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"Para Siza, desenhar é uma forma de pensar". E agora podemos vê-la

17 mai, 09:00

Desenhos do arquiteto português assim como fotografias das suas obras e peças de design podem ser vistos a partir desta sexta-feira na Fundação Calouste Gulbenkian

Que Álvaro Siza está sempre a desenhar é um dado que encabeça todas as suas biografias. Que se podem sempre encontrar novos desenhos e explicar (mais) a obra do arquiteto também. "Para Siza, desenhar é uma forma de pensar", diz Carlos Quintáns Eiras, arquiteto responsável pelo Pavilhão de Espanha na Bienal de Veneza em 2016, vencedor do Leão de Ouro, e curador da exposição “Siza” que esta sexta-feira abre ao público na galeria principal da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. 

Há mesas e mesas contendo os desenhos das obras de Siza, 90 delas, três para cada um dos 30 verbos que o curador da exposição usou para contar a obra do arquiteto, “o único não espanhol distinguido com o Prémio Nacional da Arquitetura de Espanha”, lembra Carlos Quintáns Eiras, alguém que com menos de 18 anos começou a desenhar as obras de Siza enquanto estudante universitário, que há 40 anos teve o seu primeiro livro sobre Siza. “Há muitas obras do Siza, muitas publicações e exposições. Como fazer algo que não tivesse sido feito?”.

Fez um ano precisamente esta quinta-feira que o “sim” a esta exposição chegou. Cinco ou seis encontros com Álvaro Siza depois e mais de 250 mil documentos vistos, ela vê a luz. Literalmente. As janelas da galeria principal, tantas vezes tapadas para outras exposições, deixam entrar as cores do jardim. “Respeitamos os lugares onde estamos como o Siza respeita”, explica o curador. E como Siza, conhecido por nunca fazer entradas diretas para nenhum edifício, aqui o primeiro impacto é um conjunto de imagens do fotógrafo Juan Rodríguez que há 40 anos vem acompanhando a obra do arquiteto natural do Porto. 

Ao todo, 90 imagens do fotógrafo espanhol - da Casa de Chá da Boa Nova (Leça) às casas em Matosinhos, passando pelo Museu de Serralves (Porto) ou a Casa Avelino - vão estar na exposição. Tantas quanto a idade de Siza (completa 91 no dia 25 de junho). Tantas quantas as obras - construídas, por construir ou alteradas - que ilustram cada um dos 30 verbos que Carlos Quintáns Eiras escolheu para falar da obra de Siza. De “afastar” a “voar”, passando por “dobrar” ou “suster”. Da Casa Armanda Passos, no Porto, ao Bairro da Malagueira, em Évora. "Só lá falta o cheiro do cigarro e do café", diz o curador. "Ou o cheiro característico da madeira que ele usou muito no início da sua obra", acrescenta.

“O traço do desenho está lá quase desde o princípio”, diz Carlos Quintáns Eiras à CNN Portugal. “Tem uma grande precisão”, nota o curador depois dessa imersão de um ano na obra de Siza, a partir de desenhos de coleções como a Gulbenkian, Fundação Serralves, o Canadian Centre for Architecture ou o próprio ateliê de Siza.

Siza é fiel: usa sempre canetas bic e cadernos pretos A4 com a palavra disciplina na capa e não raras vezes acrescenta algo: disciplina... “pouca”, disciplina “muita”, disciplina “sem”... Mas essa é apenas uma parte da obra. Outra, mais pessoal, aparece nos lugares mais inesperados: maços de tabaco, envelopes, sacos para enjoo de companhias aéreas… E também pode ser vista na Fundação Calouste Gulbenkian, descendo à galeria de exposições temporárias. Se o primeiro piso fala de arquitetura, aqui fala-se do arquiteto. 

Carlos Quintáns Eiras detém-se perto de um conjunto de aguarelas assinadas por Siza, coloridas, mas sua intenção é mostrar outro detalhe: um pequeníssimo desenho, com cerca de 14 centímetros que é, afinal, um autorretrato feito num envelope. Nas paredes desta sala foram reproduzidos alguns dos desenhos mais recorrentes em Siza, e que não são edifícios. Mãos, pés, cigarros, isqueiros… “A forma como se vê a si mesmo”, resume. Há esculturas que lembram o primeiro interesse do jovem Álvaro - estudar escultura - e ainda os desenhos que ele faz dos seus amigos, lado a lado com uma pintura da mulher, Maria Antónia Siza (1940-1973), um desenho da filha e outro da neta. 

Os seus interesses variados ficam à vista: as viagens, a arte e o ballet. Suportes altos sustentam desenhos de Siza para a cenografia de um ballet da Gulbenkian. “Ele diz que tão importante como a arquitetura é o ballet”. E porque uma coreografia sem música não é nada, 39 maços de tabaco alinham-se como se de uma orquestra se tratasse, mostrando mais do que um suporte inesperado. Estes são os desenhos rápidos do arquiteto enquanto faz atividades simples como ver televisão. 

A sala completa-se com aqueles que são referência para Siza (que ainda não viu a exposição por razões de saúde): Picasso, Matisse e Amadeo de Souza-Cardoso. Ainda não sabe que os quadros lá estão, mas também eles fazem parte da biografia desenhada de Siza. “Ele está continuamente desenhando e olhando para os que admira”, nota Carlos Quintáns Eiras. No caso de Picasso, o curador acrescenta: “Siza faz na arquitetura o que o cubismo fez na arte, cria novas relações”.

“Desde fora, achamos que ele transformou o país”, remata Carlos Quintáns Eiras. “Foi capaz de imaginar um futuro melhor, que tinha um compromisso com o país”. Lembra, aliás, um caso concreto: a reconstrução do Chiado. "Ele achou que era importante respeitar e isso passou para outros arquitetos. É das maiores lições de humildade que se pode ter". 

A exposição pode ser vista de 17 de maio a 26 de agosto, das 10:00 às 21:00 (exceto terça-feira) e há programação complementar: a exibição do filme “O Arquiteto e a Cidade Velha”, de Catarina Alves Costa, dia 21 de maio, às 18:30, auditório 3, e uma mesa redonda para Pensar Siza Vieira, com Inês Lobo, Jan de Vylder, Juan Domingo Santos, Marusa Zorec e Nuno Grande (4 de junho, 17:00). Entrada: 6 euros.

 

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