No que toca à China, EUA e Europa têm posições diferentes e, dentro da União Europeia, as posturas também divergem. Após pressões da primeira administração Trump para impedir a Huawei de entrar no 5G em Portugal, antecipa-se uma postura semelhante face ao investimento da CALB de dois mil milhões numa fábrica de baterias de lítio para carros elétricos. À CNN, embaixada dos EUA diz que o país tem "manifestado claramente" a sua "preocupação com a abordagem do Partido Comunista Chinês à economia global". Diplomata português contrapõe: "Temos de deixar de ir nas cantigas dos americanos"
É a quarta maior fabricante de baterias de lítio do mundo e escolheu Portugal, concretamente Sines, para o seu próximo mega-investimento. Os números são estrondosos e foram anunciados pelo ministro da Economia, Pedro Reis, ao lado da presidente do conselho de administração da China Aviation Lithium Battery (CALB).
No que o Governo português considera um “investimento histórico”, a CALB pretende gastar dois mil milhões de euros na construção de uma “gigafábrica” de baterias para veículos elétricos na Zona Industrial e Logística de Sines (ZILS), que deverá gerar 1.800 postos de trabalho e entrar em operação em 2028.
Segundo o executivo de Luís Montenegro, que fala numa “bateria de confiança e esperança no futuro”, o projeto poderá receber apoios de até 350 milhões de euros no âmbito do regime europeu de incentivos à reindustrialização – e estima-se que, na sua capacidade máxima, venha a representar cerca de 4% do PIB português.
“A China está a pôr cada vez mais fábricas na Europa para construir veículos elétricos e está a fazer o mesmo com baterias de lítio, desta feita em Sines, porque é o primeiro porto que os navios chineses que trarão lítio para a Europa encontram no continente”, destaca o embaixador António Martins da Cruz. “Para Portugal – e para a Europa – é um excelente investimento, vai contribuir para o PIB português mais do dobro da Autoeuropa”, que corresponde a 1,5% do PIB e a 4% das exportações. “Temos de saber aproveitar isso.”
Anunciado no final de fevereiro, o projeto estava a ser negociado há pelo menos dois anos, desde os tempos do anterior Governo, recorda o diplomata, que traça uma diferença entre o investimento da CALB e o que aconteceu com a chinesa Huawei em 2020, quando foi excluída do leilão do 5G. “Não se trata de uma questão tecnológica, não é preocupante de maneira nenhuma, na verdade é um investimento muito simples: há cada vez mais carros elétricos na Europa, esses carros precisam de baterias e a China é o maior produtor de lítio do mundo.”
Para Liu Jingyu, presidente do conselho de administração da CALB, a nova fábrica será determinante para Portugal no contexto da energia verde e na “transição do setor automóvel europeu para os veículos elétricos”.
Ao Expresso, a responsável detalhou que as obras em Sines deverão arrancar este ano, possivelmente já neste segundo trimestre. Mesmo curto, o prazo não significa forçosamente que o investimento venha realmente a concretizar-se, ressalva Daniel S. Hamilton, copresidente do Diálogo Transatlântico Sobre Comércio, Tecnologia e Segurança do Center for European Policy Analysis (CEPA).
“Um projeto como este pode, naturalmente, ser muito importante para um país como Portugal”, assume o também senior fellow do Brookings e do Instituto de Política Externa da Universidade Johns Hopkins, nos EUA. Mas “há uma tendência para as empresas e os funcionários chineses fazerem grandes anúncios sobre projetos destes e, mais tarde, não se concretizarem – ou há condições associadas ao negócio a envolver compromissos financeiros do país anfitrião que, mais tarde, não podem ser cumpridos”.
Na apresentação do projeto, Madalena Oliveira e Silva, administradora da AICEP, adiantou aos jornalistas que “a contratualização tem de ocorrer em 2025, mas normalmente os contratos levam algum tempo, porque temos de estudar, temos de discutir bem tudo o que é elegível e não é elegível, as percentagens de apoio, a intensidade de apoio, e só aí é que conseguimos ter uma resposta negocial acabada que passe à contratualização”.
