Um deslizamento de terras raro que fez desaparecer dois portugueses: tudo o que se sabe sobre a catástrofe no Nepal

26 ago, 22:34
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O que começou por ser identificado como um sismo de magnitude 4,4 passou a ser classificado pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos como um deslizamento de terras de magnitude 5,2. A descoberta ajuda a explicar um dos fenómenos mais invulgares desta catástrofe: a própria massa de terra que deslizou foi capaz de gerar ondas sísmicas detetadas pelos instrumentos

O norte do Nepal foi atingido esta quarta-feira por uma enorme enxurrada de água, lama e detritos que destruiu casas, estradas, pontes e deixou um rasto de mortos e desaparecidos. A catástrofe atingiu sobretudo o distrito de Rasuwa, junto à fronteira com o Tibete, na China, uma zona montanhosa atravessada por rios e particularmente exposta a deslizamentos de terras e inundações repentinas.

Enquanto as equipas de emergência tentavam chegar às zonas afetadas, uma das primeiras explicações para a catástrofe começou a ganhar força: teria ocorrido um sismo e esse abalo teria provocado um grande deslizamento de terras, que por sua vez teria bloqueado o curso de um rio e desencadeado a inundação. O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) tinha, de facto, registado um evento de magnitude 4,4 pouco antes da enxurrada.

No entanto, a análise posterior dos dados veio alterar essa sequência.

Afinal, não foi um sismo

O USGS analisou novamente as ondas sísmicas registadas na região, com particular atenção às ondas de longo período, e concluiu que a energia detetada não tinha sido produzida por um sismo tectónico convencional. A agência atualizou o evento para magnitude 5,2 e passou a classificá-lo como um deslizamento de terras, situando a sua origem a cerca de 55 quilómetros a noroeste de Kodari, no Nepal.

A diferença pode parecer apenas técnica, mas é fundamental para perceber o que aconteceu. Um sismo ocorre quando há uma libertação súbita de energia no interior da Terra, normalmente associado ao movimento de uma falha geológica. Um deslizamento de grandes dimensões, por outro lado, acontece quando uma enorme quantidade de rocha, terra e outros materiais se desloca encosta abaixo. Esse movimento também liberta energia e pode gerar ondas que se propagam pelo solo e são detetadas por instrumentos sísmicos.

Foi isso que aconteceu esta quarta-feira, segundo a nova análise do USGS: os instrumentos registaram atividade sísmica, mas a origem dessa energia não foi um sismo tectónico; foi o próprio movimento da massa de terra. 

Aliás, há até uma pequena alteração visual que traduz esta mudança. No mapa do USGS, os sismos são assinalados com círculos. Depois da atualização, o evento desta quarta-feira passou a ser representado por um losango, o símbolo utilizado para assinalar um deslizamento de terras.

Mapa do Serviço Geológico dos Estados Unidos. (USGS)

Então o que provocou o deslizamento?

Esta é agora a grande pergunta em aberto. A reclassificação feita pelo USGS permite perceber melhor o que foi o fenómeno que produziu o sinal sísmico, mas não responde necessariamente à questão sobre o que fez a encosta ceder em primeiro lugar. 

Nas primeiras horas da catástrofe foram consideradas várias possibilidades. Uma delas apontava para um sismo como causa inicial, mas essa hipótese perdeu força depois da revisão do USGS. Outra possibilidade passa por uma alteração súbita relacionada com água ou gelo na região montanhosa, nomeadamente no lado tibetano da fronteira. Chuvas intensas, fusão de gelo, instabilidade das encostas ou uma combinação de vários destes fatores são algumas das hipóteses que terão de ser avaliadas.

Para reconstruir a sequência dos acontecimentos, os investigadores vão cruzar imagens de satélite com dados meteorológicos, informações sobre precipitação e evolução dos glaciares e lagos, bem como observações feitas no terreno.

Um deslizamento pode mesmo provocar atividade sísmica?

Pode. Um grande deslizamento pode, por si só, gerar ondas sísmicas devido ao deslocamento brusco de uma enorme massa de material. E, em determinadas condições, alterações na carga exercida sobre o terreno e na pressão dentro das rochas podem também desencadear atividade sísmica nas proximidades. 

