Três idosos morreram em menos de 48 horas à espera de socorro do INEM. Uma das vítimas esperou quase três horas

Nuno Mandeiro , com Lusa
8 jan, 15:41
INEM (Arquivo)

O Sindicato dos Técnicos de Emergência Pré-Hospitalar admite que o novo sistema de triagem possa ter influenciado o desfecho. Mas Luís Cabral, presidente do INEM, atribuiu a falta de resposta atempada à retenção de macas nos hospitais, que seguram as ambulâncias, não podendo depois dar resposta a outras situações

Na terça-feira, um homem de 78 anos morreu no Seixal após quase três horas à espera do socorro do INEM. Na quarta-feira à tarde, houve mais dois casos: uma mulher de 73 anos morreu na Quinta do Conde depois de esperar 40 minutos para que os Bombeiros de Carcavelos chegassem a Sesimbra; em Tavira, um homem de 68 anos também não resistiu depois de ter estado mais de uma hora à espera.

Seixal: quase três horas de espera

Um homem morreu na terça-feira no Seixal depois de quase três horas à espera de socorro do INEM. O Sindicato dos Técnicos de Emergência Pré-Hospitalar (STEPH) começou por confirmar o caso e admitiu que o novo sistema de triagem possa ter influenciado o desfecho.

A fita do tempo deste caso, a que a Lusa teve acesso, mostra que o homem, de 78 anos, ligou pela primeira vez a pedir socorro ao INEM pelas 11:20 de terça-feira, tendo esta situação sido classificada como prioridade 3 - que prevê o acionamento de meios em 60 minutos -, mas apenas foi enviada a viatura médica pelas 14:09, quase três horas depois.

Apesar de ter sido considerada uma situação de prioridade 3, mais de uma hora depois, pelas 12:48, a cronologia do caso indica que a Cruz Vermelha do Seixal não tinha ambulância, que as ambulâncias de Almada e Seixal estavam ocupadas e, pelas 13:29, houve uma segunda chamada para o INEM a questionar a demora de meios.

Pelas 14:05 houve uma nova chamada e foi registado que a vítima estava em paragem cardiorrespiratória. Às 14:09, foi enviada a viatura médica de Almada que, entretanto, ficou livre.

O STEPH confirmou a informação, admitindo que o novo sistema de triagem, que entrou em vigor no início do ano, possa ter contribuído para o desfecho fatal.

“Provavelmente contribuiu porque, consoante a prioridade que lhe foi atribuída, poderia ser enviado o meio até 60 minutos. Por isso, até aí não me espanta que não tenha havido procura de meios para serem enviados”, afirmou o presidente do STEPH, Rui Lázaro, à Lusa.

Rui Lázaro adiantou que esta situação vem “confirmar o risco de deixar as pessoas à espera” e confirma que desde que o novo sistema de triagem do INEM começou a funcionar, o sindicato tem recebido diariamente denúncias de situações cujo tempo previsto nas prioridades foi ultrapassado sem que tivesse sido enviada qualquer ambulância.

“Tem havido muitos casos”, disse o presidente do STEPH, explicando que, na segunda-feira, houve várias situações no Algarve que deveriam ter visto meio acionado em 60 minutos, mas que isso só aconteceu duas ou quase três horas depois e cujas consequências desconhece.

Na quarta-feira, em declarações aos jornalistas, o presidente do INEM, Luís Cabral, descartou responsabilidades do instituto, insistindo que 15 minutos depois foi tentada a ativação de um meio para o local, mas não havia ambulâncias disponíveis.

Luís Cabral atribuiu a falta de resposta atempada à retenção de macas nos hospitais, que seguram as ambulâncias, não podendo depois dar resposta a outras situações.

“A resposta do INEM foi dada dentro daquilo que era o prazo. Fizemos a nossa primeira tentativa de ativação de meios. Infelizmente, e como tem sido notícia em todos os órgãos de comunicação social do país, há uma limitação muito significativa de ambulâncias, principalmente na margem sul, por via da retenção dessas ambulâncias nas unidades de saúde”, acrescentou.

O caso está a ser investigado pela Inspeção-Geral das Atividades em Saúde (IGAS) e pelo Ministério Público, que ordenou ainda a realização de autópsia.

Quinta do Conde: acionado socorro a 35 km que demorou 40 minutos

Uma mulher de 73 anos morreu na quarta-feira à tarde, na Quinta do Conde, em Sesimbra, depois de esperar pelo socorro, que foi levado a cabo por uma ambulância dos bombeiros de Carcavelos, a 35 quilómetros de distância.

Numa publicação no Instagram, os bombeiros de Carcavelos sublinham que, "apesar da pronta saída do quartel, a distância entre as duas localidades condicionou inevitavelmente o tempo de chegada ao local".

