A «emancipação» de um treinador à custa do campeão da Europa

21 jan, 21:29
Rui Borges antes do Leipzig-Sporting (Filip Singer/EPA)

Rui Borges fez questão de sublinhar, depois da vitória sobre o PSG: «Acho que não me vão perguntar mais porque não ganho a equipas grandes». Pelo que tem feito em Alvalade, merece esse momento de altivez.

Há uns anos, quando era acusado de ser demasiado pragmático e nada vistoso - e quando conseguia lutar pela conquista dos maiores troféus - Diogo Simeone repetia um aforismo: «A beleza do futebol é que não há apenas uma forma de conseguir atingir o objetivo», dizia o argentino.

Pode não se gostar do estilo, mas a verdade é que Simeone devolveu a ambição e o prestígio ao At. Madrid. Já está no clube há 14 anos e esteve tão perto, em Lisboa, de conquistar a Liga dos Campeões!

Simeone conquistou os adeptos «colchoneros», depois de ter chegado ao clube rodeado de dúvidas, numa época de crise de resultados, lançando a era do «Cholismo».

Apesar de tudo, Simeone já era um treinador com títulos conquistados na Argentina quando chegou ao Atlético - e tinha feito um percurso como jogador de elite.

Rui Borges tinha muito menos quando chegou a Alvalade: um percurso ascendente e promissor, sim, mas sem títulos ganhos. Isso depois de uma discreta carreira de jogador, onde nunca chegou a atuar no escalão principal.

Chegou ao Sporting no momento mais conturbado do clube nos anos mais recentes, no vazio deixado pela saída de Ruben Amorim e pelo ato falhado que foi a aposta em João Pereira. Única vantagem: as expetativas estavam baixas.

E, no entanto, venceu o (bi)campeonato e a Taça de Portugal, estabilizou a equipa, devolveu a confiança. Como se fosse coisa pouca, perdeu o jogador-símbolo desse sucesso. Olhou em frente, adaptou a equipa às suas ideias e foi à luta.

Será muito difícil repetir a época passada, mas Rui Borges continua a tentar evoluir, a procurar soluções, a tentar superar-se. Adaptando a frase de Simeone, há muitos caminhos para chegar ao sucesso.

A vitória sobre o todo-o-poderoso PSG, rei da Europa, não foi por sorte ou por acaso. Teve alguma felicidade, sim, mas essa, a felicidade, procura-se.  E bem pode argumentar Luis Enrique que dominou o jogo; a verdade é que não o conseguiu ganhar.

A vitória do Sporting valeu «apenas» três pontos, é certo, mas pode ter um outro simbolismo: a «emancipação» de um treinador de quem diziam, apesar dos títulos, que não conseguia ganhar jogos aos grandes. Um pouco como a Festa dos Rapazes, em Mirandela, simboliza a emancipação dos jovens – isto para quem gosta de invocar as raízes humildes do treinador do Sporting, como se isso o limitasse…

Rui Borges fez questão de o mencionar, após a partida: «Acho que não me vão perguntar mais porque não ganho a equipas grandes». E acrescentou: «É ruído».

Se a correria pela linha lateral, depois do segundo golo de Suárez, foi facilmente comparada ao sprint de José Mourinho em Old Traford, há mais de vinte anos, Rui Borges não teve problemas em assumir que o atual técnico do Benfica é a sua maior referência como treinador.

E, já que aí estamos, tem direito a essa pequena frase, que bem poderia ter sido dita por Mourinho.

Provavelmente, pelos menos nos próximos tempos, não perguntarão a Rui Borges porque não consegue ganhar jogos grandes.

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