Certamente passou ao lado da maioria das pessoas que, recentemente, o Governo anunciou uma nova aposta na digitalização dos serviços nacionais, uma espécie de Simplex 2.0 ou 3.0, já nem sei bem a quantas vai o Simplex, mas que promete ser inovador e agregador de esforços para a população, as empresas e o próprio aparelho de Estado. Ora, aqui não vejo nada de mal, pelo contrário, pois estamos em 2025 e, se a Estónia o consegue, Portugal não deverá ser diferente. Porém, há algo que me preocupa verdadeiramente: o desinvestimento contínuo nas pessoas.
Eu, pessoalmente, gostaria de saber quais são os números que o CNCS tem relativamente à formação que oferece à população, sim, a que oferece, e não apenas a que vende a profissionais. O que levanta mais questões sobre a relação da sociedade com a tecnologia é a distância que as pessoas continuam a ter, mesmo andando sempre com o telefone na mão. Não é mentira que temos uma população mais envelhecida do que gostaríamos, e também não é mentira que há um número enorme de pessoas com tecnologia na ponta dos dedos durante mais tempo do que seria saudável, mas isso não significa que saibam o que estão a fazer, muito menos em termos de segurança informática.
Há pouco falei do CNCS porque tenho vindo a construir, e espero que erradamente, a ideia de que os esforços estão, maioritariamente, concentrados em treinar profissionais ou pessoas que podem pagar cursos, muitos deles a partir dos 50 euros. Ora, isto é positivo, mas… e o senhor José e a dona Maria? E sim, incluo também neste cenário aqueles que se tratam por “doutor” e que sistematicamente acabam vítimas de burlas online, vendo as suas poupanças desaparecer porque alguém os convenceu a clicar no link errado em vez do link do banco. Reparem: não estou a criticar a missão do Centro Nacional de Cibersegurança, mas sim a questionar o que está o Governo a fazer para lhe dar capacidade de formar, de forma massiva, a população. Por que não criar um modelo que permita deduzir no IRS até 500 euros anuais em cursos de cibersegurança, ou afetar 0,5% do IRS automático a ações de formação digital? Que futuro estamos a preparar, afinal?
Se dermos um salto ao LinkedIn ou a outras redes sociais, percebemos que andamos todos a empurrar títulos uns para os outros, revistas a entregar prémios para cá e para lá, mas as pessoas que trabalharam a vida toda continuam sem beneficiar destes exercícios de vaidade tecnológica. Porque é que não existe um plano nacional de literacia digital que, além de reforçar a segurança nas empresas e nas entidades públicas, se dedique ativamente a treinar, apoiar e proteger quem lida todos os dias com a tecnologia? Para o leitor informado, isto pode não parecer urgente; parabéns, está no pequeno grupo que se sente confortável com o “IT”. Mas o desafio, e reparem que não digo problema, está na velocidade da mudança: vivemos numa “transparência tecnológica”, em que todos os dias surge algo novo sem que o anterior tenha sido devidamente aprendido. É impossível acompanhar esta transformação sem criar condições para uma aprendizagem inclusiva.
Onde estão os apoios às universidades seniores para colocar os seus utentes num mundo digital e ciberseguro? Onde está uma nova versão do programa Novas Oportunidades que enfrente seriamente o desafio da segurança digital, e não apenas o Excel? Meus caros, é grave, embora poucos o queiram admitir.
Em 2025, estamos a assistir ao nascimento da maior revolução digital, industrial e civilizacional desde a roda ou o fogo: a Inteligência Artificial. Ainda nem a compreendemos totalmente e já temos dezenas, senão centenas, de serviços e sistemas a lutar pela supremacia. No meio desta corrida, os atacantes desconhecidos tiram partido da nossa inexperiência e apontam diretamente às nossas contas bancárias. Basta ler as notícias: ainda há dias, a PJ deteve um grupo que, por “gozo”, emitia atestados de óbito às suas vítimas em Portugal. Não andaram a “matar” empresas nem servidores, andavam a passar óbitos a pessoas. Desculpem, mas isto não é normal. Se não forem as autoridades a fazer das tripas coração para enfrentar o cibercrime, ninguém o fará, e as pessoas de bem ficarão expostas.
Não estou a ser crítico da preparação de profissionais em cibersegurança, que é necessária e positiva, mas, se não for pedir demasiado, os cidadãos comuns também precisam de apoio. Os dados confirmam esta urgência: segundo o Digital Skills Indicator 2.0, apenas 29,9% da população portuguesa tem competências digitais acima do nível básico, e 14% ainda nem sequer usa a internet. E enquanto o Governo ambiciona atingir 80% de literacia digital básica até 2030, a verdade é que pouco avança nesse sentido. Não é ficção: que se dê um salto ao Portal da CNN Portugal e rapidamente se encontra uma senhora perdeu mais de 80 mil euros em burlas digitais e, no fim, ninguém se responsabiliza. Tudo assobia para o lado.
Se não investirmos em nós — nas pessoas comuns, no cidadão que está entre o teclado e a cadeira —, não adianta o que possa ser feito nas empresas e organismos públicos. Nada resultará.
