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O diretor do SIS reformou-se, Montenegro aceitou e a escolha agora é…

10 ago, 08:16
O diretor dos Serviços de Informações de Segurança (SIS), Adélio Neiva da Cruz (Lusa/ Sena Goulão)
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Neiva da Cruz esteve cerca de 11 longos anos a liderar a mais poderosa secreta portuguesa, o Serviço de Informações de Segurança (SIS), uma situação quase sem paralelo nas atuais lideranças da maior parte dos serviços secretos europeus e não só. Mas reformou-se há pouco mais de um mês e, nas últimas semanas, o primeiro-ministro Luís Montenegro autorizou-o a sair de vez do SIS

O diretor interino é agora o nº2 da secreta, Gil Vicente Ginja, mas já corre no mundo das informações nacionais que a escolha do novo diretor, apenas o nono desde a fundação do SIS há cerca de 40 anos, poderá recair neste homem que também está há mais de uma década na direção do principal serviço de informações nacional.

As transições do nº2 para nº1 não são propriamente uma novidade no SIS. O próprio Neiva da Cruz foi diretor adjunto do juiz Horácio Pinto (2011/14) antes de ser escolhido em 2015 pelo secretário-geral do Sistema de Informações da República Portuguesa (SIRP), Júlio Pereira, para o cargo máximo do SIS. Igualmente, Horácio Pinto já tinha sido o nº2 de outro diretor do SIS, o colega juiz Antero Luís (2005/2011). Há ainda outro caso neste tipo de sucessões que parecem quase dinásticas na liderança da principal secreta portuguesa: o juiz Teles Pereira subiu a diretor (mandato entre 2001/2003) depois de integrar com Júlio Pereira a direção de Rui Pereira (1997/2000).

A confirmar-se o cenário da escolha por parte do primeiro-ministro e pelo secretário-geral do SIRP, Vítor Sereno, o nome de Gil Vicente Ginja terá ainda de ser escrutinado e aprovado no Parlamento. Assim, o SIS continuará durante mais uns bons anos nas mãos de uma única pessoa, por sinal um histórico operacional ligado desde os anos 90 do século passado ao departamento mais operacional daquela secreta. Um setor sigiloso e polémico que chegou a ser conhecido como “a Unidade” e que tem sido composto por espiões especialistas em vigilâncias, fotografia e filmagens, segurança eletrónica, escutas e intrusões em habitações e outros locais. Um setor que resistiu aos escândalos dos últimos anos do mandato do diretor e fundador do SIS, Ramiro Ladeiro Monteiro (1986/1994).

Nessa primeira fase da vida do SIS, Gil Vicente Ginja ainda estaria longe de pensar que acabaria a fazer carreira na espionagem nacional. O seu caminho parecia ser outro, pois em agosto de 1989 terminou o 27º curso de agente estagiário da PJ. Na lista publicada em Diário da República, ficou registado que foi o 4º classificado entre os 35 futuros agentes da Judiciária, uma lista onde já constavam alguns nomes que vieram a ficar ligados a casos mediáticos relacionados com investigações da PJ, como Carla Falua e Pedro Prata, ou a percursos nas secretas como foi o caso de Filomena Teixeira e Paulo Félix, este último um especialista em informática que muitos anos depois trabalhou para a polémica Ongoing de Nuno Vasconcellos.

Muito antes destas andanças que se tornaram conhecidas no escândalo Silva Carvalho/Ongoing, já Ginja passara para o setor privado, pois ao fim de poucos anos e sem qualquer trabalho relevante na Judiciária, recorreu ao expediente das licenças sem vencimento que eram praticamente assinadas de cruz pelas direções da PJ. Terá estado nesta condição, pelo menos, entre 1993/95, sendo que os despachos publicados em Diário da República sempre foram omissos quanto aos novos locais de trabalho dos polícias (neste caso, seria uma instituição financeira, segundo várias fontes da secreta). Mas com a estrondosa queda de Ladeiro Monteiro, o então primeiro-ministro Cavaco Silva escolheu para liderar a secreta um magistrado do Ministério Público, Daniel Sanches, que já tinha sido diretor adjunto da PJ (1984/88) e diretor do Serviço de Estrangeiro e Fronteiras (1988/94).

E era precisamente no SEF que trabalhava, desde 1990, a mulher com quem Ginja viria a casar, Maria do Guadalupe Mégre Pires, uma operacional que muitos anos depois, a partir de 2013, passou a exercer funções de coordenação no UNOCT (United Nations Office of Counter Terrorism). Coincidência ou não, Ginja entraria nos anos 90 no SIS (mantendo o vínculo original à PJ), sendo que o casamento com Guadalupe o faria adotar durante alguns anos os últimos dois apelidos da mulher.

Na secreta cuja sede estava num edifício envidraçado na Rua Alexandre Herculano, no centro de Lisboa, o novo espião só lá ia para algumas reuniões de trabalho, porque o setor que passou logo a comandar, o departamento das vigilâncias do SIS, estava localizado numa discreta moradia nos Olivais. Foi entre os trabalhos no Olivais e as idas à sede nacional que Ginja construiu, mal ou bem, a imagem que se lhe colou à pele durante largos anos. “Com exceção de Ramiro Ladeiro Monteiro, ele trabalhou diretamente com todas as direções nacionais e sempre foi óbvio que gostava de agradar. O poder interno vinha-lhe disso e de passar quase toda a carreira num setor fulcral, as Operações, que interagia com todos os outros quatro ou cinco departamentos”, concretiza um antigo quadro do SIS.

