opinião
Correspondente Médica CNN Portugal

Fernando Araújo, o desejado?

9 nov, 22:12

Análise das entrevistas exclusivas TVI/CNN ao Director Executivo do SNS

“A principal tarefa desta direcção executiva é recuperar a confiança dos profissionais e dos utentes” – assim abre o novo director executivo do Serviço Nacional de Saúde (SNS) a sua primeira resposta da primeira entrevista após tomar posse e que concedeu em exclusivo à TVI.

Em todos os portugueses persiste um quinhão sebastianista, que foi de imediato acordado por estas palavras, num momento particularmente frágil na Saúde – que a todos respeita e impacta: no rescaldo de uma pandemia (e ainda com incertezas relativamente à sua evolução), com um Inverno a anunciar o recrudescimento das infecções respiratórias e consequente pressão sobre os serviços de saúde, a que acrescem as rupturas já conhecidas em muitos serviços de urgência e os mais de 1,3 milhões de portugueses sem médico de família atribuído.

É certo que Fernando Araújo não trouxe muitas medidas concretas, mas também não se lhe poderia pedir tal com tão curto tempo para estudar os dossiers. Não obstante – e apesar de ter sido anunciado que a nova direcção executiva estaria em plenas funções em Janeiro de 2023 – há muitas respostas de que o nosso SNS necessita com maior brevidade. O novo CEO do SNS – como tem sido amplamente apelidado – confirma que existe um plano de contingência já para este Inverno e que espera ver os resultados das medidas a implementar no próximo Verão.

Diagnóstico e tratamento

Fernando Araújo reconhece que “o planeamento e organização têm faltado” e ainda que a burocracia é um problema. O acesso e a eficiência são elencadas como apostas claras desta nova direcção, a par da muita necessária integração de cuidados.

O agora director executivo do SNS acena claramente aos médicos, quando refere que é necessário valorizar as carreiras, cativar os profissionais e reter valor, possibilitando um equilíbrio entre vida profissional e familiar, conciliando docência e investigação e permitindo, ainda, o acesso à tecnologia de vanguarda. Estas linhas contêm, na minha óptica, a receita para responder a grande parte dos anseios de uma geração de médicos em debandada do SNS, claramente desencantados, por um lado, com o status quo e, por outro lado, com a posição assumida pela anterior ministra, pautada por dificuldades no diálogo e por um discurso, por vezes, sentido como hostil para a profissão médica.

Parece ainda encetar uma certa libertação ideológica que vinha a afunilar as soluções do SNS, ao não colocar de parte o regresso das parcerias público-privadas (PPP). Não afasta também o encerramento de maternidades, mas descarta esta opção como única, prometendo dialogar, nomeadamente, com a Ordem dos Médicos. 
O funcionamento em rede das diferentes respostas do SNS – cuidados de saúde primários, hospitais, cuidados continuados - é, porventura, uma das mais concretas promessas desta nova direcção, para a qual será certamente decisiva a experiência bem-sucedida a Norte, com a criação das urgências metropolitanas. 

O que ficou por responder

Quer no Decreto-Lei que aprovou a dinâmica da Direcção Executiva do SNS, quer num despacho publicado em Novembro de 2022, podemos encontrar menções várias à “articulação” e “negociação” entre a Direcção Executiva e a Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS). Fica por esclarecer a relação de poder entre as duas entidades e o peso efectivo de cada uma nas decisões finais. Mais: como será a relação desta Direcção Executiva com o Ministro da Saúde e com o Ministro das Finanças? Esta resposta afigura-se uma peça essencial para a operacionalização das medidas definidas por Fernando Araújo em conjunto com a sua equipa.

Por outro lado, sabemos que o orçamento de estado para 2023 é o que mais peso dá à despesa em saúde na última década. No entanto, de acordo com o Observatório da Despesa em Saúde, “grande parte deste reforço está associado a efeitos preço - não se antecipa um aumento significativo da capacidade de prestação de cuidados de saúde”, considerando que “a previsão de despesas com pessoal na saúde parece ser insuficiente”. Certamente uma preocupação adicional para Fernando Araújo, que durante a entrevista admitiu que “será certamente necessário mais profissionais”.

O retrato

A julgar pelas duas entrevistas exclusivas que concedeu à TVI e CNN Portugal, podemos prever de Fernando Araújo um estilo de liderança serena, segura, agregadora e de proximidade. “Gosto de fazer acontecer”, disse.  A vontade não é tudo, mas já é muito. Todos precisamos que faça acontecer e que lhe permitam fazer acontecer, pelo SNS, pelos portugueses.

Este texto não está escrito ao abrigo do novo artigo ortográfico. 

Colunistas

Mais Colunistas

Patrocinados