Damasco e outras cidades do país preparam-se para celebrar o primeiro aniversário sem Bashar al-Assad, que fugiu para a Rússia há precisamente um ano perante a tomada da capital pelos rebeldes liderados por Ahmed al-Sharaa. Agora presidente interino, Al-Sharaa diz que haverá eleições no prazo de quatro anos, perante receios de perseguição de minorias e falta de representatividade nas estruturas de poder
Foi há exatamente um ano, a 8 de dezembro de 2024, que o regime autoritário de Bashar al-Assad caiu com surpresa e estrondo. Mais de 13 anos depois de ter eclodido uma sangrenta guerra civil alumiada pela Primavera Árabe, que pretendia depor Assad, há um ano o ditador – cada vez mais isolado internacionalmente – cedeu às pressões e fugiu para a Rússia, onde estará a viver até hoje.
A cadeira do poder não ficou vazia: em poucos dias, um homem em tempos declarado terrorista pelos EUA e restante comunidade internacional assumiu a liderança da Síria. E um ano depois, os sírios continuam em busca de estabilidade e normalidade, uma nação fragmentada em luta para recuperar de quase década e meia de guerra civil e mais de meio século de ditadura.
Tudo aconteceu quando rebeldes comandados pelo agora presidente interino da Síria, Ahmed al-Sharaa, tomaram Damasco, forçando a fuga de Assad para a Rússia de Putin, o seu derradeiro aliado. Um ano depois, para esta segunda-feira estão planeadas celebrações na Praça Omíada, no centro de Damasco, a capital, que nos últimos dias tem estado repleta de manifestações de júbilo a antecipar este 8 de dezembro. São esperadas celebrações semelhantes em várias outras cidades do país, bem como desfiles e paradas militares.
A marcar a ocasião, Al-Sharaa aproveitou as orações da madrugada desta segunda-feira na Mesquita Omíada de Damasco para, vestido com uniformes militares – como os que usou durante a vitoriosa campanha rebelde liderada pelo seu grupo islamita, Hayat Tahrir al-Sham, – prometer construir uma Síria justa e forte.
“De norte a sul e de leste a oeste, se Deus quiser, reconstruíremos uma Síria forte com uma estrutura adequada ao seu presente e ao seu passado”, prometeu o presidente interino citado pela agência estatal SANA.
País fragmentado
Ex-comandante da Al-Qaeda, Al-Sharaa promoveu no último ano grandes mudanças que remodelaram as relações da Síria com o resto do mundo, forjando relações diplomáticas com os EUA de Donald Trump, que o recebeu no mês passado na Casa Branca, e conquistando o apoio dos Estados árabes do Golfo e também da Turquia. Por outro lado, afastou-se dos dois grandes apoiantes de Assad, a Rússia e o Irão. Com isto, conseguiu que grande parte das sanções ocidentais que paralisavam a Síria há mais de uma década fosse suspensa.
Quando tomou o poder há um ano, prometeu pôr fim ao brutal estado policial repressor da dinastia Assad, substituindo-o por uma ordem inclusiva e justa. Mas centenas de pessoas foram mortas ao longo dos últimos 12 meses em episódios de violência sectária que provocou novas deslocações forçadas de população e alimentou grande desconfiança entre as minorias.
No nordeste do país, controlado pelos curdos, a administração local proibiu reuniões ou eventos esta segunda-feira invocando “motivos de segurança” e citando atividades de suspeitas “células terroristas” que pretendem explorar a ocasião. Como refere a Reuters, a administração curda síria tem tentado salvaguardar a sua autonomia regional, enquanto no Sul, alguns drusos (seita minoritária que é um ramo do Islão) continuam a exigir a independência da província meridional de Sweida, desde que centenas de pessoas foram mortas em julho em confrontos fatais com as forças governamentais.
No Fórum de Doha, que decorreu este fim de semana no Catar e onde diferentes líderes do Médio Oriente estiveram a debater o futuro da Faixa de Gaza e de toda a região, Al-Sharaa reiterou que o seu governo responsabilizará os envolvidos nos abusos ocorridos no início do ano na zona costeira da Síria, quando centenas de alauítas, outra minoria étnica, muitos dos quais apoiantes do regime de Assad, foram mortos.
Apesar das atrocidades cometidas, assegurou o líder sírio numa entrevista conduzida por Christiane Amanpour, da CNN Internacional, o país é um Estado de Direito e o fortalecimento do Estado de Direito é a forma de garantir os direitos de todas as minorias.
E as eleições?
No mesmo fórum no Catar, o presidente sírio disse que “a Síria está a viver os seus melhores momentos hoje” e afirmou que o período de transição que está a liderar vai continuar por mais quatro anos, para estabelecer instituições, leis e uma nova Constituição, que será submetida a referendo antes das próximas eleições.
Neste momento, e sob a Constituição provisória aprovada em março deste ano, Al-Sharaa detém amplos poderes executivos. Em outubro, as autoridades de transição organizaram uma votação indireta para formar um parlamento que reponha o ramo legislativo da Síria até à próxima ida às urnas, prevista para 2029. A votação, na qual apenas uma pequena fração da população pôde participar, esteve envolta em preocupações sobre a falta de representação de mulheres e minorias. Sob a mesma Constituição provisória, o líder sírio ainda tem de selecionar um terço dos 210 membros desse parlamento de transição.
A família Assad, pertencente à minoria alauita da Síria, governou o país durante 54 anos. Em 2011, alumiada pela Primavera Árabe, uma larga faixa da população tentou depor Bashar al-Assad, filho e sucessor de Hafez. Os protestos foram duramente reprimidos e a Síria mergulhou numa guerra civil que, em mais de 13 anos, provocou centenas de milhares de mortos e deslocados, levando cerca de cinco milhões de sírios a refugiarem-se em países vizinhos ou na Europa.
A agência da ONU para os Refugiados disse esta segunda-feira que cerca de 1,2 milhões de refugiados, bem como 1,9 milhões de deslocados internos, já voltaram a casa desde a queda de Assad há um ano. Mas face aos problemas que a Síria ainda atravessa, muitos outros poderão ser dissuadidos de voltar ao país-natal.
Crescimento económico?
Numa conferência organizada pela Reuters na semana passada, o governador do Banco Central da síria disse que o retorno de cerca de 1,5 milhões de refugiados está a ajudar a economia do país a crescer, embora o gabinete da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários mantenha que as necessidades humanitárias em toda a Síria continuam a ser graves, com 1,65 milhões de pessoas a precisar de ajuda em 2025.
No Fórum de Doha este fim de semana, Al-Sharaa disse que, na sua visita recente a Washington, se encontrou com membros do Congresso americano para tentar que aprovem o fim da Lei de César, sob a qual os EUA continuam a aplicar sanções económicas à Síria. “Houve um grande entendimento e acredito que estamos a 95% do caminho”, sublinhou o presidente sírio.
A situação económica do país, garantiu ainda, está a estabilizar e começam a surgir os primeiros indicadores de crescimento económico, alimentado sobretudo por investimentos substanciais e financiamento da Arábia Saudita e do Catar, bem como pela crescente participação de empresas privadas estrangeiras dos setores da construção e energia, assegurou o líder interino. “As pessoas recebiam uma hora e meia de eletricidade por dia, e agora atingimos entre 12 a 14 horas por dia e esperamos que este ano sejamos autossuficientes em termos de eletricidade.”