Atleta ucraniano banido dos Jogos Olímpicos de Inverno após polémica com "capacete de memória"

12 fev, 09:45
Vladyslav Heraskevych (AP)

Heraskevych já reagiu à decisão, através de uma publicação nas redes sociais, escrevendo que este é "o preço a pagar pela dignidade"

O atleta ucraniano de skeleton Vladyslav Heraskevych foi desqualificado dos Jogos Olímpicos de Inverno, em Cortina, Milão, por se recusar a deixar de usar o seu polémico "capacete da memória".

A decisão foi tomada após uma reunião entre Heraskevych e a presidente do Comité Olímpico Internacional, Kirsty Coventry, que lamentou não ter conseguido chegar a um consenso com o atleta, que se apresentou nas provas de skeleton com um capacete ilustrado com fotografias de atletas ucranianos mortos durante a guerra com a Rússia.

Na quarta-feira, o Comité Olímpico Internacional (COI) proibiu Heraskevych de usar aquele capacete, que descreve como um "capacete de memória", alegando que o seu uso viola as regras da Carta Olímpica, que proíbe o uso de “qualquer forma de manifestação ou de propaganda política, religiosa ou racial”. 

Em contrapartida, o comité decidiu “abrir uma exceção” para permitir que o atleta use uma braçadeira preta durante a competição para prestar a homenagem.

Heraskevych, de 27 anos, considerou a decisão "injusta", argumentando que o capacete "não é propaganda discriminatória" nem "propaganda política". 

Perante a insistência do atleta, que tem feito várias publicações nas redes sociais a defender a sua posição, vários representantes do COI tentaram chegar a um consenso com Heraskevych, sem sucesso.

"Eu não devia estar aqui, mas achei muito importante vir falar com ele pessoalmente", declarou Coventry aos jornalistas, depois da reunião com o atleta, que decorreu logo de manhã no local das provas de competição de skeleton, que arrancam esta quinta-feira.

"Ninguém, especialmente eu, discorda da mensagem - é uma mensagem poderosa, uma mensagem de recordação", vincou a responsável, lembrando, contudo, as regras da Carta Olímpica. "Infelizmente, não conseguimos encontrar uma solução", lamentou Kirsty Coventry, citada pela Reuters. "Queria muito vê-lo competir. Foi uma manhã emocionante".

"Trata-se literalmente das regras e regulamentos e, neste caso... temos de garantir um ambiente seguro para todos e, infelizmente, isso significa que as mensagens não são permitidas", acrescentou a presidente do COI.

Assim, o comité decidiu banir Vladyslav Heraskevych das provas de competição, após uma decisão ponderada pelo júri da Federação Internacional de Bobsleigh e Skeleton (IBSF), segundo um comunicado do COI.

"Depois de ter recebido uma última oportunidade, o piloto de skeleton ucraniano Vladylsav Heraskevych não poderá competir nos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina 2026 esta manhã. A decisão foi tomada após a sua recusa em cumprir as Diretrizes do COI sobre a Expressão do Atleta. A decisão foi tomada pelo júri da Federação Internacional de Bobsleigh e Skeleton (IBSF) com base no facto de o capacete que pretendia usar não estar em conformidade com as regras. O Comité Olímpico Internacional (COI) decidiu, por isso, com pesar, revogar a sua inscrição para os Jogos de Milão-Cortina 2026", pode ler-se no comunicado.

Heraskevych já reagiu à decisão, através de uma publicação nas redes sociais, escrevendo que este é "o preço a pagar pela dignidade". Também o ministro ucraniano dos Negócios Estrangeiros já reagiu, através de uma publicação no X, classificando a decisão do COI como um "momento de vergonha".

"O COI não baniu o atleta ucraniano, mas sim a sua própria reputação. As gerações futuras recordarão isto como um momento de vergonha", escrevey Andrii Sybiha, acrescentando que Heraskevych "simplesmente queria homenagear os atletas mortos na guerra". "Não há nada de errado nisso sob qualquer perspetiva ética ou moral", sublinhou.

Entretanto, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, também reagiu, afirmando que tem “orgulho” no atleta e elogiando-lhe a “coragem” de recusar participar nos Jogos Olímpicos de Inverno sem o capacete.

“Agradeço ao nosso atleta pela sua postura firme. O seu capacete, com os retratos de atletas ucranianos mortos em combate, representa honra e memória. É um lembrete para o mundo inteiro do que é a agressão russa e do preço da luta pela independência. E nisto, nenhuma regra foi quebrada”, sublinha, apontando que “é a Rússia que viola constantemente os princípios olímpicos”.

De acordo com Zelensky, “660 atletas e treinadores ucranianos foram mortos pela Rússia desde o início da invasão em grande escala”. “Centenas dos nossos atletas nunca poderão participar nos Jogos Olímpicos ou em qualquer outra competição internacional. E, no entanto, 13 russos estão atualmente em Itália a competir nos Jogos Olímpicos. Competem sob bandeiras ‘neutras’ nos Jogos, enquanto na vida real apoiam publicamente a agressão russa contra a Ucrânia e a ocupação dos nossos territórios. E são eles que merecem ser desqualificados”, comparou.

“Estamos orgulhosos de Vladyslav e do que ele fez. Ter coragem vale mais do que qualquer medalha”, declarou.

A equipa de Heraskevych adiantou que vai recorrer da decisão no Tribunal Arbitral do Desporto.

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