Portugal continua sem estratégia nacional para travar mortes na estrada: 359 vítimas mortais até outubro

11 nov, 22:29

Em média, ocorrem 390 acidentes por dia e pelo menos uma morte nas estradas portuguesas. A Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária garante que a nova estratégia será apresentada “em breve”

Todos os dias, pelo menos uma família perde alguém num acidente de viação em Portugal. Entre janeiro e outubro de 2025, a PSP e a GNR registaram 118.078 acidentes rodoviários, dos quais resultaram 359 mortos, 2.293 feridos graves e mais de 36 mil feridos leves.

Em média, são 390 acidentes por dia, que provocam sete feridos graves e pelo menos uma vítima mortal.

Portugal continua sem uma Estratégia Nacional de Segurança Rodoviária aprovada. O plano “Visão Zero 2030”, que prevê reduzir para metade o número de mortos e feridos graves até 2030, está por aprovar desde 2020.

No entanto, numa resposta enviada por escrito ao Exclusivo da TVI / CNN Portugal, a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR) garantiu que a nova estratégia “está a ser ultimada para consulta pública em breve” e será estruturada em 15 programas com quase uma centena de medidas, assentes nos cinco pilares do Sistema Segurovelocidades seguras, infraestruturas seguras, comportamentos seguros, veículos seguros e resposta pós-acidente.

“A Estratégia Nacional consagra o princípio de que nenhuma morte na estrada é aceitável”, sublinhou a ANSR, acrescentando que o orçamento “revelou-se apropriado ao fim em vista”, apesar de ter sofrido uma redução de quase 9% em 2025.

Segundo a mesma entidade, o controlo da velocidade é uma prioridade. Em julho de 2024, entraram em funcionamento 25 novos Locais de Controlo de Velocidade (LCV), elevando para 123 o número total de radares do sistema SINCRO. “Controlar a velocidade salva-vidas”, afirmou a ANSR, referindo que nos locais onde foram instalados radares houve uma redução de 69% nas vítimas mortais e 46% nos feridos graves.

Mas nas estradas, os comportamentos de risco persistem. A equipa do Exclusivo acompanhou uma operação da PSP e encontrou condutores ao telemóvel, viaturas sem inspeção e cartas caducadas. Em menos de duas horas foram aplicadas multas que no total ultrapassaram os mil euros.

“Posso adiantar que 50% das vítimas mortais resultam de colisões, 35% de despistes e 15% de atropelamentos”, explicou o porta-voz da PSP, Sérgio Soares, acrescentando que têm aumentado “os crimes rodoviários como a condução sem carta e em estado de embriaguez.”

Já o major Pedro Valente, da GNR, alertou para a reincidência e para a cultura de velocidade: “Verificamos que muitos dos condutores são reincidentes. É algo que nos preocupa e ainda assistimos a comportamentos que são vistos como heroicos. Um condutor que faz Lisboa-Porto em duas horas é visto como um herói. A sociedade devia censurar isso”.

“Se um condutor embater num peão a 60 km/h, a probabilidade de morte é de 85%. É física. É matemática”, sublinhou Alain Areal, diretor-geral da Prevenção Rodoviária Portuguesa, considerando irrealista a meta de reduzir os mortos em 50% até 2030. “Estamos com sinistralidade semelhante à de 2014. Pouco ou nada evoluímos”, argumentou.

As histórias das vítimas revelam o impacto devastador da sinistralidade. Carlos Bruno era chefe de cozinha e ficou com limitações severas depois de um carro lhe ter batido a mais de 120 km/hora, por trás, quando seguia de mota numa reta.

“Antes do acidente não tinha dores e agora tenho dores constantes. Tudo é diferente. Tive de aprender a vestir-me, ir à casa de banho, tomar banho. Não consigo estar de pé”, contou, acrescentando que jamais vai voltar a andar e que para trás deixa os passeios com a filha, as brincadeiras com o cão e a sensação de pisar a areia da praia, algo de que tanto gostava.

Renato Nobre, bailarino, viu a carreira interrompida por um acidente: “Quando acordei do coma pensei que estava a sonhar. Lembro-me de pensar ‘ok, Renato, volta a fechar os olhos, isto é só um pesadelo’”.

Foram precisos dois anos de reabilitação com cirurgias e muitas dores para voltar a dançar.

O advogado Miguel Rito considerou que “falta prevenção com rosto” e que “é preciso que o nosso sistema judicial assegure punição para a irresponsabilidade”.

A ANSR garante que promove cerca de 30 campanhas por ano, como “Cinto-me Vivo” e “Viajar Sem Pressa”, e que até outubro de 2025 houve um aumento de 374 mil visualizações mensais das ações digitais face ao ano anterior. Mas admite que “a descida das infrações, só por si, não permite concluir uma mudança comportamental profunda e duradoura”.

Em 2023, o custo da sinistralidade rodoviária foi estimado em mais de 6 mil milhões de euros, o equivalente a 2,6% do PIB, segundo a ANSR. Se forem contabilizados os danos materiais, o valor ultrapassa os 7 mil milhões, o que representa 580 euros por ano a cada português.

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