A somar a este poder e já com um filho de quem se tornaria sócio no setor privado, Gil Vicente Ginja acabou por apaixonar-se por outra espia no SIS que tinha sido casada duas vezes, Helena Rêgo, uma professora universitária especialista em contraterrorismo e que nas secretas acabaria por dirigir, a partir de 1995, vários departamentos. Seria ainda corresponsável pela segurança de vários eventos importantes em Portugal, como a Expo 98, visitas papais e cimeiras da NATO. Depois, a partir de 2013 e até 2020, Rêgo mandou no departamento comum (SIS e SIED) de Recursos Humanos e Formação e passou depois a conselheira do SIRP.

Durante anos e apesar do poder que aparentava o casal de espiões, Gil Vicente Ginja esteve muito tempo sem dar o pulo para a direção do SIS. Meio a brincar, vários espiões costumavam justificar isto dizendo que no SIS e no SIED até as paredes tinham ouvidos e memória, precisamente porque o passado e os segredos pesariam sempre no momento das decisões mais importantes. Internamente, vários (ex) espiões viram no passado familiar de Gil Vicente Ginja o principal fator responsável por bloquear a ascensão e até desequilibrar inicialmente uma guerra interna que se instalou entre ele e aquele que fora seu amigo e se tornara um grande rival, Jorge Silva Carvalho, e muito mais tarde cairia em desgraça.

Para os espiões mais antigos, o “problema” do então diretor operacional chamava-se Júlio da Encarnacão Ginja, o pai de Gil Vicente que nasceu numa pequena freguesia de Castelo de Vide e morreu no concelho de Oeiras aos 65 anos, em setembro de 1999, quando o filho já tinha entrado no SIS. Com vários mandados de detenção passados pelas autoridades judiciais, Júlio Ginja foi durante largos anos uma verdadeira dor de cabeça para a PJ que o investigou em, pelo menos, 13 processos abertos por alegados crimes de falsificação e passagem de cheques sem provisão, abuso de confiança e burla. Nos registos policiais da época, o suspeito surgia identificado como gerente comercial ou jornalista.

Constituído arguido e detido por diversas vezes, o pai Ginja chegou a ser visado em inquéritos espalhados pelos concelhos de Lisboa, Cascais, Mirandela, Celorico da Beira e Braga. Separado da mãe de Gil Vicente, Júlio viveu durante anos com uma mulher 24 anos mais nova e natural de Coimbra, Graça Maria Almeida, que se dizia arquiteta (e também jornalista) e chegou igualmente a ser detida e constituída arguida pelas autoridades. Em causa estavam também dezenas de outros processos intentados por suspeita de crimes de burla e a emissão de cheques sem provisão. O historial dos alegados crimes vinha de meados dos anos 80.

Ninguém nunca saberá se realmente esta história familiar de Gil Vicente Ginja (conhecida há muito no SIS) lhe afetou durante anos, nem que fosse de forma informal, a chegada mais rápida ao topo dos serviços secretos. Avesso à exposição pública, o espião tornou-se também empresário. Cerca de dois anos antes de tomar discretamente posse como diretor adjunto do SIS, Ginja constituiu em dezembro de 2013 a sociedade por quotas, Campoqui. Com sede em Foros de Salvaterra, no concelho de Salvaterra de Magos (Santarém), e um capital social de apenas 4 mil euros (60% dele e 40% do filho Gonçalo Megre Pires), a empresa é hoje uma coudelaria com site na internet, que abre com um vídeo de dois minutos. Sentada num sofá, a mulher e também (ex) espia Helena Rêgo anuncia que se trata de um projeto de família cujo lema é “criar cavalos lusitanos com amor”.

O site apresenta imagens de vários “garanhões”, que identifica como o Chagall, o Artilheiro, o Xarope, o Jadigo, o Hércules e o Suspiro. E também éguas, em cuja base genética se diz predominar “as linhas Veiga e Andrade” e uma significativa influência, “mais ou menos distante”, de cavalos como o Nilo, Novilheiro, Xaquiro e o Opus-72. Já a figura do espião e atual nº2 do SIS está praticamente ausente do site da coudelaria e só na galeria de fotos surge em duas ou três imagens, à mesa e com uma criança ao colo.

Mas como em 2025 era um dos dirigentes (vogal) da Associação Portuguesa de Criadores do Cavalo Puro Sangue Lusitano, o nome e outros pormenores da identidade constam nos documentos oficiais que estão na internet referentes ao contrato-programa de desenvolvimento desportivo "Apoio à Organização do Festival Internacional do Cavalo Lusitano”, assinado com a Câmara de Cascais. Ali está, à vista de todos, a identidade, o local de nascimento, o número de telemóvel pessoal e até a morada de casa do espião que agora dirige interinamente o SIS. Por menos do que isso, o antigo espião Carvalhão Gil foi acusado e condenado pela justiça portuguesa por entregar estes dados (e outros) alegadamente confidenciais aos serviços secretos russos.

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