vu». Francisco Conceição, que não foi exatamente soberbo na Juventus (que não o quer manter) e que não deve ficar no Futebol Clube do Porto (que o quer vender) resolveu entrar em campo para «partir a loiça toda».
O golo que marcou faz mesmo lembrar o melhor que o pai, Sérgio, apontou há 25 anos frente à mesma Alemanha. E fez-nos sentir a mesma alegria, a mesma crença, a mesma euforia.
Não sei quantas vezes Francisco viu os golos do pai em Roterdão; sei que honrou esse legado (e podia ter marcado mais!) e que escreveu o seu nome próprio na história das «estórias» do futebol português.
Daí para a frente, a vitória de Portugal (tão improvável uns minutos antes) parecia inevitável, incontornável. Como veio a acontecer.
O pai, Sérgio, só pode estar orgulhoso.
«Livre de Letra» é o espaço de opinião de Rui Loura, editor-geral do Maisfutebol.