O que está a acontecer na Síria?

CNN , Lauren Kent
2 dez 2024, 14:09

"Quanto aos civis, nada vos irá acontecer": rebeldes anunciam controlo de grande parte de Alepo

Forças russas atacam feudo rebelde de Idlib na Síria

Adicione a CNN como fonte preferidaSiga-nos no Google News ?Saiba mais

O reacendimento do conflito, que já matou mais de 300.000 pessoas e fez sair do país quase seis milhões de refugiados, tem também amplas ramificações na região e não só

A guerra civil na Síria está de novo no centro das atenções depois de uma nova coligação rebelde ter lançado um ataque surpresa, invadindo a segunda maior cidade do país, Alepo.

É a primeira vez que as forças da oposição conquistam território em Alepo desde 2016, quebrando o impasse de uma guerra que nunca terminou formalmente.

O reacendimento do conflito, que já matou mais de 300.000 pessoas e fez sair do país quase seis milhões de refugiados, tem também amplas ramificações na região e não só.

Eis o que precisa de saber.

O que aconteceu na guerra civil da Síria?

No auge da Primavera Árabe, em 2011, os manifestantes pró-democracia saíram à rua na Síria, apelando à destituição do seu presidente, Bashar al-Assad.

Os manifestantes foram recebidos com força mortífera. À medida que as forças de Assad esmagavam o movimento pró-democracia, começou a formar-se uma oposição armada composta por pequenas milícias orgânicas e alguns desertores do exército sírio.

As forças da oposição - descentralizadas, compostas por diferentes ideologias, mas com um objetivo comum de derrubar Assad - foram apoiadas de várias formas por potências estrangeiras, incluindo a vizinha Turquia, os gigantes regionais Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, bem como os Estados Unidos.

À medida que as forças antigovernamentais cresciam, os aliados da Síria, o Irão e a Rússia, intensificaram o seu apoio. No terreno, a Guarda Revolucionária do Irão e o seu representante libanês, o Hezbollah, ajudaram a combater os grupos rebeldes armados. Nos céus, a Força Aérea Síria foi reforçada por aviões de guerra russos.

Os extremistas islâmicos, incluindo a Al-Qaeda, interessaram-se pela Síria, assumindo uma causa comum com a oposição síria moderada, que não via com bons olhos o envolvimento dos jihadistas.

Mas, em 2014, os extremistas dominaram e o Estado Islâmico começou a espalhar-se pelo país. Receando que a Síria se tornasse um foco permanente de terror, uma coligação internacional liderada pelos EUA entrou em ação com o objetivo de eliminar o grupo, mas sem confrontar o regime sírio.

As Forças Democráticas da Síria (SDF) - um parceiro dos EUA constituído por combatentes curdos - lutaram contra o Estado Islâmico, pondo efetivamente termo à existência territorial do grupo.

Em 2020, a Rússia e a Turquia acordaram um cessar-fogo na última província controlada pela oposição, Idlib, concordando em estabelecer um corredor de segurança com patrulhas conjuntas.

Desde então, não se registaram grandes confrontos, mas o governo sírio nunca recuperou todo o seu território. E, como demonstram os acontecimentos em Alepo, a resistência armada nunca desapareceu.

Porque é que o conflito reacendeu agora?

A ofensiva começou na quarta-feira, depois de os rebeldes terem formado uma nova coligação chamada “Comando de Operações Militares”.

Rapidamente, os rebeldes invadiram aldeias nos arredores de Alepo e os residentes afirmam que controlam grande parte da cidade, encontrando pouca resistência pelo caminho.

Os combatentes dizem que estão a tentar libertar um território ocupado e que estavam a responder a ataques intensificados das forças governamentais e de grupos de milícias pró-iranianos.

Os rebeldes poderão estar a tentar tirar partido de um governo enfraquecido, cujos principais aliados estão fortemente preocupados com outros conflitos.

Em resposta ao avanço dos rebeldes, as forças aéreas russas e sírias lançaram uma ofensiva aérea nas províncias de Alepo e Idlib.

A Rússia invadiu a Ucrânia em 2022 e tem injetado mão de obra e recursos na guerra. A Rússia é o principal parceiro de Assad nos céus.

Entretanto, o Irão tem sido alvo de uma série de ataques por parte de Israel, nomeadamente contra o Hezbollah. Analistas disseram à CNN que os rebeldes sírios estão a usar o vazio deixado pelo grupo para avançar na Síria.

A perda de Alepo representa um revés significativo para as forças de Assad. Outrora a maior cidade da Síria em termos de população e a sua capital económica, é uma das cidades habitadas mais antigas do mundo.

Alepo foi também o principal bastião dos rebeldes até à sua tomada por Assad em 2016. Com a reconquista de Alepo, os rebeldes deixam de estar encurralados em Idlib, o que poderá desencadear um efeito dominó.

Quem são os rebeldes?

O novo grupo é constituído por um vasto espectro de forças da oposição, desde fações islamistas a moderados.

A liderá-los está o Hayat Tahrir al-Sham, um antigo afiliado da Al-Qaeda na Síria, que costumava chamar-se Frente Al-Nusra.

O grupo cortou oficialmente os laços com a Al-Qaeda e tem sido o governante de facto em Idlib. A ele juntaram-se grupos apoiados pela Turquia e outros anteriormente apoiados pelos EUA.

A complicar a situação está o facto de alguns dos grupos rebeldes estarem também a combater as Forças Democráticas Sírias.

O Exército Sírio Livre, apoiado pela Turquia, que faz parte da coligação rebelde que tomou o controlo da maior parte da cidade de Alepo, afirmou no domingo ter tomado o controlo da cidade de Tal Rifaat e das cidades de Ain Daqna e Sheikh Issa, na parte norte da província de Alepo. O grupo também afirmou ter capturado as aldeias de Shaaleh e Nairabiyyeh, na zona rural do norte de Alepo. Estes territórios eram anteriormente detidos não pelo governo de Bashar al-Assad, mas pelas Forças Democráticas Sírias.

As Forças Democráticas da Síria são maioritariamente constituídas por combatentes curdos de um grupo conhecido como Unidades de Proteção Popular (YPG), que é considerado uma organização terrorista pela vizinha Turquia.

Como é que a Síria vai reagir?

Os jatos sírios e russos têm atacado os rebeldes em Alepo e Idlib, uma tática que foi crucial para a reconquista de território durante a guerra civil.

Assad prometeu que a Síria vai continuar a “defender a sua estabilidade e integridade territorial face a todos os terroristas e seus apoiantes” e o Ministério da Defesa disse que estava a preparar uma contraofensiva.

No entanto, a capacidade ou a vontade de resposta do governo não é clara nesta fase e muito dependerá do apoio que os seus principais apoiantes possam dar.

Há sinais de que os aliados da Síria estão a unir-se em torno do governo, tendo o principal diplomata iraniano, Abbas Araghchi, viajado de Teerão para Damasco no domingo.

Com os rebeldes no controlo de Alepo, incluindo os principais locais militares e o aeroporto, qualquer contra-ataque será difícil para o exército sírio. A cidade resistiu durante quase dois anos sob o cerco quase contínuo das forças governamentais antes de ser capturada em 2016.

*Eyad Kourdi, Ben Wedeman, Mostafa Salem e Christian Edwards contribuíram para este artigo

Relacionados

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Mundo

Mais Mundo

Mais Lidas