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24 anos de ditadura, 24 horas para a depor. O que espera a Síria pós-Assad ao leme de Golani e do seu HTS?

9 dez 2024, 22:19
Abu Mohammed al-Jolani
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A deposição de Bashar al-Assad foi recebida pela Europa e o resto do Ocidente num misto de "choque bem-vindo" e de "profunda incerteza". E a ela surgem associadas óbvias "preocupações sobre o que virá a seguir", dado o profundo fracasso das recentes transições na região, como é o caso da Líbia

Após 24 anos a governar a Síria com mão de ferro, Bashar al-Assad foi deposto em 24 horas. O regime que conseguiu sobreviver às intempéries da Primavera Árabe, eclodida na Tunísia no final de 2010 e que se alastrou a quase todo o mundo árabe ao longo dos anos seguintes, não sobreviveu a uma ofensiva que teve início em Alepo a 30 de novembro e que, na noite de sábado para domingo, face à chegada dos rebeldes a Damasco, culminou com a fuga de Assad, da sua mulher e dos seus filhos.

Foi “uma tomada de poder de cortar a respiração que se desenrolou em apenas dez dias” e que firmou uma queda de regime “muito mais rápida e menos sangrenta do que se poderia imaginar”, refere à CNN Portugal Julien Barnes-Dacey, do European Council on Foreign Relations (ECFR) – um regime sangrento responsável por gasear crianças e manter presos milhares de opositores em “matadouros de humanos”, cuja queda marca também o fim de 13 anos de uma guerra civil que provocou mais de meio milhão de mortos e seis milhões de refugiados.

A deposição de Assad, aponta o ex-jornalista que viveu e trabalhou como correspondente na Síria entre 2007 e 2010, foi recebida pela Europa e o resto do Ocidente num misto de “choque bem-vindo” e de “profunda incerteza”. E a ela surgem associadas óbvias “preocupações sobre o que virá a seguir, dado o profundo fracasso das recentes transições na região, como é o caso da Líbia”, destaca Barnes-Dacey – receios que se prendem com “a intensificação do caos, da violência e da fragmentação perante uma possível transição contestada e com o facto de o conflito entre a Turquia e os curdos sírios poder dar ao autoproclamado Estado Islâmico (ISIS) um novo espaço para explorar” na região. À cabeça, contudo, o receio mais imediato prende-se com “a natureza islamita do Hayat Tahir al-Sham (HTS), o antigo grupo da Al-Qaeda que lidera o movimento rebelde”. 

Até ver, há um otimismo cauteloso quanto à surpreendente tomada de Damasco pelo HTS. Tão surpreendente que, há três dias, Barnes-Dacey referia à rádio norte-americana NPR que Assad “esteve numa situação muito pior nos primeiros dias da Guerra Civil e, francamente, hoje tem um apoio regional e internacional muito mais profundo e alargado”, pelo que provavelmente não veria “este momento como um para se retirar ou recuar”. Tão surpreendente que até a Rússia, a maior aliada do ditador sírio, reconheceu que não estava à espera dela. “O que aconteceu surpreendeu o mundo inteiro e nós não somos exceção”, admitiu Dmitry Peskov, porta-voz do Kremlin, confirmando que Moscovo concedeu asilo político à família Assad.

Até a Rússia aliada de Assad foi apanhada de surpresa pela velocidade e eficácia da ofensiva liderada pelo HTS, como assumido pelo porta-voz do Governo de Vladimir Putin. Mikhail Klimentyev/AP

"Talibãs também fizeram promessas"

O otimismo surge, acima de tudo, no contexto de uma operação de rebranding do HTS – numa tradução livre, Organização para a Libertação do Levante – um grupo com raízes jihadistas mas cujo líder, Ahmed al-Sharaa, nome de guerra Abu Mohammed al-Golani, passou os últimos anos a reinventar-se face à anterior imagem de teocrata anti-Ocidente.

“No meio de todas as preocupações, a maior esperança deve residir agora na ação dos próprios sírios que, mais do que qualquer pessoa de fora, anseiam por uma transição estabilizadora, tendo já interiorizado o custo do conflito – e o HTS é talvez o exemplo mais claro disso mesmo”, ressalta Julien Barnes-Dacey. 

Sob o controlo de Idlib, o principal reduto do grupo de oposição ao regime de Assad na Síria, “o HTS moderou a sua posição ideológica, rompeu com a Al-Qaeda e comprometeu-se com um processo inclusivo que proteja os direitos de todos os sírios, como demonstrado pela sua ação inicial de tranquilização das minorias do país”, refere o especialista do ECFR – e, logo após a tomada de Damasco, “trabalhou rapidamente para proteger as instituições do Estado, incluindo, inicialmente, a manutenção de Mohammed Ghazi al-Jalali, o último primeiro-ministro de Assad, para evitar que o país caísse num novo caos”.

Até ver, a retórica de Golani, que trocou a roupa camuflada por um blazer e camisa ao estilo ocidental, está a traduzir-se em ações, como por exemplo o facto de, no contexto desta ofensiva contra o regime sírio, ter dado ordens para que fosse garantida a proteção de todos os templos de minorias religiosas, incluindo dos alauitas, a corrente do xiismo seguida pela família Assad, nomeadamente em Latakia, o grande bastião do regime. 