O caso do 5G
Foi em 2020 que, numa entrevista encarada por alguns como um ultimato, o então embaixador nomeado por Donald Trump para Lisboa deixou claro que Portugal tinha de fazer uma escolha "entre os aliados e os chineses”. Com o leilão do 5G prestes a arrancar em Portugal, e a poucos meses de Trump concluir o seu primeiro mandato na Casa Branca, George Glass disse ao Expresso que, se a chinesa Huawei fosse autorizada a entrar na nova rede de telecomunicações, a relação dos EUA com Portugal ia “mudar”.
Menos de três anos depois – numa decisão que, na prática, veio excluir a Huawei do 5G – a Comissão de Avaliação de Segurança (CAS), subordinada ao Conselho Superior de Segurança do Ciberespaço, deliberou o “alto risco” para a segurança das redes e de serviços 5G em Portugal de usar equipamentos de fornecedores oriundos de fora da UE, da NATO ou da OCDE – sublinhando como fator de risco “o ordenamento jurídico do país” onde o fornecedor tem domicílio fiscal permitir “que o Governo [local] exerça controlo, interferência ou pressão sobre as suas atividades a operar em países terceiros”.
Então como agora, as pressões para impedir o envolvimento dos chineses no 5G não se cingem a Portugal e não vêm apenas do outro lado do Atlântico, destaca Daniel Hamilton. “A atual Comissão Europeia sublinhou os perigos da dependência da Huawei, pelo que não se trata apenas de Trump. Em 2020, os Estados-membros da UE chegaram a acordo quanto a uma ‘caixa de ferramentas 5G’ que incluía esforços para proibir a Huawei e a ZTE [empresa de telecomunicações também com sede em Shenzhen] – a maioria introduziu legislação nacional, mas apenas alguns implementaram efetivamente essas proibições.”
Foi um erro da antiga administração americana pôr essa pressão sobre Portugal [para excluir a Huawei] e foi um erro Portugal ter ido na cantiga da administração americana quanto à China", António Martins da Cruz
Reconhecendo que as pressões também vêm de Bruxelas, Martins da Cruz considera que a exclusão da Huawei foi um “grande erro” do Governo de António Costa. “Nunca entendi porque é que Portugal proibiu a entrada da Huawei no 5G, só dois países europeus é que o fizeram, Portugal e o Reino Unido”, sublinha o antigo embaixador de Portugal em Bruxelas e em Madrid.
“Aqui há alguns meses o presidente chinês da Huawei visitou Espanha e foi recebido pelo rei e pelo presidente do Governo e a empresa continua a investir em Espanha. Saberemos mais do que os espanhóis sobre potenciais problemas tecnológicos? Porque é que a Huawei está em quase todos os países europeus e cá não? Foi um erro da antiga administração americana pôr essa pressão sobre Portugal e foi um erro Portugal ter ido na cantiga da administração americana quanto à China.”
A decisão de excluir a Huawei do 5G foi tomada já depois de Joe Biden ter sucedido a Trump na presidência. Como chegou a sublinhar o vice de Biden para o Crescimento Económico, Energia e Ambiente, numa mesa redonda com jornalistas portugueses, a anterior administração definiu como prioridade “reduzir os riscos” mais do que “desvincular-se” da China. No mesmo encontro, em outubro de 2024, José W. Fernandez disse “aplaudir os esforços de Portugal para dar o exemplo ao resto da UE” no que toca ao 5G.
Face à decisão da CAS, a Huawei Portugal avançou em 2023 com um processo judicial de impugnação no Tribunal Administrativo do Círculo de Lisboa, com a empresa a dizer-se “confiante” de que “a legalidade” ia ser reposta e a admitir a possibilidade de vir a processar o Estado português. À CNN Portugal, fonte da empresa adiantou que, mais de um ano depois, "não existem novidades em relação a este processo".
Negócios da China
Na mesma mesa-redonda em Lisboa há meio ano, o responsável da administração Biden já fazia referência às práticas “desleais” de Pequim na produção de lítio, a matéria-prima do mais recente meganegócio da China em Portugal, referindo que o país está a produzir “muito mais do que as necessidades mundiais diretas”, o que, ressaltou, conduziu a uma queda de 75% no preço de mercado do lítio.
