Os sistemas de alerta existem, mas o tempo de resposta é escasso. Os planos municipais foram criados, mas nem todos estão atualizados ou testados. As sirenes funcionam em algumas zonas, mas a cobertura nacional é insuficiente
"Alerta tsunami, alerta tsunami." No dia 15 de cada mês, pelas 11:00, a Câmara Municipal de Cascais mete em prática um teste de sistema de aviso e alerta de tsunami em três zonas diferentes. E "Portugal está mais preparado hoje do que esteve alguma vez" para enfrentar uma situação destas, ainda que esteja "longe de uma resposta ideal".
Quem o diz é uma pessoa que teve vários anos responsabilidade governativa na área da Proteção Civil, e que nota "uma margem muito grande de evolução e trabalho" para fazer no nosso país.
É que os sistemas de alerta existem, mas o tempo de resposta é escasso. Os planos municipais foram criados, mas nem todos estão atualizados ou testados. As sirenes funcionam em algumas zonas, mas a cobertura nacional é insuficiente.
Portugal está rodeado por seis zonas sismicamente ativas capazes de gerar tsunamis. Banhado pelo Atlântico, o país é um dos mais expostos da Europa a fenómenos deste tipo, sendo que em 1755 se registou um sismo seguido de uma onda gigante absolutamente devastadora em Lisboa.
Em Portugal Continental as regiões com maior suscetibilidade a tsunamis distribuem-se ao longo de toda a costa Sul e Ocidental entre o Cabo de São Vicente e Peniche, sendo particularmente vulneráveis os estuários do Sado e do Tejo - entenda-se Lisboa, Setúbal, Sines e toda a faixa costeira alentejana - e as praias e aglomerados urbanos do Algarve, de acordo com a Avaliação Nacional de Risco, feita pela Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC).
Nessas áreas vivem milhões de pessoas em zonas potencialmente inundáveis. Só no Algarve são mais de 46 mil, de acordo com o PEERST-Alg, citado no documento da ANEPC.
E é a partir da região mais a sul que a ANEPC coloca uma hipótese de um sismo submarino semelhante ao de 1755, com epicentro ao largo da costa sudoeste, durante uma manhã de agosto, com praias cheias e zonas urbanas em plena atividade, para avaliar o que aconteceria nos dias de hoje.
O tsunami atingiria o Algarve em 15 minutos, avançaria rapidamente pela costa ocidental, alcançaria a Península de Setúbal em 35 minutos, e chegaria às zonas costeiras de Lisboa pouco depois - onde poderia entrar pelo Tejo e chegar até zonas densamente habitadas como Alcântara, Cais do Sodré ou Belém. O norte do país seria atingindo cerca de uma hora e meia após o abalo principal, já com menor intensidade.
Estima-se que, nesse cenário, o tsunami provocasse cerca de cinco mil mortos, mil feridos graves, mil feridos ligeiros e cerca de dois mil desaparecidos, apenas contando os efeitos da onda e não os do sismo em si. As perdas materiais são estimadas em vários milhares de edifícios colapsados ou severamente danificados, embarcações destruídas, portos afetados e infraestruturas completamente inutilizadas.
A corrida contra o tempo
Tudo começa na sede do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), a entidade responsável por monitorizar a atividade sísmica e ocêanica e, com base numa “matriz de decisão”, decidir se há risco de tsunami e que tipo de alerta deve emitir.
“A partir de magnitude 5,5 começamos a analisar o potencial sísmico e depois emitimos o alerta, que depende tanto da magnitude, da localização e da profundidade. Emitimos o nível de alerta correspondente ao potencial de sismo que analisámos", explica o investigador do IPMA, Rachid Omira, especialista dedicado concretamente a esta área.
O sistema, embora funcional, tem limitações. Baseia-se apenas em cenários causados por sismos, não considerando, por exemplo, tsunamis gerados por deslizamentos submarinos.
De seguida, o IPMA comunica o alerta à ANEPC, que ativa os mecanismos de aviso, nomeadamente o envio de mensagens SMS para a população em zonas de risco.
Nesse momento, cabe a cada autarquia colocar em prática os planos municipais de emergência. E é aí que entra outro problema.
A velocidade de propagação de um tsunami, que pode atingir entre 700 a 900 quilómetros por hora, "dá alguns minutos de vantagem", ao contrário de um sismo, que é instantâneo e não se consegue prever. No entanto, para que esses minutos sejam bem aproveitados, é essencial ter uma cadeia eficaz de deteção, informação, aviso, evacuação e resposta, alerta o antigo governante ouvido pela CNN Portugal.
“De que serve ter rotas de evacuação se não consigo avisar as pessoas a tempo?", questiona. Em alguns municípios costeiros ainda não há sirenes nem painéis digitais ou qualquer sinalética de evacuação.
Mas existem exemplos positivos: Lisboa, Cascais, Setúbal e Portimão já têm sistemas sonoros, sinalética adequada, pontos de encontro e realizam simulacros regularmente. A Área Metropolitana de Lisboa implementou um sistema com sirenes em Belém, na Ribeira das Naus, no Estoril e na Praia da Azarujinha e criou quatro painéis informativos digitais, confirmou à CNN Portugal o gabinete do vereador da Câmara Municipal de Lisboa com o pelouro da Proteção Civil e Socorro.
A norma está definida desde 2019. As sirenes devem emitir sinais entre 200 e 800 Hz, resistir a falhas elétricas, comunicar por voz e ter um som reconhecível por toda a população. Mas fora destas zonas-piloto, o silêncio ainda reina.
O tempo não é um luxo, é uma arma. E neste momento, Portugal ainda está a aprender a usá-la.
Evacuar. Como? Por onde? Em quanto tempo?
Em muitos casos, o primeiro sinal de alerta será o próprio sismo. A terra treme, e esse é o aviso para fugir, de preferência a pé, para um ponto mais elevado, que poderá ser um ponto de encontro, um abrigo ou um edifício de betão armado (preferencialmente nos últimos andares).
No entanto, evacuar uma zona costeira em 15 minutos implica rotas claras, percursos acessíveis a pé e pontos de encontro identificados num raio de mil metros, previamente definidos nos Planos Municipais de Emergência. E mesmo assim, é preciso treino e consciência.
“Ainda há muito a fazer, sobretudo na capacidade de alerta rápido e na preparação da população. Não podemos ter pessoas a ir para a marginal ver a onda e tirar fotografias. Isto pode custar vidas”, alerta o ex-governante.
A maior fraqueza continua a ser então a falta de treino da população, a perceção errada de que um tsunami “não acontece aqui”, de que “só se vê nos filmes” ou de que “se acontecer, logo se vê”.
Voltando a Cascais, há um apelo feito pela autarquia: que a população tenha uma mochila com um kit de emergência preparado para uma situação destas, composto por um rádio, lanterna a pilhas e pilhas de reserva, estojo de primeiros socorros, medicação habitual, água para três dias, alimentos enlatados, agasalhos, fotocópia de documentos pessoais e um canivete multifunções.