Até cidades como essa, “tradicionalmente pró-Assad, parecem aliviadas que a era Assad tenha chegado ao fim”, escreve Sarah Zaaimi, do Atlantic Council – “um indício positivo de que as minorias vão provavelmente juntar-se à transição política em vez de se envolverem em mais uma dispendiosa guerra civil”.

Mas nem todos partilham deste otimismo. Num artigo publicado esta segunda-feira, a CNN Internacional ressalta que a aparente mudança nas chefias do HTS “invoca um paralelo com os talibãs, cujo rápido regresso ao poder no Afeganistão, em 2021, foi acompanhado por um esforço para parecer moderado e virado para o futuro”, quando na verdade acabou por firmar um “regresso draconiano à Xaria (lei islâmica) e à repressão dos direitos das mulheres e das minorias”.

É a mesma ideia referida por Kirsten Fontenrose, ex-diretora da Iniciativa Scowcroft de Segurança no Médio Oriente do Atlantic Council, que defende que deve ser exercida toda a cautela face a um governo de transição liderado pelo grupo de Golani, que já anunciou Mohammed al-Bashir, estudioso da Xaria em Idlib, como o novo primeiro-ministro interino da Síria num governo que deverá integrar Jalali e representantes de outros grupos.

“As declarações do HTS sobre o respeito pelas minorias não devem ser interpretadas como um sinal de moderação na ideologia do grupo”, adverte Fontenrose. “Os talibãs fizeram promessas de campanha semelhantes para proteger os direitos das mulheres e das minorias, a fim de facilitar a sua subida ao poder – e depois traíram-nas de forma flagrante.”

Até cidades tradicionalmente pró-Assad celebraram a queda de Bashar, que sucedeu ao pai, Hafez al-Assad, há 24 anos; dinastia esteve no poder na Síria ao longo de 54 anos. EPA

Política de pau e cenoura

A grande esperança, para já, é que o futuro da Síria seja diferente do de outros países da região, como o Estado falhado da Líbia ou o Afeganistão onde as mulheres têm menos direitos do que os animais. E essa esperança reside na premissa de que o HTS vai cumprir as suas promessas, quando milhões de sírios, incluindo de minorias religiosas, vivem assombrados pela perseguição sofrida às mãos de grupos extremistas, como a Al-Qaeda e o ISIS.

Neste momento, o HTS integra as listas de organizações terroristas de países como os Estados Unidos e o Reino Unido, mas este último estará já a ponderar a retirada do grupo dessa sua lista, como referiu o ministro britânico Pat McFadden em declarações à Sky News no rescaldo da deposição de Assad, ao confirmar que o governo Starmer está a “considerar” essa hipótese e que a decisão “dependerá, em parte, do que acontecer em termos do comportamento atual do grupo”.

“Penso que os países de todo o mundo que proscrevem o HTS – não é apenas o Reino Unido e os EUA, os países europeus também – provavelmente irão analisar a questão agora e ver o que vai acontecer no futuro”, disse o ministro das Relações Intergovernamentais do Reino Unido esta manhã. “Não vai demorar muito tempo, penso que temos de o fazer rapidamente.”

Essa seria uma forma de estender a mão ao grupo na tentativa de o forçar a manter uma trajetória moderada e a alinhar-se com as intenções e objetivos do Ocidente face à Rússia de Putin e os países e grupos por ela apoiados na região, nomeadamente o Irão, o Hezbollah no Líbano e os Houthis no Iémen. E é uma das propostas avançadas por Barnes-Dacey face ao que diz ser a urgência de os europeus serem proativos, “abordando a situação com bastante cautela e modéstia, mas trabalhando rápida e significativamente para incentivar uma trajetória positiva” no país.

“Os governos europeus devem encarar o que aconteceu na Síria, um Estado fundamental do Mediterrâneo, como um interesse estratégico fulcral e canalizar atenção política e recursos significativos para o apoio a uma transição inclusiva liderada pela Síria e com partilha de poder, que conduza a uma reforma mais alargada”, defende o analista do ECFR – sendo essa “a única rota viável para garantir a estabilidade regional e a prevenção de novos conflitos e do terrorismo, quer se trate de permitir que milhões de sírios regressem finalmente a casa ou de diluir permanentemente a influência regional hostil de potências externas como a Rússia”. 

Guerra civil na Síria que eclodiu após a Primavera Árabe levou à morte de mais de 500 mil pessoas e forçou seis milhões de sírios a fugir do país; vários deles tentam agora voltar à sua pátria. Metin Yoksu/AP

Até ver, tal não será possível sem o HTS. E a par desta “política do pau e da cenoura” para “incentivar a contínua moderação do HTS, através de um envolvimento direto” com o grupo, aliviando sanções caso se comprometa com essa abordagem inclusiva”, a Europa deve focar-se noutras duas frentes, diz o antigo jornalista do Wall Street Journal e outros media norte-americanos.

“Os governos europeus devem começar por apoiar a nova perspetiva de um processo dinamizado e apoiado pela ONU que, no meio da cacofonia de atores, pode ser o único meio de reunir vários intervenientes internos e externos. E podem intensificar o contacto com a Turquia, que tem influência sobre os rebeldes, para pressionar no sentido de uma abordagem inclusiva” – que terá forçosamente de passar por ”oferecer aos curdos sírios uma via política de integração nas novas estruturas do Estado sírio que responda quer às suas necessidades, quer às preocupações turcas relativamente à autonomia curda”.

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