“O preço de mercado desceu de 80 mil dólares para 10 mil dólares, fiquei a saber hoje”, disse Anderson. “Isso faz com que o investimento seja desencorajado e restringe a nossa capacidade de diversificar as cadeias de abastecimento a uma escala global alargada, para além de prejudicar os países que querem desenvolver estas indústrias, torna-se muito difícil encontrar investidores.”
Questionado há uma semana sobre a origem do lítio a ser usado pela CALB em Sines – também tendo em conta a controvérsia com a exploração da Savannah em Boticas e com o facto de o único projeto de refinaria, da sueca Northvolt com a Galp, não ter avançado – o ministro da Economia respondeu que a empresa “certamente tem soluções que consideram a extração do lítio em Portugal”, onde, segundo dados oficiais, se situa a maior reserva europeia do mineral crítico e a oitava maior do mundo, correspondente a mais de 60 mil toneladas.
Aos jornalistas, Pedro Reis deixou garantias de que o modelo da CALB em Sines será “autónomo e sustentável, seja qual for a fonte” do lítio, e referindo-se a um eventual “big bang de investimento” no país adiantou: “A presidente da CALB Internacional acabou de me dizer que também estão cá [no evento] muitos fornecedores da CALB que consideram investir em Portugal.”
Os negócios da China em Portugal não se cingem ao lítio ou ao 5G. Como ressalta Martins da Cruz, Portugal é o segundo país da Europa com maior investimento chinês per capita, numa carteira de investimentos que vai do setor da banca aos seguros, saúde privada e imobiliário – “aliás”, adianta, “um dos maiores investimentos previstos depois desta fábrica de baterias em Sines é de quase 400 milhões de euros num parque empresarial e habitacional em Oeiras”.
O fenómeno é transversal a toda a Europa. Ainda assim, os valores atuais são inferiores aos de anos anteriores, denotando alguns efeitos das políticas de desvinculação da China que os americanos e, até certo ponto, também os europeus, têm seguido no contexto da crescente concorrência com o gigante asiático.
Como explica Hamilton, “as empresas chinesas estão a investir na UE, em parte, para evitar tarifas comerciais [dos EUA], mas em geral estes investimentos são relativamente pequenos em comparação com o Investimento Direto Estrangeiro [IDE] chinês de anteriormente na Europa”. Em 2024, indica o analista do CEPA, o IDE chinês na UE foi de 10,1 mil milhões de dólares, “mais do que os 5,6 mil milhões de dólares registados em 2023, mas muito abaixo do pico de 42 mil milhões de dólares de 2016”.
De acordo com dados do Banco de Portugal, a China é o sexto maior investidor no nosso país e o país fora do espaço europeu que mais negócios faz em território português. Segundo os mesmos dados, o Investimento Direto chinês em Portugal durante o ano passado ultrapassou os 12,1 mil milhões de euros, cerca de 6% dos mais de 200 mil milhões de euros de IDE total em Portugal.
A par disso, o investimento chinês pode ser visto na ótica do capital detido em várias empresas e setores de atividade em Portugal. A Fosun, por exemplo, empresa com sede em Xangai, é a maior acionista do BCP, com 20% do capital. Na área financeira, a Fosun tem ainda 85% da seguradora Fidelidade, cabendo os restantes 15% à CGD. A presença chinesa é ainda notória na área da energia, com a China Three Gorges a deter 21% da EDP e a State Grid of China 25% da Rede Elétricas Nacionais (REN).
“Posições estratégicas diferentes”
Dias depois da apresentação oficial do projeto da CALB em Sines, Donald Trump deu sinal de que pretende mesmo avançar com uma guerra comercial com a União Europeia, prometendo para “muito em breve” um anúncio formal.
“Será uma tarifa de 25% [aplicada] de um modo geral, que incidirá sobre os automóveis e todas as outras coisas”, disse o Presidente norte-americano, deixando economistas e analistas políticos a coçar as cabeças. “Eles [europeus] aproveitaram-se de nós. Não aceitam os nossos automóveis, não aceitam os nossos produtos agrícolas. Usam todo o tipo de razões para não o fazerem. E nós aceitamos tudo deles.”