Um estudo realizado por investigadores no plano tibetano mostrou precisamente como estas interações podem acontecer. Em 2018, dois grandes deslizamentos bloquearam rios e formaram lagos naturais. À medida que um desses lagos aumentava de nível, os investigadores observaram um aumento significativo da atividade sísmica local. Depois de a barreira natural ter rompido e a água ter escapado, a atividade sísmica regressou aos níveis anteriores. 

Os investigadores concluíram que a subida do nível da água alterou as tensões no subsolo, através da combinação do peso exercido diretamente pela água e da difusão da pressão nos poros das rochas. Cerca de 90% da atividade sísmica identificada ocorreu em zonas onde estas tensões tinham aumentado. O estudo mostrou, assim, que a relação entre perigos naturais pode funcionar nos dois sentidos: não são apenas os sismos que podem desencadear fenómenos à superfície; fenómenos à superfície também podem alterar as condições no subsolo e desencadear atividade sísmica. 

Isto não significa, no entanto, que o mecanismo identificado no estudo do Tibete tenha sido responsável pela catástrofe no Nepal. O exemplo serve para mostrar que a interação entre deslizamentos, água e atividade sísmica é cientificamente possível. No caso nepalês, a causa inicial do deslizamento continua a ser investigada. 

O que aconteceu esta quarta-feira?

A enxurrada atingiu o rio Bhotekoshi por volta das 09:15 locais, 04:30 em Lisboa, e afetou particularmente as localidades de Timure, Rasuwagadhi e Syabrubesi. Imagens de câmaras de vigilância mostram a rapidez com que a água e os detritos avançaram pelas zonas habitadas, destruindo edifícios, estradas, veículos e pontes.

A água atingiu também território chinês, no lado tibetano da fronteira. As autoridades chinesas reportaram vítimas no condado de Gyirong.

No Nepal, as equipas de emergência depararam-se com uma situação especialmente difícil devido à destruição de acessos e de redes de comunicação. Pelo menos 80 pontes ficaram destruídas, incluindo pontes rodoviárias e várias das pontes pedonais suspensas que ligam comunidades em zonas montanhosas. Também foram registados danos graves em infraestruturas hidroelétricas, incluindo no projeto Langtang Khola, cuja construção tinha sido recentemente concluída.

Quantas pessoas morreram ou estão desaparecidas?

O número de vítimas continua a ser atualizado à medida que as equipas de emergência conseguem chegar a zonas anteriormente isoladas. O balanço mais recente disponível aponta para pelo menos 157 mortos no Nepal, enquanto as autoridades chinesas reportaram três mortos no lado tibetano.

Entre as pessoas dadas como desaparecidas estão turistas estrangeiros - dois portugueses -, trabalhadores de projetos hidroelétricos e elementos das forças de segurança. O Nepal Tourism Board indicou centenas de turistas incontactáveis, provenientes de vários países.

A dimensão do número de desaparecidos explica-se, em parte, pela importância turística da região e pela dificuldade em estabelecer contacto com pessoas que estavam em localidades agora isoladas.

Os números deverão continuar a sofrer alterações nos próximos dias, à medida que forem identificados sobreviventes e recuperados corpos nas zonas atingidas.

Como estão a decorrer os resgates?

O Governo do Nepal mobilizou helicópteros do Exército e meios privados para retirar pessoas de zonas isoladas, transportar feridos e levar equipas de emergência para os locais mais afetados. Até agora, foram realizados resgates tanto por via aérea como terrestre. 

As autoridades declararam as zonas afetadas como áreas de catástrofe e determinaram a mobilização de recursos para restabelecer estradas, água potável, eletricidade e telecomunicações. Estão também a ser disponibilizados cuidados médicos, alojamento e alimentação às pessoas que perderam as suas casas. 

Que ajuda está a chegar?

A resposta à catástrofe mobilizou também apoio internacional. A União Europeia ativou o sistema de satélite Copernicus para ajudar a mapear as zonas afetadas, permitindo obter informação sobre a extensão dos danos mesmo em áreas onde as equipas no terreno têm dificuldade em chegar. 

A Índia enviou ajuda humanitária e material médico para o Nepal, enquanto vários outros países manifestaram disponibilidade para apoiar os esforços de emergência e prestar assistência aos seus cidadãos que possam estar entre os desaparecidos. 

A Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho disponibilizou fundos de emergência para apoiar a resposta da Cruz Vermelha do Nepal.

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