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"Se não agirem agora, a catástrofe é inevitável". Peritos em risco sísmico escrevem carta a Seguro e Montenegro

7 jul, 15:02
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Portugal ignora o risco sísmico, tal e qual a Venezuela, dizem os especialistas

Sete  professores universitários e investigadores das áreas da Engenharia Sísmica e das Ciências da Terra pediram audiências ao Presidente da República e ao primeiro-ministro para pedirem medidas urgentes de redução da exposição da população a um sismo violento.

O pedido parte de uma comparação inquietante: na Venezuela, os cientistas também tinham identificado, durante anos, edifícios vulneráveis e infraestruturas em risco, sem que os alertas fossem transformados em medidas de prevenção.

“A Venezuela não falhou por falta de conhecimento. Falhou porque o conhecimento não foi transformado em ação. Infelizmente, é o que se passa em Portugal”, escrevem os subscritores.

Os cientistas recordam que Portugal voltará a sofrer grandes terramotos. A única incerteza é quando. O Laboratório Nacional de Engenharia Civil estima que um grande terramoto poderá causar, apenas na Grande Lisboa, danos em 334 mil habitações, onde vivem 600 mil pessoas. O cenário estudado aponta para o colapso de 25 mil edifícios e para 17 mil a 27 mil mortos.

A comunidade científica manifesta preocupação com as creches, escolas, hospitais, lares, quartéis de bombeiros e instalações de proteção civil. Mas também com o parque habitacional, as fábricas e as redes de água, eletricidade e gás, cuja falha poderá tornar partes do território quase inabitáveis durante longos períodos. Museus e património histórico completam a lista de preocupações.

A CNN Portugal publica, na íntegra, a carta enviada ao Presidente da República e ao primeiro-ministro:

“A comunidade científica das áreas de Engenharia Sísmica e de Geologia manifesta profundo pesar pelas vítimas do recente terramoto na Venezuela. À dor das famílias, aos feridos e a todos os que perderam as suas casas, expressamos a nossa solidariedade.

Prestamos também homenagem aos investigadores venezuelanos que, durante anos, alertaram para a vulnerabilidade sísmica do edificado. Muitos desses alertas ficaram por concretizar.

A Venezuela não falhou por falta de conhecimento. Falhou porque o conhecimento não foi transformado em ação.

Infelizmente, é o que se passa em Portugal.

Também em Portugal existem estudos, diagnósticos e mapas de risco. Também aqui a comunidade científica identifica, há décadas, edifícios vulneráveis, infraestruturas críticas e prioridades de intervenção.

É natural que académicos e peritos com experiência, em construção e reabilitação do edificado, sejam os primeiros a alertar a sociedade para o risco. É esse o seu dever cívico.

O que acontece a seguir é que faz a diferença.

Se o Poder Político, democraticamente eleito, for o último a intervir, a catástrofe é inevitável.

Pelo meio, sob escombros, ficam as vítimas evitáveis.

A metade Sul de Portugal é uma região de elevado risco sísmico. A história recorda-nos isso. A ciência confirma-o. Vamos voltar a sofrer terramotos de magnitude semelhante aos de 1531 ou 1755, que devastaram Lisboa e a Região Sul. Infelizmente, não conseguimos prever quando isso acontecerá.

Preocupam-nos as creches. As escolas. Os hospitais. Os lares. Os quartéis de bombeiros. As instalações de proteção civil. Os edifícios onde, nas primeiras horas após uma catástrofe, será necessário salvar vidas.

Preocupam-nos as redes de infraestruturas, para evitar que Lisboa e grande parte do país se tornem territórios quase inabitáveis durante longos períodos de tempo.

Preocupa-nos o vasto parque habitacional construído antes das normas modernas de dimensionamento sísmico.

Preocupa-nos a fileira industrial, responsável por grande parte da produção da riqueza e das exportações nacionais, porque, em grande parte, ficou esquecida durante décadas, no que diz respeito à prevenção.

Preocupa-nos uma reabilitação urbana que, demasiadas vezes, privilegia a imagem exterior dos edifícios, sem avaliar ou reforçar adequadamente o seu comportamento estrutural.

Preocupa-nos o património cultural insubstituível. Obras como os Painéis de São Vicente ou As Tentações de Santo Antão, de Bosch, pertencem à memória coletiva do país. A sua perda seria irreparável. O mesmo se aplica a milhares de peças conservadas em museus, igrejas, bibliotecas e arquivos.

Preocupam-nos os nossos monumentos e edifícios de grande valor patrimonial, fundamentais para a nossa identidade cultural e para a preservação de Portugal como Nação única no mundo.

Não defendemos o alarmismo, antes apelamos à prevenção.

Não pretendemos apontar responsabilidades pelo passado, antes preferimos evitar, enquanto é tempo, responsabilidades futuras.

Por todas estas razões, solicitamos a V.Exa. uma audiência urgente, a fim de apresentarmos o conhecimento científico disponível e de contribuirmos para a definição de uma estratégia nacional de redução da vulnerabilidade sísmica.

Cada dia que passa sem agirmos como Estado democrático, responsável e civilizado, aumenta o risco.

Quando a terra voltar a tremer, já será demasiado tarde para sermos ouvidos”.

Carlos Sousa Oliveira
Doutor em Engenharia Sísmica pela Universidade da Califórnia (EUA)
Prof. jubilado do IST

Mário Lopes
Doutor em Engenharia Sísmica pelo Imperial College (Londres)
Prof. do IST

Mónica Amaral Ferreira
Pres. Centro Europeu de Riscos Urbanos
Investigadora do IST

Luís Matias
Geofísico
Prof. da Universidade de Lisboa
Investigador do Instituto Dom Luís

João C. Duarte
Geólogo
Prof. da Universidade de Lisboa
Investigador do Instituto Dom Luís

Rui Carrilho Gomes
Prof. do IST
Soc. Portuguesa de Engenharia Sísmica (2006 – 2013)

Fernando Pinho
Professor da NOVA FCT
Conselheiro da Ordem dos Engenheiros

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