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A história de um dérbi algarvensis

Pedro Lemos , Estádio Dr. Francisco Vieira, Silves
20 out 2025, 09:10
Taça de Portugal: Silves-Louletano (Pedro Lemos/Maisfutebol)
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Reportagem no dérbi algarvio Silves-Louletano, da 3ª eliminatória da Taça de Portugal, que acabou com a vitória da equipa da casa por 2-1, após prolongamento

Crescer no Algarve com este patológico amor ao futebol não é fácil. Puxo do exemplo pessoal para início de história: tinha 14 anos quando assisti, pela primeira vez, a um jogo da I Liga disputado na região. A cada época renovava-se sempre a esperança de ver grandes embates de equipas algarvias nas principais provas: I Liga ou Taça de Portugal. Um dérbi é sempre um dérbi e, numa época em que a região volta a não estar representada no principal escalão, quis a sorte que Silves (Distrital) e Louletano (Campeonato de Portugal) se encontrassem na prova-rainha. E, sim, houve direito a tudo: reviravoltas, insultos, gritos, festa e até às piadas do senhor Ilídio.

Taça é Taça e ela faz-se no meio de quem é o verdadeiro motor do futebol: os adeptos. Daí que, apesar da cabine de imprensa envidraçada e com boas condições, a decisão foi clara desde o início; este é jogo para se ver na bancada, junto das centenas de adeptos que encheram o Estádio Dr. Francisco Vieira.

Um deles, que só avistaríamos ao longe já a meio da segunda parte, era Ilídio Guerreiro que, uma hora antes do jogo, já andava nas imediações do Estádio.

«Então e não vens ver o Silves hoje?», perguntava, ao telefone, numa chamada que decorria em altifalante para quem quisesse ouvir. «Pediram-me 7,5 euros pelo bilhete, mas eu já cá estou!».

O sorriso fácil, aliado ao à-vontade com que ia cumprimentando várias pessoas, foi um sinal claro de que ali haveria motivo de reportagem. Não nos enganaríamos.

«Eu conheço toda a gente e toda a gente me conhece», dizia. «É que sabe: eu nasci em Alvor [Portimão], mas vim para Silves aos 9 meses e por cá tenho feito a minha vida».

 

 

Funcionário num restaurante explorado pela irmã, Ilídio Guerreiro vai desenrolado um novelo de acasos que o fizeram decidir que hoje era dia de «voltar a ir à bola».

«Eu já não venho ver um jogo há mais de 30 anos. Normalmente, estou a trabalhar, mas, como fui operado, e o restaurante agora está fechado, pensei: é hoje que vou lá», diz.

Apesar de não ir ao estádio, dois dedos de conversa bastam para perceber que o senhor Ilídio nunca se desligou da vida do Silves. Recorda a boa prestação, na Taça de Portugal de 2018, em que só foi eliminado pelo Rio Ave (7-0) na 4ª eliminatória, ou uma outra campanha - essa em 1987 - que só acabou com uma derrota em Guimarães, frente ao Vitória.

«O meu irmão foi lá ver o jogo! Era com ele que estava a falar ao telefone ainda agora», acrescenta. E ele sempre vem hoje? Conseguiu convencê-lo?, perguntamos.

«Vem, vem. Isso é certo», responde.

A esperança, porém, é pouca numa boa prestação do Silves. «O Louletano é superior e acho que vão ganhar com facilidade. Podemos gostar muito da nossa equipa, mas temos de ter olhos na cara. Agora... pode haver um milagre. Ainda ontem, duas equipas da I Liga perderam com outras de escalões inferiores, não foi?».

À pergunta, junta-se outra que nos apanha desprevenidos: «o senhor sabia que eu sou comediante? Pesquise lá aí: Ilídio Guerreiro. Vai encontrar vídeos meus no Tik Tok para rir que nunca mais pára». Os números não mentem: são quase 30 mil seguidores só nesta rede social.

«Então e não me conta uma piada para fim de conversa?», pedimos. «Já lá vamos, já lá vamos».

 

Um irredutível louletano

Para ser honesto, não foi fácil encontrar adeptos do Louletano em Silves. Apesar de ser, porventura, a maior potência desportiva do Algarve (com pergaminhos também no ciclismo, natação e ginástica, por exemplo), o emblema de Loulé não é conhecido por ter grandes assistências nos jogos de futebol.

Mas há exceções: Henrique Silva chega a Silves já perto das 14h30 e confessa a dificuldade para estacionar o carro. Ao seu lado, está um amigo - que acaba por não participar na conversa por estar ao telefone. Ambos, apresentam-se equipados à Louletano.

«Em Loulé, é mais ciclismo... A juventude vai alinhando alguma coisa para tomar o vício. Nós costumamos ir aos jogos todos. Mesmo fora, desde sempre. Normalmente somos um grupinho de cinco. Para a semana, jogamos em Serpa, para o Campeonato, e lá estaremos», revela.

