"Estas crianças são diferentes à nascença, uma diferença escondida". Estudo pode ajudar a descobrir o mistério da morte súbita

17 mai, 10:24
Bebé a dormir. (Pexels)

Identificação de baixos valores de uma enzima podem ser um passo importante na descoberta de uma das principais causas da morte de crianças até ao primeiro ano de vida. Investigadora que liderou a pesquisa perdeu uma criança da mesma forma

Em Portugal morrem 0,1 a 0,2 crianças por cada mil nascimentos com a Síndrome da Morte Súbita do Lactente (SMSL). É o que dizem os últimos dados, sendo que a Sociedade Portuguesa de Pediatria lembra que os números são mais elevados no resto do mundo (até duas mortes por cada mil nascimentos). Uma morte que acontece durante o sono, sempre até ao primeiro ano de vida, e da qual ainda se sabe muito pouco.

Um novo estudo realizado na Austrália identificou baixos níveis de uma enzima específica chamada butirilcolinesterase no sangue de bebés que estão em maior risco de desenvolver esta condição.

A descoberta, publicada a 6 de maio na revista científica eBioMedicine, promete ser uma nova ferramenta para a realização de exames e intervenções com o objetivo de prevenir estas mortes. Aguarda-se mais investigação para se perceber como tal pode ser feito.

“É a primeira vez que identificamos um potencial marcador biológico para a SMSL”, refere a médica Carmel Harrington, que liderou a investigação no Hospital Pediátrico de Westmead, em Sydney, em declarações ao The New York Times.

Uma descoberta que surge após décadas de investigação, até porque, apesar de as campanhas de saúde terem reduzido a mortalidade nestes casos, continua a ser uma das principais causas de morte até ao primeiro ano de idade nos países ocidentais. Nos Estados Unidos, por exemplo, todos os anos morrem cerca de 3.400 bebés de forma inesperada, de acordo com as contas do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças. Destas mortes, perto de metade são causadas pela SMSL.

Um dos problemas que tem atrasado as investigações é o facto de esta síndrome não parecer estar ligada a apenas um mecanismo biológico, mas antes a uma combinação de vários fatores que se juntam como uma tempestade perfeita.

Para testar se havia algo diferente nos bebés que sofrem de SMSL, a equipa de investigadores comparou 655 amostras de sangue retirado à nascença a bebés saudáveis com amostras do mesmo tipo de 26 bebés que morreram de SMSL e outros 41 bebés que morreram de outra causa. Nove em cada dez bebés que morreram com SMSL tinham baixos níveis da tal enzima quando comparados com os bebés dos outros dois grupos.

“Fiquei pasmada”, admite a investigadora, que há cerca de 30 anos procura pistas para identificar uma causa para o problema, depois de ter perdido uma das suas crianças precisamente por esta razão. “Os pais de crianças com SMSL carregam uma grande culpa porque a criança morreu durante a sua vigia. Mas o que encontrámos neste estudo é que estas crianças são diferentes à nascença, uma diferença escondida e da qual ninguém sabia. Então não é culpa dos pais”, sublinha.

Apesar da identificação de menores níveis de butirilcolinesterase no sangue destes bebés, é ainda muito cedo para se perceber como o problema pode ser resolvido, desde logo porque os médicos ainda não sabem ao certo quais os níveis considerados normais para esta enzima. Além disso, os investigadores não realizaram as amostras com sangue fresco, mas com sangue seco.

O que recomendam os especialistas

Para já, o melhor é mesmo acautelar ao máximo o problema, seguindo os conselhos dos especialistas, que se mantêm os mesmos há vários anos.

A Sociedade Portuguesa de Pediatria faz uma série de recomendações para tentar prevenir ao máximo situações de perigo: “o seu filho deve dormir sempre de costas”, uma vez que a posição de decúbito ventral (barriga para baixo) “é um fator de risco para a SMSL”; “o seu filho deve dormir numa cama apropriada”, até porque a utilização de colchões moles e de edredão “pode possibilitar a sufocação”; “destape a cabeça do bebé”, sendo que a roupa de cama não deve ultrapassar os ombros e os cobertores não devem ser pesados; “não fume durante a gravidez, nem depois”, porque o peso da exposição ao tabaco aumenta, nomeadamente como fator de risco para SMSL, para as crianças quando dormem de costas (a posição recomendada).

A roupa da cama não deve cobrir a cabeça do bebé. Não deve usar almofada, fralda, gorros, babetes ou outras peças que possam tapar-lhe a cabeça. Não cubra demasiado o lactente – a cabeça deve estar sempre descoberta - a roupa não deve ultrapassar os ombros e os cobertores não devem ser pesados; “evite o sobreaquecimento”, uma causa que pode estar associada à SMSL. A temperatura do quarto deverá estar entre os 18 e os 21 graus; “não coloque o bebé na sua cama para dormir”, uma vez que essa situação aumenta o risco de SMSL e de asfixia, risco esse que aumenta ainda mais no caso de os adultos fumarem, estarem cansados, tomarem medicamentos calmantes ou tiverem ingerido bebidas alcoólicas; “a chupeta pode reduzir o risco de morte súbita”, ainda que não deva ser forçada.

Nunca adormeça no sofá com o seu bebé. O bebé deve dormir numa cama adequada e durante os primeiros seis meses a cama deve estar colocada ao lado da cama da mãe.

A Sociedade Portuguesa de Pediatria partilhou ainda um vídeo ilustrativo da situação.

SMSL_2021 from SPP on Vimeo.

Pode ver mais recomendações da Sociedade Portuguesa de Pediatria sobre a SMSL aqui.

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