Simone, a mulher que espiga palavras nas pontas dos dedos. “Tratem bem de mim. Tratem bem da minha música”

30 mar, 08:10
Simone de Oliveira em concerto de despedida

“Sim, sou eu… Simone”. Sim, era ela, de corpo inteiro no último concerto da vida. Como ela quis, com quem quis, porque quis. Num abraço com o público onde, ao contrário do Sol de Inverno, se sentiu calor. Simone, a fazê-lo por gosto

29 de março de 2022. “Faz hoje 53 anos que cantei esta canção na Eurovisão. Uma coincidência que me foi contada esta tarde, não fazia ideia”. Mas Simone de Oliveira sabe que, para lá dos acasos, esta é a canção que lhe traçou o percurso, a “Desfolhada”.

E há uma frase que todos anseiam ouvir, ao vivo, pela derradeira vez. Simone estica o indicador da mão esquerda, para guiar o público para o momento apoteótico – como quem lhes diz que foi destas palavras, em particular, que estiveram à espera o concerto todo: “Quem faz um filho, fá-lo por gosto”.  

É a canção da vida dela. Simone não lhe foge. Pelo contrário, duplica-a, porque é essa a memória que quer que o público construa do seu último concerto. “Isto é muito mais do que um adeus. Termino a minha carreira nos termos que eu quis e quero”.

Simone de Oliveira vem vestida de negro. Nas longas mangas, um tecido branco a contrastar. Leveza e elegância para servir, numa última oportunidade, uma plateia que a vê, com o mesmo engenho de sempre, moldar as palavras dos poetas. Ary dos Santos e David Mourão Ferreira, os seus prediletos.

Volte-se ao momento em que tudo começa. No Coliseu dos Recreios, em Lisboa, não restam lugares. O burburinho cessa mal se percebe que a cortina vai subir. De imediato, aplausos. O público conhece bem quem vem ver. Mais do que seguro, é imperativo aplaudir, ao fim de 65 anos de carreira. “Se eu quiser fumar eu fumo, se eu quiser beber eu bebo”. Ouve-se Simone de Oliveira.

A escolha não é inocente. A canção chama-se “Preconceito”, algo que é ainda, nas palavras da própria, “uma triste realidade”. Simone vem com a luta de sempre, a da emancipação feminina, cravada nas profundas rugas do rosto. “Fui rebelde, contestatária, opiniosa. E continuarei a sê-lo”. Porque ela é futuro, sempre.

Simone de Oliveira nunca abandona o palco. Mas há um ponto do concerto em que decide, deliberadamente, deixar de ser a protagonista – como se isso, alguma vez, fosse possível. Há uma generosidade nos gestos suaves com que introduz quem chega. A artista está em casa, no palco, e faz questão de receber os amigos. 

Simone quer continuar a existir para lá da morte. Sabe que a desafiou várias vezes, de formas distintas. Primeiro porque recuperou uma voz que se julgava perdida. Agora mais grave, mais rouca, mas igualmente cheia. “Reinventei-me”. Depois, por lutar contra uma doença que poderia ter significado o fim, o cancro.

Simone quer continuar, mesmo quando não lhe for possível fintar o inevitável. E há uma forma de o fazer: nas vozes das novas gerações que reinterpretam o seu legado. “Cada vez que isso acontece, um artista renasce”. O sorriso cresce-lhe ao dizê-lo. A idade aligeira-se-lhe.

Simone quer ver-se renascida na despedida. E daí que, num dos temas mais marcantes do seu percurso, fique apenas a assistir. “Sol de Inverno” tem esta noite uma voz masculina a interpretá-la: Edmundo Inácio, vindo do "The Voice Portugal", um dos programas favoritos da artista. A diva maior só intervém mesmo no final, para provar que, nem aos 84 anos, nos podemos levar demasiado a sério. “Se tivesse feito estas voltas”, diz, tinha conseguido um lugar melhor na Eurovisão. O elogio ao futuro está lá. Simone continua.

Na despedida, Simone agradece a todos. Até “à senhora que me levou o café – e o tabaco, claro!”. Sabe que, sozinha, o percurso não teria sido o mesmo. “És grande”, grita-lhe uma fã do palco. E ela, uma vez mais, ri-se de si mesma: “Um bocadinho, já fui maior”.

Mas Simone de Oliveira – grande, imensa - sobe a este palco, pela última vez olhos nos olhos com o público, para deixar um pedido. “Tratem bem de mim. Tratem da minha música”. E todos querem fazê-lo, no aplauso prolongado (mas sempre demasiado curto) que serve de abraço.

A cantora, que foi tudo na vida, não quer chorar. Segura-se até ao fim. Ainda vacila, perante a plateia de pé, mas cumpre. Na derradeira vénia, entrega-se como em cada canção: inteira, com a energia a fluir até às pontas dos dedos. Levanta as mãos, estendidas para o público. É a artista de corpo aberto, pronta para receber o carinho que entendeu ser o último. Ainda encosta os polegares à fronte, como quem diz que não merece tamanho reconhecimento.

Simone bebe o público. Simone inspira o público. Com o mesmo gosto (talvez maior?) com que fuma um cigarro.

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