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Achava que não era dependente do telemóvel. Até tentar viver uma semana sem ele

CNN , Antoinette Radford
27 jun, 22:00
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Pegava no smartphone dezenas de vezes por dia sem se aperceber. Decidiu desligar-se para perceber o impacto desse hábito

Tenho uma aula de ginásio esta noite, Pilates na terça-feira e uma entrevista na quarta. Aponto tudo na minha agenda - uma compra recente - porque não vou receber qualquer lembrete no smartphone.

Envio um email aos meus pais com o número do telemóvel de substituição, um modelo básico - outra aquisição recente - e aviso-os de que voltarei a contactá-los daqui a cinco dias.

Não vou desaparecer do mapa. Na verdade, não vou a lado nenhum. Vou apenas abdicar do meu smartphone durante uma semana.

Depois de receber mais um anúncio direcionado, ironicamente no Instagram, sobre a forma como os telemóveis e as redes sociais estão a contribuir para o burnout - um estado marcado pela falta de energia, pela diminuição do sentimento de pertença e pela queda acentuada da autoestima -, decidi desligar-me durante uma semana de trabalho.

Antes de iniciar a minha experiência, falei com o neurocientista Tj Power, especialista em dependência de telemóveis, para perceber como poderia pôr o smartphone de lado - e resistir à tentação de voltar a pegar nele.

"Os nossos cérebros estão extremamente sobre-estimulados e isso está a esgotar os nossos recetores de dopamina", explica Power.

A dopamina é um neurotransmissor presente no cérebro que nos faz sentir alegria ou entusiasmo. Tem sido associada ao prazer, à recompensa e à motivação, explicou anteriormente à CNN Anna Lembke, professora de Psiquiatria e Ciências do Comportamentais na Faculdade de Medicina da Universidade de Stanford.

"Aviso sempre as pessoas de que se vão sentir pior antes de se sentirem melhor", refere Lembke, autora do livro Dopamine Nation, quando questionada sobre a sua recomendação de evitar estímulos que desencadeiam a libertação de dopamina.

A minha decisão de largar o telemóvel coincidiu com um julgamento histórico sobre redes sociais em curso em Los Angeles, no qual grandes empresas tecnológicas foram confrontadas com questões sobre se as suas plataformas poderiam causar dependência em algumas pessoas. No final, o júri concluiu que a Meta e o YouTube, propriedade da Google, foram negligentes na forma como conceberam as suas plataformas, sabiam dos riscos associados a essa conceção e não alertaram para esses perigos, causando danos significativos à parte lesada.

A Meta e o YouTube, que negaram as acusações e contestaram a ideia de que as suas plataformas possam criar dependência, afirmaram que pretendem recorrer da decisão.

Não me considerava viciada no telemóvel. Achava que o utilizava tanto quanto qualquer outra pessoa. Até que reparei que, ao meio-dia de uma sexta-feira recente, antes de iniciar a experiência, já tinha pegado nele 88 vezes, segundo o registo do próprio aparelho.

Ao pousá-lo pela 88.ª vez, percebi que aquele retângulo de metal que trago sempre comigo se tinha tornado no meu segundo cérebro. Estava na altura de fazer uma desintoxicação digital.

Apresentei a ideia aos meus chefes, prometendo que continuaria a utilizar tecnologia para trabalhar (apenas o portátil, sem acesso às redes sociais)  e comecei a procurar especialistas que me ajudassem a dar os primeiros passos.

Começo a experiência sem smartphone

A primeira etapa da experiência de Radford passou por encontrar um Nokia à moda antiga. CNN
A primeira etapa da experiência de Radford passou por encontrar um Nokia à moda antiga. CNN

É segunda-feira de manhã e tenho uma sessão de fisioterapia a cerca de meia hora de distância. Entro num táxi - com o telemóvel guardado no fundo da mala - e sigo viagem sem a música que normalmente estaria a ouvir nos auriculares. Talvez levar o telemóvel comigo seja uma espécie de batota, mas prefiro tê-lo à mão para o caso de precisar dele.

Pela primeira vez, desde que me mudei para esta cidade há quatro meses, reparo num parque que andava há muito tempo para visitar. Também noto que o taxista está constantemente a coçar a cabeça - um pormenor que normalmente me escaparia, com a atenção presa ao telemóvel.

À saída da sessão de fisioterapia, cedo rapidamente à tentação de pegar no telemóvel. Apesar de ter levado os meus cartões para pagar, não tinha verificado o saldo da conta bancária. O pagamento é recusado e, a contragosto, tiro o telemóvel da mala para consultar a conta e transferir dinheiro para lá.

Volto a guardar o telemóvel, determinada a não lhe tocar durante o resto do dia. E consigo.

No dia seguinte, volto a tentar

No dia seguinte, prometo a mim mesma que vou tentar não olhar para o telemóvel.

A manhã de terça-feira começa bem. Vou ao ginásio - sem auriculares para ouvir música nem smartphone para registar o treino. Felizmente, encontro a minha colega Ivana e espero conseguir conversar um pouco. Mas, para meu azar, ela está de auriculares e pronta para treinar sozinha.

Vou para o trabalho de boleia com outro colega que vive no meu prédio e começo o dia. Tudo corre bem até meio da tarde.

Estou a viver num país de maioria muçulmana durante esta experiência e o Ramadão começa nesta terça-feira à noite. Muitas lojas em todo o país encerram durante este período, que dura um mês. Não comprei mantimentos suficientes, por isso faço uma encomenda online de alguns bens essenciais antes do final do dia

Segundo os meus colegas, isso não quebra as regras da experiência. Posso usar o computador para trabalhar. Só tenho de evitar o smartphone e as redes sociais.

