O segundo sismo não foi uma réplica, explicam os especialistas, que classificam como "interessante" o facto de terem existido estes dois sismos da maneira que aconteceram. "O potencial destrutivo" do segundo sismo "é maior". Mas atenção: "O que mata não são os sismos, são as construções que existem"
A região de Lisboa foi abalada no início desta tarde, não por um mas dois sismos de magnitude 4,1 na escala de Richter. O primeiro, com epicentro a cerca de quatro quilómetros Oeste-Noroeste de Alenquer, fez-se sentir às 12:14 - e dois minutos depois, o chão voltou a tremer. Desta vez com o epicentro a cerca de quatro quilómetros a Norte daquele município, com a mesma magnitude.
A sismóloga e investigadora da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, Susana Custódio, relembra no entanto que “esta zona é bastante conhecida por ter um sistema de falhas ativo”, pelo que “não é inesperado” que se registem abalos como os desta quinta-feira.
Trata-se da zona do Vale inferior do Tejo, uma área com “sismicidade ativa” já conhecida, com estudos feitos no âmbito neotectónico, explica à CNN Portugal Filipe Rosas, geólogo e diretor do Instituto Dom Luiz da Universidade de Lisboa. “São objetos conhecidos que só se mexem muito de vez em quando e as pessoas só se lembram deles quando mexem.”
Nos cardápios dos registos históricos estão documentados sismos que ocorreram nos anos de 1344, 1531 e 1909, com uma magnitude máxima de 6 a 7 estimada para aquela zona. E no que diz respeito à ocorrência em si, os especialistas sublinham que não há nada de especial a registar, embora um pormenor salte à vista: o segundo sismo, às 12:16, ocorreu mais perto da superfície, com um hipocentro ligeiramente mais superficial do que o do primeiro, a 14 quilómetros de profundidade.
Nesses casos, “o potencial destrutivo é maior”, mesmo que a magnitude seja igual. “Se a quantidade de energia que se liberta é a mesma, quanto mais próximo da superfície está o hipocentro mais elevada é a perigosidade”, junta Filipe Rosas.
Além disso, o geólogo classifica como um evento “interessante” o facto de existirem dois sismos, sublinhando que não se trata de uma réplica, porque essas, “por definição, têm sempre uma magnitude inferior”.
“São sempre aquilo que resulta da dissipação final da energia que se acumula, ou seja, são um extrator final - é como se fosse o reequilíbrio final da dissipação da energia sísmica”, explica.
O geólogo destaca a importância de comparar a dimensão dos abalos - aquilo a que se chama a “conversa entre falhas” - uma vez que da sequência de sismos pode resultar a ativação de uma falha diferente, o que permitirá avaliar “se o movimento numa das falhas se antecipa”.
“Se há uma falha que vai ter um sismo daqui a 20, 100 ou 200 anos e se houve outra na proximidade, o que acontece é que a libertação de energia neste sistema de falhas pode fazer com que esta energia se acumule nessa outra que está mais próxima, antecipando o sismo, que era só daqui a muitos anos, nessa outra falha”, acrescenta, embora o investigador sublinhe que a complexidade dos fenómenos não permite fazer previsões exatas.
Ainda assim, para o sismólogo João Fonseca “uma coisa é certa”: “Onde ocorreram sismos no passado, ocorrerão sismos no futuro com características semelhantes.” E essa é a única coisa que sabemos com certeza, assinala o especialista, relembrando o caráter cíclico do fenómeno.
“Se aconteceu um, de certeza que vai voltar a acontecer. Não sabemos é se é daqui a cinco mil anos ou para a semana”, resume.
Epicentro na Terra "causa sempre mais destruição"
Os sismos em causa nasceram de falhas ativas no interior da placa tectónica euroasiática, que tem estado em constante aproximação com a placa africana. Estas falhas são zonas de fraqueza, que se criaram com o tempo, e com o aproximar das placas mexem, acabando por romper, detalha Filipe Rosas.
“Há libertação de energia - e é uma libertação de energia que ocorre quando o material excede o seu limite de elasticidade. Aquilo rompe por ali, a energia propaga-se na forma de ondas sísmicas, que são ondas mecânicas e elásticas, e, portanto, o que está em cima abana.”
Desta vez, o foco foi na terra e não no mar, o que deixaria a adivinhar efeitos mais destrutivos, depois de não serem constatados danos significativos. Isto porque um sismo em Terra “causa sempre mais destruição, estando debaixo dos nossos pés, possivelmente debaixo de uma população”, afirma Susana Custódio.
A principal diferença, diz, é que “as ondas sísmicas vão perdendo energia à medida que se propagam”. Portanto, à medida que se afastam da zona epicentral perdem intensidade, uma característica que beneficia a população caso o sismo ocorra no mar, a uma maior distância do território.
“As ondas sísmicas de um sismo no mar vão atenuar, vão perder energia até chegar a Terra às populações”, destaca a investigadora.
Isto não significa que estejamos longe do perigo se o epicentro se registar no oceano, dado que aí a probabilidade de se gerar um tsunami aumenta significativamente, alerta João Fonseca.
“O que mata não são os sismos, são as construções que existem”
Por sua vez, Filipe Rosas associa a perigosidade do fenómeno a vários fatores, a maior parte deles, diz, extrínsecos à própria natureza do sismo: “O que mata não são os sismos, são as construções que existem”.
O fator de destruição está assim altamente dependente da infraestrutura humana, “da qualidade e do cuidado com que é erigida”, afirma o geólogo, trazendo a fiscalização dos poderes governativos para cima da mesa.
“A prevenção faz-se também a nível oficial, através do controlo da qualidade das estruturas, dos edifícios, com decisões críticas sobre onde deve ser construído um hospital, onde deve ser construída uma escola. Tudo isso deve ser tido em conta na prevenção”, reforça o sismólogo João Fonseca, sublinhando que o recente acontecimento não deve deixar-nos “mais alerta hoje ou amanhã do que ontem”.
Apesar de não haver danos pessoais ou materiais a registar, de acordo com a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC), há que ter em conta que estes sismos “têm um valor pedagógico”, alerta Filipe Rosas.
“As pessoas têm de interiorizar a circunstância de viverem numa zona sísmica. Isto devia fazer parte da nossa cultura”, afirma, acrescentando que a população tende a fazer uma de duas coisas: “Ou não liga nenhuma ou tem pesadelos com isso, mas isto trata-se de procurar estarmos preparados e informados, saber o que fazer antes, durante e depois de um sismo.”