"Virou-se o feitiço contra o feiticeiro". Dois comandantes dos bombeiros comentam os sete longos minutos de falha da rede SIRESP à frente dos jornalistas

18 ago, 11:08

Os comandantes Jorge Mendes e Paulo Santos partilham as suas posições sobre o vídeo publicado pela CNN Portugal esta terça-feira e concordam num ponto essencial: são necessárias melhorias profundas

O presidente da rede SIRESP assegurou, esta terça-feira, que o sistema de comunicações de emergência funciona "sem falhas" e que eventuais problemas de comunicação são justificáveis com a falta de formação e "indisciplina" dos utilizadores. No mesmo dia, a convite do SIRESP, a CNN Portugal assistiu a uma demonstração sobre o funcionamento da rede. O resultado? O contacto com a segunda pessoa, dez pisos acima do tenente-coronel Vítor Custódio e da equipa de jornalistas, só foi estabelecido ao fim de sete longos minutos. Dois comandantes dos bombeiros viram o vídeo - e partilham as suas posições. 

"Prova cabal de que o SIRESP não funciona" 

O comandante dos Bombeiros Voluntários de Cabo Ruivo, Jorge Mendes, reage com humor à demonstração do SIRESP: "Agradecemos, desde já, a prova de que existem falhas". 

O teste de funcionamento da rede pretendia demonstrar que a comunicação é fluida e eficiente quando executada por um operacional com formação. Pelo contrário, "aquilo que os responsáveis do SIRESP conseguiram comprovar é que os bombeiros efetivamente têm razão" e que a rede apresenta falhas significativas, mesmo quando operada por um utilizador experiente. "Neste caso", reforça Jorge Mendes, "uma falha de sete minutos seria muito complicada no combate a incêndios". 

O comandante defende que esta demonstração, executada perante a comunicação social a pedido da própria rede, é a "prova cabal de que o SIRESP não funciona". Uma possível solução passa pelo "rever da situação" e a minimização das falhas existentes, mas também pelo gerir das expetativas. "Não há sistemas de comunicação perfeitos e vai sempre haver falhas", reconhece, acrescentando que o foco de ação passa pela "diminuição das falhas" na medida do possível. E, acima de tudo, pela compreensão de que os operacionais dependem de uma revisão urgente para conseguirem manter "um trabalho exemplar e em segurança". 

"Uma ferramenta do futuro"... que exige melhorias

Paulo Santos, Comandante dos Bombeiros Voluntários de Carcavelos, faz notar o desfasamento entre as declarações do SIRESP e a execução "deficiente" em plena demonstração à comunicação social. Apesar do SIRESP alegar frequentemente que as eventuais falhas se devem à "falta de entendimento do funcionamento da ferramenta por parte dos operacionais", o vídeo da CNN Portugal "veio provar que quem o operava não estava preparado e nunca o tinha usado naquelas circunstâncias". 

"É como se diz na minha terra", graceja: "Virou-se o feitiço contra o feiticeiro". 

Os equipamentos do SIRESP, defende, revelam um funcionamento problemático em várias ocasiões, nomeadamente quando se deparam com "muitos obstáculos à frente" ou se inseridos "em edifícios ou estruturas de aço", em que a propagação das ondas acontece de forma menos eficaz. Neste caso em particular, "havia uma diferença de vários andares" a comprometer a ligação, bem como a possível inexperiência do utilizador que, não tendo testado previamente o aparelho, não teve "capacidade de resolver a situação". 

Apesar desta experiência menos bem sucedida, Paulo Santos acredita que o SIRESP "continua a ser uma ferramenta do futuro, tecnologicamente avançada, com potencial imenso". A sua utilização plenamente eficaz depende, porém, de melhorias profundas na "utilização e na cobertura de rede". 

O SIRESP "é uma ferramenta muito boa que, ser for bem utilizada, é extraordinária". Ainda assim, tal como o comandante Jorge Mendes, também Paulo Santos alerta para a inevitabilidade dos problemas de comunicação. Nenhuma rede de comunicação é "100% eficaz" e, sobretudo num contexto em que as denúncias de problemas são ainda sucessivas, deverão sempre ser consideradas opções "alternativas" de contacto - como acontece, por exemplo, em casos de emergência hospitalar, em que os telemóveis são quase invariavelmente o meio de comunicação preferido. 

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