Adiciono os produtos ao carrinho, avanço para o pagamento e lembro-me de que o meu banco envia o código de autenticação de dois fatores para o email pessoal. Tento aceder ao meu email pessoal no computador de trabalho para não ter de voltar a pegar no telemóvel. Mas engano-me na palavra-passe. E volto a enganar-me uma segunda vez.

A única solução? Um email enviado para um dispositivo de confiança para confirmar que sou eu a tentar iniciar sessão. E o meu dispositivo de confiança é, sem surpresa, o telemóvel.

Talvez devesse simplesmente manter-me afastada do email durante o resto da semana. Mas acabo por desistir da ideia. Afinal, preciso mesmo de fazer compras. Com alguma relutância, tiro o telemóvel do modo de voo e introduzo o código de autenticação de dois fatores para concluir a encomenda.

Talvez amanhã seja o meu dia.

Finalmente começo a adaptar-me

A quarta-feira acaba por ser, até agora, o meu dia mais bem-sucedido. Vou ao ginásio de manhã, entro no carro partilhado da minha amiga e deixo o telemóvel na gaveta, em casa. Mesmo que quisesse usá-lo, não poderia.

Power, o neurocientista, tinha-me avisado de que iria sentir sintomas de abstinência, incluindo ansiedade, alterações de humor e cansaço devido à falta da estimulação constante proporcionada pelo telemóvel.

O neurocientista Tj Power alerta que a abstinência do smartphone pode provocar cansaço e ansiedade. (CNN)
O neurocientista Tj Power alerta que a abstinência do smartphone pode provocar cansaço e ansiedade. (CNN)

Ele tinha razão. Tinham passado apenas três dias e eu sentia-me completamente exausta. Todas as manhãs acordava com a sensação de não ter dormido o suficiente, sendo que a única mudança evidente era estar sem telemóvel.

Lembke recomenda um período de abstinência de 30 dias - também conhecido como "jejum de dopamina" - uma vez que o cérebro demora cerca de quatro semanas a reajustar os circuitos de recompensa.

Volto a falar com Power e pergunto-lhe se o cansaço pode estar relacionado com o facto de estar sem telemóvel.

"A dopamina tem uma espécie de prima no nosso organismo chamada adrenalina", explica.

A adrenalina é uma hormona e também um neurotransmissor. É responsável pela resposta de luta ou fuga do organismo e ajuda a transmitir sinais por todo o corpo.

"Pode não ser que esteja subitamente mais cansada. Talvez já estivesse bastante cansada e o telemóvel estivesse a mascarar isso", afirma. "Não nos apercebemos do quão exaustos estamos até parte dessa estimulação externa desaparecer."

O trabalho ocupa-me o dia

A quinta-feira é dia de programa no CNN Creators e estou tão ocupada que quase não sinto falta do telemóvel. Quatro dias depois, começo a habituar-me à sua ausência.

Mas continuo exausta. A minha equipa está a falar sobre o filme Wuthering Heights e toda a conversa que gerou nas redes sociais. (Wuthering Heights é distribuído pela Warner Bros. Pictures, que pertence à Warner Bros. Discovery, empresa-mãe da CNN.) Sem telemóvel, passei completamente ao lado do debate online em torno do filme.

Também sinto falta dos meus amigos em Londres e da minha família na Austrália. Tenho vontade de voltar a ligar-me para falar com eles.

Mas ainda tenho de enfrentar o maior desafio da semana.

Chega a hora de viajar

Já alguma vez pensou como seria passar por um aeroporto internacional sem telemóvel?

Eu também não.

Mas, quando percebi que o voo calhava precisamente durante a semana da minha desintoxicação digital, soube que teria de me preparar para essa aventura.

Peço um táxi para me levar ao aeroporto, mas o preço que me indicam é diferente daquele que me é cobrado. E, sem o telemóvel, não tenho grande forma de contestar.

No aeroporto, tenho de fazer o check-in presencialmente, o que implica passar primeiro por um controlo onde os funcionários exigem a confirmação da reserva. Aquela que eu não tinha impresso.

Explico a situação e consigo chegar ao balcão de check-in. Depois disso, compro um café e sento-me em frente ao painel de partidas, consciente de que não vou receber qualquer notificação no telemóvel a informar-me da porta de embarque.

Entro no avião sem auriculares nem música, mas com uma folha onde anotei todos os números importantes. Envio uma mensagem à minha amiga através do telemóvel que comprei para esta experiência para confirmar a morada. Depois, durmo durante praticamente todo o voo. Quando aterro e sigo para a zona dos transportes, digo ao taxista a morada da minha amiga, entro no táxi e chego ao destino.

Poucas horas depois, a desintoxicação digital chega ao fim.

Continuo exausta, mas sinto que a minha memória melhorou bastante. Houve momentos em que quase me esquecia de que não estava a usar o telemóvel, e estar longe dele voltou a obrigar-me a recordar coisas sem estar constantemente a consultar o aparelho.

Foi essa a parte da experiência de que mais gostei. Também apreciei o facto de, depois de tomar uma decisão, me ter mantido fiel a ela. Perceber que consigo orientar-me e funcionar perfeitamente bem sem o telemóvel levou-me a querer fazer um esforço para voltar a memorizar mais coisas no futuro.

Sei que posso voltar a depender demasiado do telemóvel. Por isso, faço uma promessa a mim mesma: vou repetir esta experiência no próximo mês.

 

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