Horas antes dessas declarações vagas, em conversa com a CNN, Daniel Hamilton destacava que “Trump prefere negociar com os países a nível bilateral e não com a UE no seu conjunto”, admitindo a possibilidade de a atual administração “poder vir a visar Portugal devido aos consideráveis investimentos chineses, pelo menos como tática para conseguir melhores oportunidades para as empresas americanas” em território português.
Trump, ressalta o especialista sobre a UE, já “anunciou tarifas sobre o aço e o alumínio, sanções contra qualquer país que aplique impostos sobre os serviços digitais e uma tarifa ‘recíproca’ que iguala as taxas aduaneiras e outro tipo de barreiras impostas às empresas americanas” – mas assume, ainda assim, que “não está claro” se estas tarifas serão aplicadas à UE ou aos Estados-membros individualmente.
Cada lado [EUA e UE] aborda a China a partir de uma posição estratégica diferente, com instrumentos e prioridades diferentes", Daniel S. Hamilton
Hamilton não exclui a “possibilidade de um acordo transatlântico mais alargado” que, na sua opinião, “incluirá provavelmente um alinhamento mais estreito [com os EUA] em relação à China” – “o que coloca mais pressão sobre países como Portugal”, numa altura em que americanos e europeus mantêm posições diferentes face a Pequim.
“Os americanos consideram que os europeus estão a levar tacos de baseball para um tiroteio, [enquanto] os europeus acham que os americanos estão a levar armas de fogo para um combate de boxe”, escrevia Hamilton numa análise publicada meses antes de Trump regressar à Casa Branca. “Cada lado aborda a China a partir de uma posição estratégica diferente, com instrumentos e prioridades diferentes”, elabora à CNN.
Se nos EUA existe um “amplo consenso partidário” sobre a ameaça que a China representa para os interesses da nação, “os europeus estão muito mais divididos” e “as declarações de Trump são entendidas por alguns na Europa como significando que os EUA podem representar um desafio aos interesses europeus tão grande quanto a China”. Mas “no fim de contas", considera Hamilton, "a Europa está muito mais ligada comercialmente aos Estados Unidos do que à China – escolher a China em vez dos EUA seria um ato de autoimolação económica”.
"Portugal tem de saber manter relações"
Martins da Cruz tem uma opinião diametralmente oposta, e não apenas pelo que considera ser a grande importância dos investimentos chineses para Portugal. “Somos um dos países que melhor conhece a China, fomos os primeiros europeus a chegar à China, em 1513, e os últimos a vir embora, em dezembro de 1999, quando entregamos a administração de Macau à China – temos com a China uma relação e um conhecimento que nenhum outro país tem.”
O embaixador responde de forma contundente quando confrontado com o que o embaixador George Glass referia na sua entrevista em 2020, quando disse que a China da atualidade não é a mesma China com que Portugal lidou nos últimos 500 anos, antes uma "nova China com planos de longo prazo para acumular influência maligna através da economia, da política e por outros meios".
“Isso é a opinião dos americanos, não deve ser a opinião dos portugueses", diz Martins da Cruz. "Os americanos têm um conflito com a China, mas esse não é o caso de Portugal, que tem relações de amizade e cooperação com a China e que tem de saber manter essas relações, mesmo que haja hostilidade até de Bruxelas.”
Questionado sobre se a administração Trump vai estar de olho na CALB e exercer o mesmo tipo de pressões exercidas em relação à Huawei, Daniel Hamilton respondeu simplesmente “sim”.
Questionada pela CNN sobre a forma como o atual Governo norte-americano encara este mega-investimento chinês em Sines, Marie Blanchard, responsável de assuntos públicos da embaixada dos EUA em Lisboa, frisou: "Temos manifestado claramente a nossa preocupação com a abordagem do Partido Comunista Chinês à economia global e ao comércio internacional, liderada pelo Estado e que distorce o mercado."
Para António Martins da Cruz, que diz “gostar pouco de especulações”, o melhor é esperar para ver. “Vamos ver o que acontece no futuro, mas penso que a administração Trump vai encontrar métodos de entendimento com a China, sobretudo no campo económico. Isso não desculpa o erro do anterior Governo em relação à Huawei. Não podemos ir constantemente nas cantigas dos americanos – sobretudo, e mais não digo, quando essas pressões vêm por via dos serviços de informação.”