Abu Mohammed al-Golani passou de clássico jiadista a revolucionário mais palatável. Mas o rebranding não convence todos

CNN , Mostafa Salem
9 dez 2024, 12:19
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É o líder do movimento rebelde que apanhou o mundo de surpresa - deitou abaixo décadas de ditadura na Síria. De fala mansa e barba bem aparada, Golani, de 42 anos, sentou-se com a CNN pela primeira vez na semana passada. Exalava confiança. Conduziu em 2023 a operação que assassinou o líder do Daesh mas os EUA continuam a achar que Golani lidera um grupo de terroristas

Como o líder rebelde da Síria passou de jiadista radical a “revolucionário” de blazer

por Mostafa Salem, CNN

 

Ahmed Al Sharaa, um militante islâmico na casa dos 20 anos, regressou do Iraque para a Síria em 2011 com seis homens e um subsídio mensal de 47.000 euros de Abu Bakr al-Baghdadi, que viria a tornar-se o terrorista mais procurado do mundo. A sua missão era criar a filial síria da Al-Qaeda, a Jabhat Al Nusra.

Atualmente, Sharaa comanda milhares de homens numa rebelião armada que derrubou o regime do Presidente sírio, Bashar al-Assad. É mais conhecido pelo seu nome de guerra Abu Mohammed al-Golani.

Nascido em Riade, capital da Arábia Saudita, filho de pais sírios das Colinas de Golã ocupadas por Israel e criado em Damasco, Golani disse numa entrevista à PBS em 2021 que foi galvanizado pela Segunda Intifada Palestiniana (revolta) contra Israel no início da década de 2000 e que se tornou jiadista no Iraque após a invasão americana de 2003. O seu profundo conhecimento da Síria chamou a atenção dos seus comandantes no Iraque, que procuravam expandir a sua posição na Síria durante a revolta do país.

Ao longo dos anos, a sua influência cresceu, apesar de a sua identidade se ter mantido em segredo. Durante as entrevistas televisivas, nunca encarava diretamente a câmara e cobria sempre o rosto em aparições públicas.

A sua estreia pública foi num vídeo de 2016, quando anunciou uma separação da Al-Qaeda para criar o que disse ser uma frente antirregime centrada na Síria com outras fações locais, chamada Jabhat Fateh al-Sham (Frente para a Conquista do Levante), que mais tarde mudou para Hayat Tahrir Al Sham (HTS), ou Organização para a Libertação do Levante.

“Esta nova formação não tem qualquer relação com um partido externo”, afirmou na altura, distanciando-se do seu passado islamista radical.

A cisão foi estratégica. O objetivo era evitar ataques de potências mundiais como os Estados Unidos e a Rússia, que intervieram na guerra civil síria para atacar grupos islamitas como a Al-Qaeda e o Daesh. Foi também o início da transformação gradual de Golani do clássico jiadista antiocidente para um revolucionário mais palatável. Em 2021, disse à PBS que não tinha qualquer desejo de travar uma guerra contra as nações ocidentais.

Blazer de estilo ocidental

Nos anos que se seguiram, Golani substituiu o seu traje de camuflagem jiadista por um blazer e uma camisa de estilo ocidental, estabeleceu um governo semitecnocrático em Idlib, que o seu grupo controlava, e promoveu-se como um parceiro viável nos esforços regionais e ocidentais para conter a influência do Irão no Médio Oriente. Conduziu operações contra o Daesh, incluindo o assassínio, em 2023, do líder do Daesh - Abu Hussein Al-Husseini al-Qurashi.

“Acredito que todos na vida passam por fases e experiências. À medida que crescemos, aprendemos e continuamos a aprender até ao último dia da nossa vida”, disse quando a CNN lhe perguntou sobre a sua transformação.

Esta semana, o seu grupo publicou pela primeira vez o verdadeiro nome de Golani, num comunicado em que anunciava a captura de Hama.

“Ele destruiu todos os laços e objectivos transnacionais e eliminou os operacionais do Daesh e da Al-Qaeda nas áreas que controla”, explica Dareen Khalifa, conselheira sénior do grupo de reflexão International Crisis Group, com sede em Bruxelas.

De fala mansa e barba bem aparada, Golani, de 42 anos, sentou-se com a CNN pela primeira vez na semana passada, vestindo um uniforme militar verde. Exalava confiança e tentou apresentar uma visão moderada do mundo durante a entrevista, evitando referências à jihad e apresentando repetidamente a sua luta como uma “revolução” para libertar a Síria da opressão de Assad.

As suas recentes aparições nos meios de comunicação social também tentaram promover as qualidades de liderança que adquiriu ao longo dos anos em que governou quatro milhões de pessoas na província de Idlib, no noroeste da Síria.

O líder do Hayat Tahrir al-Sham (HTS), Abu Mohamed al-Golani, verifica os danos causados por um terramoto na aldeia de Besnaya, na província de Idlib, no noroeste da Síria, na fronteira com a Turquia, a 7 de fevereiro de 2023 foto Omar Haj Kadour/AFP/Getty Images

Em Idlib, iniciou uma campanha para eliminar o Daesh, bem como potenciais ameaças à sua influência, prendendo antigos comandantes e eliminando rivais.

Grupos de defesa dos direitos humanos e monitores locais alertaram para o tratamento mais recente dado pelo HTS aos dissidentes em Idlib, alegando que o grupo conduziu duras repressões aos protestos e torturou e abusou de dissidentes. Golani disse à CNN que os incidentes de abuso nas prisões “não foram feitos sob as nossas ordens ou direções” e que o HTS já responsabilizou os envolvidos.

Apesar das tentativas de distanciar o seu grupo das organizações extremistas, os Estados Unidos continuaram a designar o seu novo grupo como uma organização terrorista e visaram membros do HTS que outrora lutaram pela Al-Qaeda, provando que as suas tentativas de rebranding foram um fracasso.

Mas a paisagem na Síria e no Médio Oriente mudou desde então. O colapso do regime sírio podia finalmente quebrar o chamado Eixo de Resistência do Irão - uma rede de Estados e milícias regionais aliados. Golani pode estar a posicionar-se para desempenhar um papel fundamental nesse resultado, esperando que isso lhe granjeie favores tanto na região como junto do Ocidente.

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