"Durante a tarde de hoje, a nossa equipa foi mobilizada para uma ocorrência de paragem cardiorrespiratória (PCR) no concelho do Seixal, a cerca de 35 km de Carcavelos. Apesar da pronta saída do quartel, a distância entre as duas localidades condicionou inevitavelmente o tempo de chegada ao local. Em situações de PCR, cada minuto é determinante - por cada minuto que passa sem manobras de reanimação, a vítima perde cerca de 10% de hipóteses de sobrevivência. Este tipo de ocorrência relembra-nos a importância dos tempos de resposta e da proximidade dos meios de socorro, salientando que, mesmo com a melhor preparação técnica e humana, a distância é um fator crítico na probabilidade de sucesso da reanimação. Continuamos empenhados em garantir resposta rápida, profissional e humana, ainda que, por vezes, as limitações geográficas e de cobertura operacional criem desafios significativos ao trabalho dos bombeiros", lê-se na publicação no Instagram.

Em declarações à CNN Portugal, o comandante dos bombeiros de Carcavelos, Paulo Santos, explicou que o pedido de socorro chegou ao quartel às 14:00 de quarta-feira, tendo a ambulância saído para o local dois minutos depois.

"Demoraram 40 minutos a chegar ao local", afirmou.

Segundo o comandante, o envio de ambulâncias para a Margem Sul é recorrente.

À CNN Portugal, o filho da idosa diz que telefonou para os bombeiros de Sesimbra (13:38) e que o informaram que tinha de ligar para o 112. A chamada foi feita às 13:39 e às 14:29 fez a última chamada para o 112 a perguntar pela demora. A ambulância só chegou ao local às 14:59. 

A TVI e CNN sabem que o INEM contactou os bombeiros de Sesimbra por volta das 14:00 uma vez que são a corporação mais próxima, mas no momento os bombeiros de Sesimbra estavam com uma ocorrência de levantamento de um cadáver e sem ambulâncias disponíveis.

Tavira: espera superior a uma hora

Também durante a tarde de quarta-feira, um homem de 68 anos morreu em Tavira, depois de ter estado mais de uma hora a aguardar por meios de socorro, disse à Lusa fonte da família.

Segundo a fonte, a vítima sentiu-se mal ao final da tarde, depois de ter ido à farmácia e consumido um xarope.

A fita do tempo desta ocorrência, a que a Lusa teve acesso, regista uma primeira chamada pelas 18:07, seguida de uma segunda chamada de socorro a questionar a demora dos meios.

A vítima foi inicialmente classificada como prioridade 2 (resposta em 18 minutos), passando a P1 (resposta imediata) aquando da terceira chamada dos familiares, que aconteceu pelas 18:47, informando que o homem já estava em paragem cardiorrespiratória.

A primeira ambulância foi acionada pelas 18:42.

Para o local foram igualmente enviados a viatura de Suporte Imediato de Vida (SIV) de Tavira, acionada pelas 18:49, uma unidade de apoio psicológico do INEM e a polícia.

Segundo a fonte familiar, os primeiros meios de socorro só chegaram ao local mais de uma hora depois do pedido inicial de socorro.

Em relação a este caso, o presidente do INEM descartou responsabilidades do instituto, atribuindo o atraso à falta de meios e retenção de macas das ambulâncias nos hospitais.

O novo sistema de atendimento das chamadas do INEM

Na sexta-feira, o INEM anunciou o início de um novo sistema de atendimento das chamadas recebidas nos CODU (Centro Operacional de Doentes Urgentes), que prevê cinco níveis de prioridade (emergente, muito urgente, urgente, pouco urgente e não urgente), à semelhança da triagem usada nos hospitais.

A classificação resulta da avaliação clínica que é realizada pelos profissionais do CODU, com base na informação recolhida durante a chamada para 112.

A prioridade emergente, para situações de risco de vida iminente, implica uma resposta imediata, com o envio de meios de suporte básico de vida, articulados com suporte imediato ou avançado de vida. Para os casos muito urgentes, o novo sistema prevê a chegada do primeiro meio de socorro ao local até 18 minutos e nas situações urgentes, com risco de agravamento clínico, o tempo de resposta previsto é até 60 minutos. Já os pouco urgentes preveem a chega ao local de meios em 120 minutos.

O novo sistema de triagem do INEM tem sido alvo de críticas, com os bombeiros a dizerem que, com a definição dos tempos por prioridades, os doentes são deixados à espera de ambulância, apesar de haver meios disponíveis.

Uma reportagem da Sic revelou na terça-feira um caso de um pedido de ajuda recebido pelos bombeiros de Tábua, de um utente que tinha ligado para o INEM, que o avisou que a ambulância poderia demorar até duas horas (120 minutos), apesar de haver meios disponíveis na corporação, que acabou por responder de imediato.

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