"Temos de decidir quem tem hipótese de sobrevivência": a difícil tarefa dos médicos nas primeiras horas após um grande sismo

25 jun, 18:54
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Sismos que atingiram a Venezuela já provocaram pelo menos 188 mortos e centenas de feridos, mobilizando equipas de emergência para as operações de busca e salvamento nas zonas mais afetadas. Em entrevista à CNN Portugal, Vítor Almeida, coordenador do Gabinete de Apoio Humanitário da Ordem dos Médicos, explica como funcionam as operações médicas nestes cenários e as decisões críticas que podem ter de ser tomadas para salvar o maior número possível de vidas

Nas imagens que chegam da Venezuela ao resto do mundo veem-se edifícios destruídos, equipas de resgate e ambulâncias. O que raramente se vê é o processo de decisão que começa assim que os primeiros profissionais de saúde entram numa zona afetada. Desde o primeiro minuto são obrigados a tomar decisões difíceis para "salvar o maior número possível" de vidas.

"Temos de, muitas vezes, decidir quem tem hipótese de sobrevivência e em quem podemos investir", admite Vítor Almeida, coordenador do Gabinete de Apoio Humanitário da Ordem dos Médicos, em entrevista à CNN Portugal.

A afirmação pode parecer "cruel" - o próprio tem noção disso -, mas traduz o "conceito essencial" da medicina de catástrofe. Quando os recursos são limitados e o número de vítimas é elevado, as equipas médicas têm de realizar uma triagem rápida para identificar quem necessita de intervenção imediata e quem tem maiores probabilidades de sobreviver se receber tratamento urgente.

As primeiras horas são decisivas

As primeiras equipas internacionais que chegam a uma zona afetada por um grande sismo não são compostas apenas por médicos. Segundo Vítor Almeida, Portugal envia habitualmente equipas integradas por elementos da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil e do INEM, capazes de operar de forma autónoma durante os primeiros dias. 

A prioridade inicial passa por garantir a segurança da própria operação: "Temos o risco de réplicas, não podemos esquecer isso".

Isto significa que os profissionais têm primeiro de avaliar as condições do terreno, identificar riscos e criar condições para que o resgate possa decorrer em segurança. Só depois começa o trabalho clínico propriamente dito.

É nesta fase que surge um dos momentos mais delicados de qualquer catástrofe, explica. As equipas médicas são obrigadas a realizar uma "triagem rápida das vítimas" para determinar quem necessita de ajuda imediata, quem pode esperar e quem apresenta ferimentos tão graves que dificilmente sobreviverá mesmo com intervenção

"Pode parecer cruel, mas de facto temos de decidir quem tem hipótese de sobrevivência", explica.

(AP Photo/Pedro Mattey)

O objetivo é concentrar recursos nas pessoas que podem efetivamente ser salvas. Trata-se de uma lógica diferente daquela que existe num serviço de urgência em circunstâncias normais. Numa catástrofe, o foco está em "salvar o maior número de pessoas possível", afirma, e não apenas na situação individual de cada vítima.

"É um conceito essencial da medicina de catástrofe: focar-nos de facto nas vítimas que têm hipótese de sobrevivência", acrescenta.

Nos grandes sismos, os profissionais de saúde deparam-se sobretudo com vítimas politraumatizadas.

"As situações habituais em sismos desta intensidade com este nível de destruição maciça são vítimas que estão saturadas de fraturas, traumatismos abdominais, traumatismos cranioencefálicos, que exigem uma resposta na sua essência de emergência médica, medicina de urgência e emergência no primeiro minuto", explica.

Ao mesmo tempo, as equipas médicas acompanham as operações de busca e resgate para estabilizar pessoas ainda presas sob os escombros. Muitas vezes, os cuidados começam antes mesmo de a vítima ser retirada.

"Durante essas operações as equipas no local podem estabilizar as vítimas e protegê-las ao máximo possível", explica Vítor Almeida, que refere que tudo depende de um "elemento fundamental": o tempo.

Depois do resgate começa outra corrida

Uma vez retiradas dos escombros, as vítimas precisam de ser encaminhadas para unidades capazes de realizar cirurgias, tratamentos intensivos e acompanhamento prolongado.

"Depois desta fase mais crítica, que é no fundo a de socorrer as vítimas, de as tratar, de as estabilizar, temos evidentemente também a componente da medicina legal, que é fundamental".

No entanto, há um problema frequente: os próprios hospitais podem ter sido afetados pelo sismo. Nesses casos, a resposta passa por uma combinação de soluções.

Podem ser montados hospitais de campanha, utilizados meios militares ou transferidos doentes para unidades de saúde menos afetadas, explica.

"A capacidade do setor militar em respostas a catástrofes é absolutamente essencial", afirma.

Dependendo da situação, os doentes podem até ser enviados para outros países ou para navios-hospital posicionados perto da zona afetada.

Doentes no exterior de um hospital evacuado após ter sofrido danos na sequência do sismo em Catia La Mar, Venezuela. (AP Photo/Pedro Mattey)

Uma segunda emergência que começa dias depois

Quando a fase mais crítica termina, surge uma nova ameaça, segundo explica Vítor Almeida. A destruição de redes de abastecimento de água, saneamento e eletricidade pode transformar rapidamente uma catástrofe natural numa crise de saúde pública.

"Podemos logo a seguir ter problemas que afetam e podem provocar epidemias", alerta.

A falta de água potável e de condições mínimas de higiene aumenta o risco de doenças infecciosas, sobretudo em locais onde milhares de pessoas ficam temporariamente desalojadas:

"Imagine se tudo aquilo que mantém a higiene a funcionar, tudo aquilo que protege a saúde pública fica danificado e destruído. As pessoas podem não morrer do sismo na fase inicial, mas podem depois, numa fase posterior, sofrer com doenças que são, sobretudo, do foro infeccioso".

É por isso que especialistas em saúde pública entram rapidamente em ação para avaliar riscos, monitorizar surtos e garantir condições sanitárias básicas.

A resposta médica não termina, no entanto, com o tratamento dos feridos. Ao mesmo tempo, equipas de saúde mental trabalham com familiares e sobreviventes para minimizar o impacto psicológico de uma experiência traumática.

"Temos também que cuidar dos familiares", sublinha. "A chave do sucesso é a organização e a organização tem que vir de forma planeada, por isso é que estes mecanismos têm que ser claramente coordenados".

O que Portugal aprende com estas missões

Para o coordenador do Gabinete de Apoio Humanitário da Ordem dos Médicos, participar em operações internacionais é também uma forma de preparar Portugal para futuras emergências.

Apesar de considerar que médicos, enfermeiros, técnicos de emergência e bombeiros portugueses têm uma formação "que na Europa poucos se podem comparar", alerta para a necessidade de reforçar estruturas essenciais como o INEM e a Proteção Civil.

"Daqui a amanhã podemos nós próprios ter uma catástrofe destas", avisa.

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