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Dois sismos em 175 dias é o prenúncio de que "a qualquer instante Lisboa pode sofrer uma grande chatice"

17 fev 2025, 18:53
Sismo (GettyImages)

Lisboa voltou a abanar e receio voltou a fazer-se sentir: estamos mais próximos do terramoto de 1755 v2.0? De positivo não há nada a retirar-se de dois sismos em menos de um ano - as previsões são incertas - mas há uma aterrorizante certeza perante este cenário tectónico: "Lisboa não está preparada"

Primeiro foi em Sines - a 26 de agosto de 2024 com intensidade de 5,3 na Escala de Richter - e agora, ao fim de 175 dias, houve um novo sismo nos arredores de Lisboa, desta vez em Setúbal, mais precisamente perto da praia da Fonte da Telha - com intensidade de 4,7. A pergunta que agora se impõe é se devem os lisboetas estar mais preocupados com esta proximidade de eventos sísmicos na capital?

Francisco Mota de Sá, professor catedrático do Instituto Superior Técnico e especialista em risco sísmico, entende que o cenário geológico em que Lisboa e os arredores estão inseridos é "perigosíssimo e deveria causar grande preocupação". "Hoje, felizmente, não foi uma magnitude por aí além. Mas pode vir a ser bem, bem mais grave, toda esta zona de Lisboa, e a sul de Lisboa, pode, a qualquer instante, sofrer uma grande chatice".

"Com uma proximidade destas, tão pequena, isto significa um risco de destruição semelhante ao do Terremoto de 1755 - mesmo que com menor magnitude", assegura Francisco Mota de Sá.

O geofísico e ex-presidente do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), Miguel Miranda, considera que há motivos para preocupação, mas que não são de agora só por terem ocorrido dois sismos num período inferior a 200 dias, até porque esta não foi uma situação inédita em Portugal. "É verdade que tivemos um sismo de 5,3, agora este de 4,7, em zonas muito perto e isto mostra que estamos perante uma zona sismicamente ativa, mas devo dizer que pode haver um sismo nesta zona de magnitude muito superior", explica Miguel Miranda, acrescentando que "isso é preocupante".

Miguel Miranda acredita que num cenário de um eventual sismo com epicentro em terra e numa zona populosa e densamente populosa a partir de uma "intensidade de 5,0 ou 5,5 os danos já poderiam ser sérios". "Estivemos perto em agosto, mas - felizmente - foi numa zona com pouca construção".

Francisco Mota de Sá refere que os abalos de agosto e os desta segunda-feira ocorreram em "zonas sismogénicas diferentes": "O de agosto foi ao largo de Sines e este no que se chama de Complexo do Vale Inferior do Tejo e aqui já me preocupa". O professor catedrático explica que - juntamente com outros especialistas - tem vindo a alertar há vários anos que os portugueses se "concentram demasiado no Terremoto de 1755, que teve uma magnitude muito, muito grande, mas estava muito afastado".

"Este tipo de sismos demoram muitos anos a acumular energia suficiente para voltar a romper. No entanto, o conjunto de falhas em redor de Lisboa apontam para riscos de sismos de 100 em 100 anos, ou 200 em 200 anos. A última vez foi no ano de 1909 - e destruiu Benavente. O que eu digo aqui é que a falha, as falhas, do Vale Inferior do Tejo poderão romper a qualquer instante e com magnitudes que podem variar entre 6 e 7 na Escala de Richter", refere.

E quando a profecia se cumprir, estará a capital à altura dos abalos? "Lisboa não está de forma nenhuma preparada. [Carlos Moedas discorda], mas é que de forma absolutamente nenhuma", responde sucintamente e sem hesitar Francisco Mota de Sá.  Isto, justifica, porque "mais de metade do edificado é da era Pombalina ou logo dos anos que se seguiram" que é o mesmo que dizer que é "extremamente vulnerável". 

O professor do Técnico lembra que até é comum ouvir-se que "a famosa 'gaiola' - estrutura presente no alicerces destes prédios - teria muito bom comportamento sísmico" e que não de é todo mentira, mas "isso foi quando se construiu". "De lá para cá, as pessoas foram adaptando os edifícios como quiseram, colocaram vigas metálicas que não sustêm absolutamente sismo nenhum, serraram as ‘gaiolas’ para instalar gás, água, eletricidade, comunicações e os edifícios seguintes aos Pombalinos, a chamada ‘gaioleira’, é a pior construção que já se fez em Portugal", diz Francisco Mota de Sá, alertando que "só isto representa metade da cidade". E a outra metade da zona predial da capital? "Dos outros edifícios, muitos estarão bem preparados, muito estarão muito mal preparados".

Para Miguel Miranda, a construção é efetivamente o ponto fulcral, porque "não há como minimizar os efeitos de um sismo": "O que se pode fazer, a nível individual, é muito reduzido e não vai além de se fazer um esforço para não ter muitos elementos em casa que possam cair e criar riscos acrescidos". 

"É absolutamente necessário é o país encontrar uma estratégia antissísmica que não seja tão maximalista como a atual. Ou seja, que compreenda que temos de, a cada construção, melhorar o nível de resiliência da infraestrutura e, desde que melhoremos, estamos a caminhar no bom sentido", explica, lembrando que "a legislação portuguesa obriga a que, quando existe uma intervenção de reabilitação, têm de se cumprir as normas que estão estabelecidas para as construções novas". "Isso, normalmente, exige investimentos avultadíssimos e, portanto, não é realmente feito de forma sistemática".

O ex-presidente do IPMA defende que Portugal deveria olhar para a estratégia que Itália implementou no seguimento do sismo de Áquila, em que existe um sistema de classificação da resistência das várias construções aos sismos e a cada reabilitação de um edifício apenas se incentiva o melhoramento para uma nova categoria através de financiamento.

Miguel Miranda alerta que uma “relação direta, do ponto de vista geológico, entre os dois sismos não pode ser completamente descartada”, lembrando que as zonas de Sines e Setúbal são “ambientes tectónicos com alguma semelhança”, ainda “não há evidência” que estejamos perante “uma espécie de migração para norte da atividade sísmica”. Contudo, certo é que "se este sismo tivesse sido 10 ou 15 quilómetros mais a norte, as consequências teriam sido muito mais graves".

"A Caparica seria a zona mais afetada. Historicamente, a zona mais afetada por atividade sísmica até hoje foi sempre Setúbal e muita construção da zona da Caparica é uma construção até muito frágil. Não estou a falar dos prédios, porque as pessoas têm sempre a ideia que as construções mais altas são as mais perigosas e isso não é verdade. O perigo tem muito que ver com as características da construção, a sua frequência própria - capacidade de oscilação do próprio edifício - e a relação que há com a frequência dos sismos", explica Miguel Miranda.

Explanadas as incertezas sobre previsões de novos sismos, há pelos menos duas certezas: "Esta é uma boa oportunidade para se chamar a atenção que esta zona do sudoeste de Lisboa teve no passado vários sismos históricos importantes e, portanto, tem a capacidade de voltar a tê-los", diz Miguel Miranda. Quanto à segunda certeza, todos os portugueses estão conscientes dela desde 1755 e várias gerações continuaram a viver com o desastre pré-anunciado: "Se me perguntar se Lisboa está preparada para um grande sismo? Não, não está. Não está nada preparada", culmina o professor catedrático do Técnico Francisco Mota de Sá.

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