Mas hoje, o dia era de Taça de Portugal. E logo no Algarve. «Por ser um dérbi, tem aqui outra envolvência. Eu acho que temos equipa para ganhar e tenho mesmo esperança numa grande campanha do Louletano este ano, na Taça de Portugal», vaticina.

 

 

 

Na sua memória, Henrique tem grandes eliminatórias que a equipa de Loulé disputou no passado. Essencialmente nos anos 90.

«Lembro-me bem de uma com o Porto, em Loulé, em que fomos roubados [1991/1992], com um golo já no final. Mas também me recordo dos jogos com o Benfica, em 1992/1993 e em 2000/2001. Foram partidas taco a taco, mas já se sabe que quem manda... é o maior», diz.

Esses três jogos têm uma outra coisa em comum: foram disputados por um dos maiores símbolos vivos do Louletano. Gilson Pagani, defesa central brasileiro que jogou neste clube algarvio de 1987 a 2002. Foi capitão e nunca se desligou do emblema: hoje é diretor-geral para o futebol.

Haveríamos de o encontrar junto ao balneário do Louletano. O pedido de rápida entrevista é aceite com a sua simpatia habitual. «Eu joguei aqui em Silves, tanto no pelado como no relvado. Eram sempre grandes equipas, aguerridas. Lembro-me de um defesa-central em particular - o Babá - que depois também esteve no Imortal. Os jogos eram sempre uma guerra, mas no bom sentido», diz.

As partidas frente a equipas algarvias, reconhece, «são sempre especiais». Se forem para a Taça, ainda mais: «este é daqueles que nem precisa de aquecimento. Nós estamos confiantes. Mantivemos 90% do plantel, a época começou bem [o Louletano lidera a sua série no Campeonato de Portugal] e esperemos que assim continue».

 

Rápido, rápido que o jogo está a começar

A conversa com Fátima Sequeira - e o grupo de amigas que a acompanha - já estava combinada há horas, mas quis o destino que só acontecesse a minutos do início do jogo. Nada de grave: a Fátima, juntam-se Débora Santos e Bárbara Silva. Fátima e Débora são de Faro, mas moram em Silves há anos; Bárbara é silvense de gema.

«Já tínhamos pensado em vir ao jogo antes porque temos amigos e familiares na equipa. O Silves tem de ganhar! Ser um jogo da Taça, tem aqui um impacto diferente», conta Fátima.

E acrescenta Bárbara: «no ano passado, voltou a haver uma claque de Silves devido à Taça do Algarve, que perdemos na final, e isso mostra qualquer coisa».

Quando entramos no Estádio já a bola rola e é precisamente a jovem claque que vai animando as hostes. «Braços no ar! Todos de pé! Vamos cantar: Silves, allez!».

 

 

 

E é ali, no meio da bancada, que assistiremos a 120 minutos de um verdadeiro dérbi. Porque teve de tudo: o Louletano marcou primeiro ao minuto 36, por Chima. Na segunda parte, o Silves empatou por Rofino Có (51m).

O resultado não se alterou, obrigando a um prolongamento repleto de emoção e que ficou decidido em cima do minuto 120. Lucas Tavares saltou do banco para, com um remate dentro da área, selar a passagem do Silves à 4ª eliminatória da Taça de Portugal. É a única equipa do Distrital ainda em prova - e, na próxima ronda, jogará com o Farense, noutro dérbi algarvio.

No meio dos festejos, ainda vislumbrei os saltos de Fátima e das amigas, efusivas com o feito da sua equipa. O senhor de camisola azul, que assistiu ao jogo três cadeiras ao lado, e foi pedindo recorrentemente aos jogadores que arriscassem um chapéu porque «o guarda-redes deles está sempre adiantado», também não cabia em si de contente.

E a claque silvense despediu-se do Louletano com gritos e alguns insultos que ainda obrigaram a que os ânimos fossem resfriados. É assim em qualquer dérbi.

Ah, e a piada do senhor Ilídio, que tinha ficado prometida, também não ficou esquecida:

«Um marido ganhou uma viagem para três pessoas para a Terra Santa. Diz logo a mulher: vamos levar a minha mãe. Ela sempre disse que adoraria lá ir!

O marido aceitou, mas, por azar, a velhota morreu lá. Foram ver quanto custaria o funeral em Portugal: 40 mil euros. Lá, só custava 180 euros. Diz o marido: não, não. Eu quero a minha sogra enterrada em Portugal.

Diz a mulher: estás doido, vais gastar um monte de dinheiro com o funeral, ao que o homem responde: é que há 2000 e tal anos, morreu aqui um senhor que ressuscitou».

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